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14 dezembro 2008

ANARCRÔNICAS III

NA TÁBUA DA BEIRADA


Eu queria era ver agoooora ! Francyelly Keylla estava voltando. Foram quase três meses de sucesso absoluto como mulher-umbu, uma natural referência às predileções sexuais do rapaz, que chamava-se Haroldo José, de acordo com seu registro natural. Foram quase três meses, como ia dizendo. Para ser mais exato, 85 dias. Um período de festa total desde que foi flagrado com um famoso jogador de futebol, em um badalado motel da zona sul. Fotos, flashes, entrevistas em programas vespertinos. Até assessoria de imprensa ele contratou.



No decorrer desse período, Francyelly/Haroldo conheceu a luz. Não imaginava – jamais pensaria – ser possível que algumas pessoas pudessem viver assim. Aquilo nunca foi luz. Holofote sim, seria a palavra adequada (valei-me São Platão, Ave Beato Saramago, Salvai-me Dom Neo, Socorro, Baudrillard !). Champanhe ? Muita. Como água de torneira. Caviar ? Fedido, porém elegante, apesar do gosto de baiacu cru (se permitem-me o quase cacófato), aliás, baiacu cru não... Fugu, como falam os japoneses (ele/ela aprendeu...). Salmon é os cacete, ainda berrou da primeira vez, o certo é salmão ! E mesmo assim, nunca vi, só ouço falar... Mas comeu. E como... E agora ?


Faxina na Caverna do Platão


Como explicar para todos no cortiço o seu sumiço ? Tinha que voltar, o dinheiro das fotos da revista, digamos, poli-sexual, havia terminado e ninguém mais pagava mich... ops, cachê para que desse entrevistas na tv: a mãe do filho do Miquijegui, nem pensar.... A fama ? Babau. Afinal oitentissinco dias fora um recorde absoluto. Tinha ouvido falar, numa vernissage (até isso, até isso...), num tal de Andiórol (remédio ?) que teria dito que a fama dura quinze minutos apenas. Ual (era assim que escrevia no messenger...) ! Sou quase um sócio do Guiness !


Voltou. E ninguém entendeu nada. Pior ainda: faziam piadinhas sobre bicha pobre e bicha rica, lembrando o Costinha. Gentalha ! Para eles, riqueza era carro mil do ano. Teve que voltar ao tanque, ao varal (em todos os sentidos) e aos prazeres comezinhos com a meninada da favela e a obrigação profissional paga no calçadão. Diziam pelas bandas do Toco Cru Pegando Fogo (nome da sub-vila na qual ficava o cortiço, no meio da grande comunidade) que ela havia se americanizado. Pediam dinheiro emprestado, assediavam, até que um dia... Esqueceram Francyelly Keylla. Escuro. Prisão. Vida porqueira... Nem havia com quem comentar...



Um dia, no calçadão, surge a Nissan. Prateada. Um touro deitado. Buzina, pi-pi. Não se alembra di eu gata ? Era ele. Ele, o jogador. Estou voltando prazeuropa, vou jogar agora no El-Elal dazarábia. Vem comigo ?


Um filósofo passava. Parou. Viu. Ouviu. Cyelly percebeu. O senhor pensa ? Cogito ergo sum. Então fala pro velho Platão que ele é um feladaputa !


Partiu no zepelim prateado.


E que Platão, Maupassant
ou Chico Buarque contem outras...


10 outubro 2008

ANARCRÔNICA II

A CEREJEIRA E O ROSA NO VENTRE DA MULATA ESMERALDA:
UMA HISTÓRIA DE INCONFIDÊNCIAS MINHEIRAS

OU

MISTURANDO ALHOS
COM BUGALHOS*

(Alexandre Campinas)

(*
Chama-se bugalho a uma excrescência de forma
arredondada que se forma em algumas espécies
de ávores do género Quercus - carvalhos, sobreiros e azinheiras -
na sequência do depósito, num dos seus ramos, de um ovo de vespa.
A vespa desenvolve-se e alimenta-se no interior do bugalho,
onde passará por todas as fases das suas metamorfoses:
larva, ninfa e insecto adulto.)


"Onde eu estaria feliz"
(Emiliano)


Esta fábula (sim... todas as criações minhas, animais meus são) aconteceRIA durante o período da invasão nipônica à Ilha dos Papagaios, idos quinhentistas. Os bravos bandeirantes estic’olhos do bairro da Liberdade deram de fundar na província das Minhas Gerais um pequeno aglomerado caipirurbano ao qual deram o nome de Nova Nagasaki (que ânus depois chamar-se-ia Cordisburgo). Uma tentativa de recriar em terras coloniais tupiniquins a megalópole original, destruída em um vago agosto do futuro pelas forças imperialistas paraguaias, à força de uma bomba de absolutos nêutrons literários: Pablo Cornijo, Dan MacCookie Brown e Lair Ribeir'agüada.


A vila foi fundada pelo nobre déspota bandeirante imperial Joaquim Manoel Toshiba e Toshiba, afilhado do imperador Hiroíto Nuno Saibro. Subitamente a cidadela envolta em paliçada (mór de palh'assada, menos beligerante) revelou imensa vocação floricultora. E aqui temos o início desta saga libertária-agrobisinática. Quase sem querer.


