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29 julho 2017

jalousies etc



JALOUSIES ETC


São janelas, todas elas,
nas quais escondes
- entre tantas fasquias -
as tuas fantasias.


Tuas janelas barrocas, muitas voltas
(gosto: tão pequeno em tua corte)
que convidam, tão pouco litúrgicas,
às mais loucas, infinitas e santas alegrias.
Tuas janelas mouras que sussurram
(escuto: cúmplice de pavores e pudores),
instigando uma guerra santa
que eu, combativo e devasso, desvendo.


Essas madeiras que tentam omitir ao santo
as umidades - segredos de gozos e sumos olorosos -
são tuas janelas barrocas, mouras e bélicas.
Gelosias das sombras e luzes que permites
e eu, bobo e pretenso, me rendo.



02 abril 2017

pé de cachimbo



PÉ DE CACHIMBO
(Alexandre Campinas)

Hoje é domingo, pede cachimbo...


Jesus... Nem posso ouvir isso que tudo volta na cabeça da gente. Quando o Júnior era criança eu falava essas coisas para ele. Que arrependimento. Se eu soubesse...


Foi difícil e é difícil o tempo todo. O corpo vai acabando, sabe ? As coisas de casa vão sumindo. Seu moço, foi o tal do cachimbo. O que era alegria quando ele era menino virou em tristeza sem fim. Vou contar pro senhor, mas não leva o Júnior não. Pelo sangue de Jesus, não leva meu menino. Não é maldade não, é doença mesmo.


(arte sobre foto original agência AFP)


Todo domingo eu brincava com ele. Eu trabalhava até depois do almoço e vinha pra casa. A patroa exigia que eu lavasse as vasilhas antes de sair. Ela dizia que panela suja era coisa de gente porca. Para ela, no caso, a porca era eu, mas isso é outra história.


Só tinha a tarde e a noite de domingo para ficar com meu filho. Então eu chegava em casa, catava ele na rua onde estava com as amizades dele, deitava a cabeça dele no meu colo e brincava disso, dessas historinhas. Outro dia, eu aprendi: não é historinha, é parlenda. Hoje é domingo, pede cachimbo... Até já sumiu da minha cabeça o resto. Não quero lembrar. Olha só como ele está hoje: pele e osso.


Então eu contava pra ele, falava com ele. Tentava dar rumo na vida dele com bons conselhos, mostrava meu exemplo de mulher trabalhadora. Durante a semana quem tomava conta dele era uma vizinha aqui. Mas tomava conta do jeito dela, né ?


Cachimbo maldito. Cachimbo da morte e da dor. Olha ele, seu moço, jogado ali no sofá. Ele roubou, foi ? Desculpa o Júnior. Não foi por mal. É a doença. Ele precisa da pedra pra viver. Não quer mais nada, só cachimbo. Nem frango assado, que uma vez por mês eu comprava quando saia o ordenado. Ele adorava. Ficava todo lambuzado de frango e dizia “hoje pode, né mãe ?  Hoje é domingo, pé de cachimbo...” e eu dizia que não era pé de cachimbo, que cachimbo não tem pé nem mão. Quanto ele roubou, seu doutor ? Foi dinheiro, foi ?  Quanto ? eu pago. Nem que seja em prestação, mas eu pago.  Só deixa meu menino aqui comigo, para eu por ele no meu colo e cantar para ele. Deixa, seu moço ? Ele é bom menino que eu sei. Eu sou mãe, eu sei. Foram as más companhias, o que eu podia fazer ? Tinha que trabalhar...



Não maltrata ele não. Leva direitinho, olha só: ele nem consegue ficar em pé direito. Em pé de cachimbo... Quando ele sai de lá, senhor ? Quando eu vou poder pegar meu menino e trazer para o meu colo ? Deixa eu cantar para ele antes, seu moço ? O senhor não tem dó não ? Não tem filho ? O senhor sabe onde está seu filho agora, doutor ? Desculpa a grosseria. Foi só dor de mãe. O senhor não é mãe, né ? Se fosse, saberia mais dessa dor. Desculpa, doutor. Foi celular que ele roubou ? Toma aqui o meu, leva pra dona.  Não... Leva ele não, seu moço. Leva não... Outra vez ele não aguenta mais. Eles maltratam muito ele lá.


Na rua, também maltratam. É igual cachorro com bicheira. Fora os que batem, amarram no poste. Falam que bandido bom é bandido morto, doutor. O senhor acha isso também ? Eles dizem "tá com dó ? Leva pra sua casa...". Eu levo. Todas as mães levam. Nossos bebês que ficaram doentes e que eles não querem que sarem. Falam da tal meritocracia, doutor, vê se pode ? E ele teve a mesma possibilidade dos outros, teve ? Teve pai e mãe pra ajudar nos deveres ? Casa sem mofo, teve ? Eu tentei, moço, juro que tentei, mas ou eu trabalhava para ele comer ou nós morríamos de fome. Cheios de meritocracia, mas meritocracia não se come, né ? Fala pra mim: o senhor já tomou sopa de meritocracia ? Já saciou aquela fome, que até dói nas tripas por dentro da gente, com uma bela macarronada de meritocracia ?


Ele não vai fazer mais isso não. Eu vou trabalhar dobrado e comprar a pedra pro cachimbo dele. Sei que já não tenho mais nada em casa, mas pelo menos tenho o meu Junior... Eu já não dou conta, senhor. Tenho até cartão de idosa. Peço para Deus levar meu menino com carinho, pra cuidar dele lá no paraíso, entre os anjinhos. O senhor vai levar mesmo, doutor ?



Cuida dele, doutor, cuida...