Os colonizadores plantaram nas incipientes ruas abertas do cerrado algumas cerejeiras-de-tamancos (palus lisboensis), originárias de sua terra, que, ao fim e ao cabo revelaram ser aquele solo habilitadérrimo para tais plantamentos e usufrutos, como assim o descreveu a filósofa nova-nagasaquiçençe Narcisa Tamborindeguy. em seu método desexistencialista “AI, QUE LOUCURA ! - O MUNDO É UMA ROLHA ESPOCADA DE VEUVE CLICQUOT” . O pioneiro Toshiba e Toshiba deu então de por por idéia fixa em seu processador Intel-carno-miudátido de outorgar que aquele seria o sustentáculo da terra. Nada mais haveria de plantar-se, ou lavrar-se ou criar-se além do ícone floriabundo da terrinha.


Acontece, porém, que o tirano apaixonou-se perdidamente por Esmeralda, uma mulata passista, madrinha de bateria da G.R.E.S.T.A.P.O - Grêmio Recreativo e Escola de Samba Tupiniquins Afro-Puros e Oníricos. Entidade sambo-cultural criada por ele mesmo (todos os déspotas nipônicos são loucos por mulatas e samba, como é de conhecimento impudico) e da qual era presidente, presidente-de-honra, padrinho, bicheiro esponsorista e diretor de harmonia.


Linda, a Esmeralda. Olhos verdes como convém as Esmeraldas literárias, corpo de um marrom-cobreado estonteante que emanava ondas de gengibre, alcaçuz e canela. Ele tomou aquela jóia para si, entretanto nunca foi de todo feliz porque nunca consumou a união. Toshiba e Toshiba sofria de brochurus falus mínimus o quê justificava sua tirania e megalomania (é Freud!) ficando assim a pobre (e tesuda) Esmeralda na mão, vivendo infeliz, ainda que cercada de mucamas e eununcas.


Tudo isso sucedeu-se impositivamente até que um tupiniquim por nome de João Guimarães Miguilim – um homem que amava chãos, rios, jacarés, mulatas e ROSAS foi contratado como ministro-jardineiro-chefe das Matas de Esmeralda (região úmida, contígua à quinta onde habitava - sem, entretanto, usufruir - o japa). A sensibilidade enorme daquele Miguilim roubou o coração (e outras partes pudendas) da mulata Esmeralda, já a esta altura subindo pelas paredes pela falta de, digamos, atenções.


(Em + os) vários colóquios que tivera com a Esmeralda, o jardineiro convenceu-a do perfume da ROSA. Ela, que nunca havia visto nada que não fossem as cansativas cerejeiras-de-tamanco, que a cada florada exalavam ao modo do acre cod-no-head-fish, ofertou ao poeta o seu próprio cod(igo secreto), em reconhecimento e desespero de causa.


Tramaram os amantes a Revolução das Rosas. (Em + a) surdina vírgula cooptaram a força pública vírgula os meios jurídicos vírgula a alta-saciedade e o polvo pelo obséquio-corruptício das sementes da ROSA, com que fizeram regalo a cada um deles, polvos* (histériscos vide logo abaixo) que, por sua rês, seguiram à risca os conselhos do jardineiro, espargindo-as por todo o chão da municipalidade.



* PAUSA PRO HITÉRISCO CULINÁRIO

(GRIFOS E PARÊNTESIS - NEPÓTICOS - LIBORTÁRIOS, ÓBVIOS CHAMATIVOS DE ATENÇAUM, DOIS, TRÊS... POR CONTA E RISCO DO ALL THOR)

Polvo Assado na Brasa

(Mundialmente conhecido pela all cu nha de:

PERDEU, JOSÉ MANOEL, PERDEU...)

Ingredientes
800 g Polvo
480 g Batatas
40 g Alho(s) (ainda bem que sobreveio o "(s)" ! Um alho de 40g seria do car)
160 g Pão
200 g Cebola
60 g Azeite
Envolve-se o polvo numa serapilheira (Q'PORRAÉESSA?) ou pano grosso e com, um pau bate-se muito bem (no polvo, porra... sempre no polvo...) para ficar tonto (comme d'habitude, my way, etc). Lava-se e coloca-se o polvo sobre a grelha a assar na brasa e deitam-se as batatas com casca na brasa do borralho. Quando as batatas estiverem assadas, limpam-se bem e dá-se-lhes uma pancada (eu avisei... eu avisei !) para as esborrachar (tá vendo ?!) sem as desfazer (claro... e a massa ? aquela de manobra...). Entretanto, picam-se os alhos (tô fora do infinitivo sem artigo !), a salsa e a cebola e junta-se o azeite. Colocam-se o polvo e as batatas com a casca numa travessa e rega-se tudo como molho. As batatas podem ser assadas no forno.

RITORNA, NOJENTO... TCHAN!


Na primeira florada, as oloríferas ROSAS entupiram as ditatoriais narinas, numa crise alérgoligofrênica que tampou-lhe a glote, a epiglote, o cangote, os bofes e os cambáus (chamado eufemisticamente de cu). Tal anaerobidade veio a ser o final (de + aquela) tirania, cujo corpo foi jogado para que os rouxinóis do imperador o devorassem e o tornassem esterco (ôôô...) (em + aquelas) terras, enchendo seu solo de fertilidade e plantando nas suas gentes o repúdio indignado à imposição (quaisquer [de + elas]) (foda-se, maths), gerando o permanente desejo de liberdade, ainda que à tardinha, período do dia em comemorava-se o passamento do malvado japonês.


E, como au fináu de toda fábula há um adágio ou algo semelhante que a corrobore, seguem as palavras do Rosa, o pluriúnico e verdadeiro:


“Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo profundamente os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.”

(João Guimarães Rosa)


E quem quiser que conte outra.

30 setembro 2008

AINDA SOBRE DISCRIMINAÇÃO

Para corroborar o post abaixo, sobre a data das
"LEIS ANTI-ESCRAVAGISTAS" do Império,

o Quintal Literário mostra as imagens
do passeio ao cinema e repete
parte do texto anterior.


2008.

Uma escola municipal da periferia
de Belo Horizonte programa excursão
de seus alunos (entre 6 e 14 anos) para um
shopping center, classe AAA, da cidade,
a fim de assistir um filme.

Pais e responsáveis pagam - muitas vezes
com moedas contadas (a maioria com valores entre
R$ 0,05 e R$ 0,50) - à custa de muito sacrifício.

O valor de R$ 5,00 inclui o ingresso
e um pequeno lanche.

O shopping center, classe AAA,
permite que pequenos animais domésticos
acompanhem seus donos nos programas de compras.


Animais e donos freqüentam o mesmo
espaço amplo, com boa decoração, piso de granito
e tudo mais que imagina-se encontrar em um
shopping center, classe AAA.


No shopping center, classe AAA,
uma via de acesso "especial" foi preparada
para que transitassem as crianças mulatas,
mestiças, negras, todas lindas,
da cor do Brasil.


Há um portal.

Ele dá acesso ao interior do
shopping center, classe AAA.

O grande e iluminado portal da
igualdade é contornado
pela via "especial".



É que a via "especial" não possibilita
nenhum contato das crianças
com o interior do shopping center, classe AAA,
e tampouco com os usuais
freqüentadores, classe AAA
(e seus eventuais pets).


Crianças tão lindas seriam um caso
de emergência para o shopping center,
classe AAA ?


Cadê o piso de granito ?

Onde as vitrines
esmeradamente decoradas?



Glamour ?

Respeito ? Igualdade ?!?!

Saída de emergência ?
Ou de serviço ?



É que lá, no shopping center,
classe AAA,
não é lugar de Kizomba.


É claro !

Kizomba está além da classe AAA.
A Kizomba, a festa do povo negro
que resiste à escravidão, e exalta
a vida e a liberdade,
significa congregação, confraternização.

A etimologia de confraternização,
remete a frater. Do latim, irmão.
Somando-se ao radical, o prefixo e sufixo
que formam a palavra,
teremos a livre interpretação de
REUNIÃO DE IRMÃOS.

Como o shopping center foi feito
apenas para a classe AAA,
tal espaço de consumo irreal
e divertimento duvidoso, infelizmente,
passa ao largo da cultura inicial
(berço de todos os irmãos da raça humana,
que independe da cor da pele)
que, por tão generosa,

vai do Alfa ao Ômega.

Como seria maravilhoso
se a classe AAA soubesse ler.

Se soubesse apreender significados
antes de impor significantes.

Zumbi: valeu !


Aos filhos de um mesmo mundo


Guarda sua arma,
meu peito é aberto.
As suas, nas minhas mãos,
aperto, pouso certo.
Irmãos:
luta, vida, karma.

Já há paz que flui,
horizonte em revolução.
A mente irmã distribui
ternura sempre e socialização.
Desejamos e construímos:
saúde, escola e pão.
Diferenças partilhadas,
colheita que nasce do chão.

Guerreiros de Jorge querem paz;
conosco a mão de Ogum.
Junta com nosso braço e faz
força fraterna, mais um.

27 setembro 2008

DIA 28 DE SETEMBRO

LEI DO VENTRE LIVRE (1871)
LEI DO SEXAGENÁRIO (1885)

Morto, sim; escravo, não !


Olha palma, palma, palma...
Olha pé, pé, pé...
Roda, roda, roda, menina

Que veio lá da Guiné
Mas existe...


"Existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e covardia"
Assim gritou a fúria do poeta
Com a dor do negro escravo que tanto sofria...
E hoje, relembrando Castro Alves
O povo desce sambando e cruza os mares
E um afro canto banto nos devolve...
A luta que nasceu com Zumbi dos Palmares

Oiá, Zumbi... bravo irmão
Deste a própria vida para não trair
Aqueles que lá no Quilombo
Palmaram teus ombros
De um congo fiel
Morto sim! Escravo não!
Canta tua memória lá da Chácara do Céu
Que a voz operária é a do Borel

Olha a palma, palma, palma...
Olha pé, pé, pé...
Roda, roda, roda, menina
Que veio lá da Guiné
Mas existe...
(Levante do Borel - Taiguara
vide mais abaixo)


Dona Ivone Lara: rainha !




O NAVIO NEGREIRO
(Tragédia no mar)


(Castro Alves)


VI

(...) Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...
Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...


Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares! (...)

*


2008.


Uma escola municipal da periferia
de Belo Horizonte
programa excursão
de seus alunos (entre 6 e 14 anos) para um

shopping center, classe AAA, da cidade,
a fim de assistir um filme.


Pais e responsáveis pagam - muitas vezes

com moedas contadas (a maioria com valores entre
R$ 0,05 e R$ 0,50) - à custa de muito sacrifício.

O valor de R$ 5,00 inclui o ingresso
e um pequeno lanche.


No shopping center, classe AAA,
uma via de acesso especial
foi preparada

para receber as crianças mulatas, mestiças,
negras, todas lindas, da cor do Brasil.


A via de acesso não possibilita
nenhum contato das crianças
com o interior do shopping center, classe AAA,
e tampouco com seus usuais
freqüentadores, classe AAA.



Com a palavra, TAIGUARA.





É que lá, no shopping center,
classe AAA,

não é lugar de Kizomba.

É claro !

Kizomba está além da classe AAA.

A Kizomba, a festa do povo negro
que resiste à escravidão, e exalta
a vida e a liberdade,

significa congregação, confraternização.

A etimologia de confraternização,
remete a frater. Do latim, irmão.
Somando-se ao radical, o prefixo e sufixo

que formam a palavra,

teremos a livre interpretação de
REUNIÃO DE IRMÃOS.

Como o shopping center foi feito
apenas para a classe AAA,

tal espaço de consumo irreal
e divertimento duvidoso, infelizmente,
passa ao largo da cultura inicial

(berço de todos os irmãos da raça humana,

que independe da cor da pele)
que, por tão generosa,

vai do Alfa ao Ômega.

Como seria maravilhoso
se a classe AAA soubesse ler.

Se soubesse apreender significados
antes de impor significantes.


Zumbi: valeu !







*


*
Kizomba, a festa da raça
(Rodolpho, Jonas e Luiz Carlos da Vila)

Valeu Zumbi

O grito forte dos Palmares

Que correu terras céus e mares
Influenciando a Abolição

Zumbi, valeu

Hoje a Vila é Kizomba

É batuque, canto e dança
Jongo e Maracatu

Vem menininha pra dançar o Caxambu
Vem menininha pra dançar o Caxambu


Ô ô Nêga Mina
Anastácia não se deixou escravizar
Ô ô Clementina

O pagode é o partido popular


O sarcedote ergue a taça
Convocando toda a massa

Nesse evento que congraça
Gente de todas as raças
Numa mesma emoção

Esta Kizomba é nossa constituição

Esta Kizomba é nossa constituição

Que magia

Reza, ajeum e Orixás
Tem a força da Cultura
Tem a arte e a bravura

E um bom jogo de cintura

Faz valer seus ideais

E a beleza pura dos seus rituais

Vem a Lua de Luanda

Para iluminar a rua
Nossa sede é nossa sede
De que o Apartheid se destrua

Valeu,
Valeu Zumbi

*

22 setembro 2008

Montagem ?
Muito treinamento ?


Ou... poesia ?


19 setembro 2008

MINHA ILHA
( CARMINHA HORTA )


A MINHA ILHA FICA SEMPRE DENTRO DE MIM.

QUANDO PARTO SAUDOSA, ELA NÃO PERGUNTA SE VOU VOLTAR

FICA ME OLHANDO ATÉ O MEU BARCO SUMIR.

AS NUVENS QUE PARTIRAM NA MINHA CHEGADA,

VOLTARAM A COBRIR MINHA ILHA COM SEU MANTO CINZA,

COMO SE COMPREENDESSEM A DOR DA SAUDADE

QUE EU E ELA SENTIMOS NA HORA DE PARTIR.


SIGO MUITOS CAMINHOS, CONHEÇO OUTROS MARES

NAVEGO SEM INSPIRAÇÃO, NÃO CONSIGO REMAR CONTRA A MARÉ.

MINHA ILHA ENVOLVENTE, DE ÁGUAS TÃO QUENTES

ME EMBALA COMO UMA LINDA MULHER.

NÃO DÁ PRA VIVER SEM VOCÊ

SUAS CURVAS PERFEITAS, SUAS LINHAS EXATAS,

ME MOSTRAM SEU PERFIL DE DEUSA DOS MARES

NAS SUAS PRAIAS DE AREIAS PRIMITIVAS,

MEU CORPO DEITO, PRA RELAXAR:

ME ACHEGO PRA LÁ, PRA CÁ

E SINTO NA PELE, ALGO QUE NEM SEI EXPLICAR

CORRENDO OS OLHOS NEM SEI O QUE PRIMEIRO OLHAR:

SE SUAS PRAIAS, FLAMBOYANTS

OU SUA BRISA QUE VEM LÁ DO MAR.


POR TANTOS ISSO E AQUILO,

EU TE AMO, PAQUETÁ.



HAIKAIZINHOS BESTAS

Vontade danada
de comunicar conciso.
Sei: Matsuo baixou.
****
Ventilador preto,
antigo, de bisavó.
Um vento a ventou.
****
Nenhum homem é
uma ilha. Besteira, que
eu sou Paquetá.
****
Fred baila no ar
e um anjo de pernas tortas
diz: - joão, vem dançar !
****
Queimou soutiens;
moda com revolução.
Sobraram peitinhos.
****
Travesseiro espera
a cabeça oca, de tanto,
prum milhão de sonhos.
****

05 setembro 2008


Abraço
(Amanda)


Eu quero um abraço,
mas tem que ser abraço
sincero, abraço amigo.
Abraço família ou
abraço apaixonado.

Preciso de um abraço;
um bem forte, ou
um bem fraco. Alguém
que ame. Eu quero gritar:

- Eu quero abraço !

Agitar, beijar...

Quero chorar, esconder,
pifar.
Eu quero sumir, desaparecer,
eu quero errar.
Eu quero lutar,
tentar, vencer,

brigar.



Ponto Final ?!
(Kinha)

Um passo após o outro,
Um sorriso após um olhar.
Algo me deixou com vergonha,
Algo me fez voltar a sonhar.
Então, agora eu sigo em frente.
É assim que vai ser?
Olhando rostos e percebendo olhares,
Mas o estranho, é que nada me faz lembrar você.
Ao som de um piano,
Deixo-me ser levada pela música.
Pareço estar voando...
Eu não me importo de estar aqui, como uma louca,
Dançando sozinha.
A melodia, tão antiga,
Mas ao mesmo tempo parece ser tão nova...
Ela me leva ao alto,
Ela me faz sorrir.
Não, isso não é uma lágrima de tristeza.
Perceba:
Ela apenas indica um ponto final.
E, ao mesmo tempo,
Indica um novo inicio.

Os petiscos de Felipe
(Mão Branca)

A moçada divertia-se no bar. Chamavam cervejas, contavam causos, o mais animado era Felipe, havia finalmente comido a vizinha e contava todos os detalhes com gestos. Riam. Era o centro das atenções. Somente Kátia, a vizinha, permanecia calada.

Ele viu, escondida ao fundo, uma conhecida a quem emprestara dinheiro. Sabia que a mulher era carne de pescoço, desvencilhava-se dos compromissos, mentia e difamava para livrar-se de dívidas. Não deveria ter emprestado, mas ela o ludibriara choramingando sobre dores e privações. Era mixaria, não fazia falta, porém o que incomodava era a desfaçatez da devedora. Se não podia pagar, não deveria estar gastando com bebida.

- Oneide! – Gritou ao fim do causo, olharam para ela. – Escondida de mim? – Sorriu. Era carismático. Tinha em si a atenção do bar. Endureceu o cenho e falou ríspido. – Tá pensando que vai me dar o calote? – O clima ficou pesado, muitos silenciaram. A mulher encolheu-se ruborizada na cadeira. Felipe emendou: - Sem trote. Tem minha grana?

Ela gaguejou, respondeu coisas desconexas, tentou se justificar culpando outro alguém, sem explicar como tal pessoa poderia ser responsável, e não ela própria, pela dívida.

- Não tente me enrolar, Oneide! – Cortou Felipe. Risadas ecoaram, conheciam a mulher, uma trambiqueira imoral que se dizia desafortunada, embora possuísse imóveis e investimentos. Tinha o hábito de pegar carona para economizar o carro, de surgir nas casas alheias durante as refeições para filar as bóias, nunca pagava 10% aos garçons, se pagava a conta, pois era comum desaparecer nestas hora. – Tem meu dinheiro?

- Sim. – Balbuciou a mulher. A boca rasgada lembrava a de um baiacu seco na areia. – Vamos até minha casa, lá te darei o dinheiro.

“Ohhh”, gozaram os amigos do rapaz, aplaudindo o pagamento. Seria a primeira vez que alguém resgataria uma dívida com aquela pilantra.

- Quando eu voltar, pagarei a rodada! – Gritou o jovem. “ÊÊÊ”, responderam.

Demoraram quase duas horas. Kátia reclamou durante todo o tempo: “Cadê o Felipe?”, “que atraso”, “onde foram?”, “será que aconteceu algo?”.

Oneide apareceu na porta do bar, um saco plástico na mão e uma expressão indefinível no rosto. Depois diriam ser sadismo, ou loucura.

- O Felipe recebeu o dinheiro e voltou para casa. – Anunciou. Muitos estranharam, ele vivia no bar. – Me pediu para trazer isto. – Levantou a sacola. – São vísceras: fígado, coração... para fazer o petisco da cerveja.


“Grande Felipe”, ouviu-se. “Sempre alimentando os amigos”, murmurou outro. Levaram o saco para a cozinha, limparam e temperaram a carne. Fritaram em pedaços que serviram a todos no recinto.

- Uma delícia. – Aprovou Kátia. – Gostosa como o próprio Felipe. – Os amigos deram risadas e lamberam os beiços satisfeitos.

Durante a semana os assuntos no bar foram as vísceras de Felipe, “saborosas como o próprio”, gracejavam da namorada. Esta, contudo, andava encucada com o sumiço do rapaz.

Surgiu nas redondezas o boato que Oneide havia sido presa. Kátia foi convocada à Delegacia para prestar depoimento sobre a mulher.

– É uma pilantra. – Segredou Kátia ao policial, satisfeita por avalizar a má-conduta da mulher.. – Foi presa por dívida?

- Coisa pior. – Disse o policial. – Assassinato.

- Assassinato? – Tremeu a moça. – De quem?

- Não sabemos ao certo. – O homem consultou uns documentos. – Achamos um cadáver meio enterrado em sua casa. Morto há uma semana.

A moça sentiu vertigens.

- Uma semana?

- Sim. – O homem foi até o computador. – Ainda não fizemos o reconhecimento. – Abriu umas fotos e as examinou. – Era um rapaz. – Fez uma careta. – Foi brutal. Ela o matou com uma pancada na cabeça, depois abriu sua barriga e arrancou as vísceras.

- Vísceras? – Tremulou Kátia.

- Sim, ainda não as encontramos.

A moça esforçou-se para falar. Uma golfada de vômito prendia-se em sua garganta. A voz saiu fina, embargada.

- “Saborosas como o próprio Felipe”.

28 agosto 2008

O Deus da Raça
(Alexandre Campinas)

Existiu um tempo em que eu era menino. Existiu um tempo de tardes abençoadas de domingo quando tomávamos a rampa de baixo para sair em cima. Quem conhece, sabe o que é. O calor. Atrás do gol. Ali. Bem ali. Duas horas antes da missa. Da nossa missa. Liturgia igual. Senta, levanta, em-nome-do-pai, hosanas, vestes sagradas. O gol. A consagração: Corpo e sangue. Irmãos, saudemo-nos uns aos outros. O apito final, vamos em paz.


Sim, íamos em paz. Íamos cantando pela rua Barão de Mesquita, impregnados daquele espírito divino que agora habitava em nós. Uma certeza: no próximo domingo haveria novamente a missa. E levantaríamos e sentaríamos e ajoelharíamos. Nós tínhamos uma religião. Éramos crentes devotos daquela mensagem que enchia nossos corações com o júbilo sagrado de um amor inexplicável. O sentimento religioso não se explica. Tem-se fé. Pronto.


Acompanhávamos as entrevistas do catequista, saudoso Coutinho, durante a semana. Ele está machucado. Joga ? Não joga ? Deus está ferido, abatido, doído. Talvez saíssem lágrimas de seus olhos. Talvez. Talvez Deus tivesse dúvidas. Isso abalava nossa fé. Esperávamos ouvir Deus na Rádio Globo, entrevistado pelo Danilo Bahia. Deus estava calado.


Nem era jogo tão importante, decisivo, mas a simples idéia de que Deus não estaria conosco abalava a crença. Não, não poderia ser. A Flajaú estava em ponto de bala nas arquibancadas. Todas as suas duas bandeiras tremulavam. A rota faixa, presa no gradil do anel superior. Uma imensidão de quatro ou cinco associados roia as unhas.


Um alarido transforma-se em ruído. Daí para a explosão do time entrando em campo é um flash (doce flash back nos dias atuais). Todos eles lá. Carpegiani, Zico o maior e eterno herói, ídolo supremo. O neguinho brilhante e lustroso Adílio, a muralha Cantarelli, Júlio César um louco varrido, imperador da ponta-esquerda, o Tita, Toninho, Capacete, o guarda-roupas Manguito, o príncipe Adão. Ele entra por último. Sim, ele joga ! Deus joga. E muito.


O dono da camisa 3. Deus.


O Deus da raça. Rondinelli.


"Oh meu Mengão

Eu gosto de você

Quero cantar ao mundo inteiro

A alegria de ser rubro-negro."


Amém.




26 agosto 2008


Jardim Botânico
(Foto: Patrícia Bittencourt)



QUINTAL
(Rogério Santhana)


Lá onde o céu e as montanhas se encontram,
Onde o sol vem mostrar seu clarão.
Lá rouxinóis, girassóis e lençóis de linho,
Rocas, fios de algodão.
Entre sempre-vivas o meu coração,
E que sempre viva o teu coração.

Lá onde a lua clareia os caminhos
Que nos levam ao nosso quintal.
Lá bem-te-vis, colibrís, bem feliz meu olho
Bebe fatias de luz.
Entre sempre-vivas o meu coração,
E que sempre viva o teu coração.

16 julho 2008

GERAÇÃO 70
(Taiguara)


Nós estamos inventando a vida,
Como se antes nada existisse,
Porque nascemos hoje do nada,
Porque nascemos hoje pro amor.
Nós estamos descobrindo os corpos,
Como a manhã descobre as imagens.
Como o amor descobre a verdade,
Como a canção descobre uma flor.
Nós queremos desvendar há tempo,
Esse mistério azul de oxigênio,
Esse desejo imenso de sexo,
Essa fusão de angústias iguais.
E nós vamos resistir sem medo,
A solidão de um tempo de guerras,
E nossos sonhos loucos e livres,
Vão descobrir e celebrar a paz!


Ao ver os mesmos escândalos
- de sempre -
e perceber que a espoliação corrupta
continua igual e ilimitada
como sempre o foi,
prestar atenção ao que cantou
Taiguara é fundamental.


TENHAM VERGONHA
PARA SER BRASILEIROS !

24 junho 2008

Paul & Clapton em

Something
(George Harrison)


Something in the way she moves
Attracts me like no other lover
Something in the way she woos me

I don't want to leave her now
You know I believe and how

Somewhere in her smile she knows
That I don't need no other lover
Something in her style that shows me

I don't want to leave her now
You know I believe and how

You're asking me will my love grow
I don't know, I don't know
You stick around now it may show
I don't know, I don't know

Something in the way she knows
And all I have to do is think of her
Something in the things she shows me

I don't want to leave her now
You know I believe and how

14 junho 2008


Um poema-sinfonia
um tango-poesia:


Adiós Nonino
(Ástor Piazzolla)





Despedida
(Jorge Luiz Borges)

Entre mi amor y yo han de levantarse
trescientas noches como trescientas paredes]
y el mar será una magia entre nosotros.

No habrá sino recuerdos.
Oh tardes merecidas por la pena,

noches esperanzadas de mirarte,
campos de mi camino, firmamento
que estoy viendo y perdiendo…



Definitiva como un mármol
entristecerá tu ausencia otras tardes.



Um pouco de Borges por Borges



A Kinha ... é Fogo !

(Que pena... Há tantas outras opções...
com cores, pelo menos !)

Não sei a quem puxa a literatura
desta adolescente querida
...

Mas o VOANDO ESCONDIDA foi destaque
entre os blogs indicados
pela revista
ATREVIDA

Olhos Vazios
(Kinha)



Olhos vazios,
Olhos que não dizem a real verdade sobre você.
Olhos que chovem sobre mim.
Chuva ácida que me perfura.
Chuva que arranca a minha raiz.
Chuva que vem em uma maré de Pesadelos.
Maré que ilumina em olhos negros,
Olhos que me colocam no chão.
E no chão, eu não espero mais nada.
No chão,
Choro por mais uma questão inútil.
Choro mais uma vez por você.
Você que chove em dúvida,
Você que mente sem falar.
Não é uma mentira exata...
Não é uma mentira boa.
É a sua mentira.
Aquela que me impede de fazer algo produtivo,
Esta que me prende ao seu lado,
Esta que me faz ser seu objeto,
Dentro da minha mentira.
Até parece que eu não sabia.

-*-

E esta coisa do amor adolescente, lindo,
apaixonante mesmo, lembrou-me uma música,
aqui em duas versões:

Beto Guedes

Dalto


Ok, ok... Atendendo aos pedidos,
uma versão mais atual
(para que ninguém diga que sou radical...)

Patrícia Marx

(Taí... Gosto do sobrenome...)

Clique e escolha a sua !

18 maio 2008

Como é bom ser doutor
nesta terra!


SEBASTIÃO NUNES


Meu vizinho da frente, muito abusado, estava me enchendo a paciência. Todo dia cantava o hino do Galo (ou do Cruzeiro, não lembro direito), no maior entusiasmo. E ainda ficava fazendo piadinhas contra o Cruzeiro (ou o Galo, não sei mais).

Como torcedor do América eu não deveria me incomodar, nossa torcida é gente fina e cabemos todos numa Kombi, como dizem os linguarudos. Cabemos nada. Tem jogo em que passamos de 999 pagantes, só não gostamos de barulho. Somos torcedores, mas não somos fanáticos.

Além do mais, entre nós existe gente importante, tipo Plínio Arantes, grande advogado; Fernando Brant, compositor finíssimo; tem até ministro, taí o Luiz Dulci que não me deixa mentir. E muitos outros da maior importância, que não vou citar pra não pensarem que estou enchendo lingüiça ou puxando saco. Aprendi a gostar do América com meu pai Levi, que também era americano, só que torcia pelo América do Rio, alguém aí tá lembrado? De vez em quando ressuscita, joga um campeonato, perde de quatro, cinco, oito, e volta pro seu canto, até ressuscitar de novo.

Time que é time não morre, quero dizer, quase nunca morre. Mas que alguns vivem agonizando, ah, isso vivem. E mais não digo pra não ofender ninguém.

DESGRAÇA POUCA É BOBAGEM. Como ia dizendo, meu vizinho da frente cantava e fazia piada o dia inteiro. Não me atingia, claro. Sou educado, torço calado no meu canto, mas um dia endoidei. E quando fico doido ninguém me segura, mas não segura mesmo. Viro bicho. No dia que endoidei, peguei um pedaço de pau e dei uma porretada arretada no portão do vizinho, que estava na maior cantoria.

Ele botou a cabeça na janela, ficou me olhando meio zarolho, e perguntou: - Que foi, companheiro? Tá querendo arrebentar meu portão? Dei outra porretada arretada, bem debaixo do nariz dele, e desafiei: - Que portão, que nada, cara! Eu quero arrebentar é sua cabeça. Pula cá pra fora se você é macho!

Ai, meu Jesus Cristinho - e não é que o homem fechou ainda mais a cara, armou uma carranca, pegou uma faca na cozinha e desceu mesmo? E já desceu gritando: - Pois então vai arrebentar e é agora. E se não arrebentar eu te sangro que nem porco, igual fazia na roça.

COMEÇOU, TEM DE ACABAR. Fazer o quê, né? Franzino e fracote como sou, enfrentar aquele gigante, ainda mais de faca na mão? Não teve jeito. Levantei o porrete e - pum! Afundei a cabeça dele, que caiu sem um gemido, tremendo feito galinha degolada. De repente, apareceu aos berros a mulher, mais doida que eu, e já veio querendo arranhar minha cara, com as unhas pontudas e vermelhas. Se não fico esperto, estava agora todo riscado. Mas aí pensei que bater de pau em mulher é feio, não é coisa de gente educada.

Então peguei a faca do vizinho no chão e espetei na barriga dela. Aí ela parou de gritar, botou a mão na barriga, ficou me olhando calada e eu reparando na barrigona, que subia e descia como sapo resfolegando. Então apareceram uns fiozinhos de sangue entre os dedos, ela ficou amarela e as pernas amoleceram. Foi quando escorregou encostada no muro e caiu sentada, me olhando sem ver, passando a língua nos beiços brancos.

Também começou a tremer e a soluçar baixinho. Aí apareceu a mãe dela, uma velha balofa e ensebada, que saiu no portão sem saber de nada, assustada com a gritaria. Quando viu o genro de cabeça quebrada e a filha nas últimas, quis voltar pra dentro e chamar a polícia, só podia ser pra telefonar e chamar a polícia. Dei tempo? Dei nada. Corri atrás dela, passei uma rasteira na velha que caiu de boca no cimento da escada. Fiquei na dúvida se acabava com ela também - e é nisso que dá ficar na dúvida. Foi parar pra pensar e logo fui agarrado por uma montoeira de mãos. Eram os vizinhos xeretas que tinham visto tudo e vinham separar a briga.

QUEM PODE, PODE. Me esfregaram no cimento, arranharam minha cara toda, me deram soco em tudo quanto é lugar e, quando fiquei meio bobo, assim meio desmaiado, me amarraram com as mãos nas costas, como se eu fosse marginal da pior espécie. Logo eu, um sujeito sossegado, que gosto de assobiar e chupar cana, de ficar na minha, logo eu. Quando dei fé, estava na delegacia, sentado num banquinho tosco, os vizinhos me olhando de banda, cada um com a cara pior que o outro.

Mas ninguém dizia nada, só olhava. E era com ódio que olhavam, como se a culpa fosse minha. Com medo, eu? Nem aí pra essa corja de atleticanos e cruzeirenses. Tirei um cigarro do bolso, botei na boca, peguei o isqueiro - e um guarda deu um tapa na minha mão, jogando isqueiro e cigarro longe: - Mais respeito aí, cara! Tu não tá na tua casa, não! Ah, pra quê? Foi então que soltei os cachorros em cima dos infelizes: - Tão pensando o quê, seus babacas? Sou bacharel formado em direito, tenho diploma, entendo de leis, tão sabendo?

Estudei cinco anos, aprendi tudo, dou nó em pingo d’água, prendo saci em garrafa e pego rodamoinho com peneira! Mais que depressa o guarda tirou o boné, o chapéu, sei lá como se chama. A vizinhança se afastou, todo mundo encostou a bunda na parede, de boca aberta. Foi quando a porta se abriu e apareceu, todo sorridente, o delegado: - Então, colega? Estão te desconhecendo, não é mesmo?

Bons tempos aqueles de Santo Antônio das Abobrinhas e da faculdade de direito! Dá uma saudade... Vai um cigarrinho? Deixa essa turma pra lá, vamos tomar um café. Temos muito que conversar. Como deu flagrante, você vai ficar preso uns dias, mais pra despistar. Mas não se preocupe.

É cela especial, com TV, cama boa, o que precisar. E pode ligar pra um bom criminalista da minha sala. Mas fica frio. Isso não dá nada, é só fogo de palha. Me passou o braço no ombro e fomos rindo e conversando pra sala dele. Sentei, acendi o cigarro, provei o café - sim, senhor, nada como ser doutor nesta terra!

26 abril 2008


LINGUAGEM
(res + pers + ins = ex: istência)
(Alexandre Campinas)


Suas mãos postas, súplices:

"Desiste" !

Bobagem. Ajoelho e lavo (as suas).


25 abril 2008

OS DENTES NÃO VOLTAM
(Uma velha canção pop'n'roll)


(Alexandre Campinas)





Por que aquele maldito dente tinha que quebrar apenas com uma mordida de pão francês ? Não. Não era na frente, nada que exacerbadamente constrangesse. Mas quebrou. Ficaram apenas cacos relativamente presos na gengiva. Já não é o primeiro. Filosofo na frente do espelho: da mesma forma que vêm, vão-se. Aos poucos. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Ao virem, causam febre. Vi minha febre no espelho à partida. Tava lá. Estampada como manchete da primeira. Como link de propaganda: Browse it, Browse it !, gritava, vociferava. Ardia, acima de tudo. O espelho mostrou tudo. Alice. Pobres, todos, alices. E fui apenas olhar um dente moribundo... É meu Aleph particular, um tanto revisitado, outro tanto curtido. Entretanto jamais mediado como agora. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Houve de ser o espelho quem mo avisasse. E foi bruto ! Apontou o grisalho de tudo, os pequenos sinais e pintas que só percebia transmudarem-se em marcas senis na face de meu pai. Agora tudo parecia queimar-me as ilusões de uma adolescência que já não é. Febre. Há cigarro demais, há fundamento demais para pouca construção. O espelho. Tudo emerge de mim voluptuosamente. Sonhos, planos, o que fiz e o que não. O que pretendo e o que não entendo. Tudo, agora, faz sentido. As chispas fraternas que tanto abalaram, o olhar alheio, perscrutador, inquisitório. Cobranças infindáveis, inquietação irritante. Sou uma falha-que-anda. Um tropeço divino. Um extemporâneo que julga-se atemporal. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.

O espelho. Guarda-metas de qualquer tentativa de projeção mais funda do que é permitido. Mostra o quão inadaptável sou. Ok, ok... Sem reclamações desta vez. E é ele quem determina. Pauta. Jogo nele o Sá, o Guarabira, o Beto, o Barão, o Taiguara, o Legião, o Lula, o Montenegro, o Noel, O Capital . Ele não reflete. Ou, por outra, belchioriza a resposta: “viver é melhor que sonhar”. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Tudo está maus. "Então foi tudo sonho ?", tento argumentar. Ele responde: “Piegas”. Não. Não são meus, aqueles olhos. Nada ali sou eu. E tudo sou: junto da gengiva, sobretudo, cacos. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


O adágio apregoa, e eu tô ligado nele, só nele. Enquanto há vida, há esperança. Do pc, lá na sala, baixinho, porque madrugada, um arquivo mp3 implora, vindo lá do fundo da adolescência: é o Celso quem pede “aumenta que isso aí é rock'n'roll”. E já é um indício. Quase um grito libertário: um suicídio para tudo que é, em direção ao que – ainda – pode ser.


Na seqüência da playlist uma confirmação de que ainda não sou aquele do espelho (embora, desgraçadamente, ele se pareça comigo; e eu, tanto com ele). Uma confirmação de que em mim tudo deverá continuar como é (apesar dos dentes que não voltam) e de que não sou (o único) anjo torto. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Conta aí, Lô, o que o Márcio escreveu:


“Sinais de bem desejo de cais
Pequenos fragmentos de luz
Falar da cor dos temporais
De céu azul das flores de abril
Pensar além do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu
O mundo lá sempre a rodar
E em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer”



Canta junto aí !