

30 abril 2006

TEXTO ATRIBUÍDO AO RUBEM FONSECA
(Casa da Maite - Site Erótico)
Em texto inédito , Rubem Fonseca conta uma insólita experiência, que deu o que pensar, vivida durante a gravação da série Mandrake, baseada em seu personagem.
"Fui assistir à filmagem do último episódio da série Mandrake, produzida pela Conspiração, baseada no personagem que aparece em vários dos meus livros, notadamente A grande arte, e que será lançada pela HBO em outubro. O episódio referido origina-se do conto Dia dos namorados. Um sujeito sai procurando prostituta na Avenida Atlântica e acaba levando para um motel o travesti Viveca. Ao perceber isso, ele se recusa a pagar e recrimina o travesti. A motivação desse indivíduo, um homem casado, é ambígua. Talvez ele soubesse que era um travesti e na hora tenha se arrependido, o fato é que o travesti pega uma gilete, diz que vai se matar e começa a golpear o braço.
Mas eu dizia que fui assistir à filmagem de O dia dos namorados. Eu já presenciara outras filmagens. Todo mundo sabe que sou um cineasta frustrado e que tudo que é ligado a cinema me interessa: direção, fotografia, som, montagem, mixagem, a interpretação dos atores, e, evidentemente, o roteiro. Gosto de ver uma filmagem, ver o diretor em ação, o fotógrafo, os atores, e os assistentes de direção, principalmente os terceiros assistentes de direção, quase sempre mulheres, melhor seria dizer meninas, tão jovens elas são. É um trabalho duro, que exige atenção permanente, resistência física e talento, sim, também talento, e que é recompensado com uma pequena menção nos créditos do filme.
Nesse dia o trabalho da terceira assistente exigia uma atenção redobrada, pois a filmagem estava sendo feita na rua, com um monte de curiosos em torno. Mesmo assim duas mulheres se aproximaram para olhar a movimentação que ocorria antes da ordem de "ação" do diretor. Perguntaram, "qual é a novela?" Quando respondi que não era uma novela de TV e sim um filme, elas perderam o interesse e se retiraram. (Isso merece um texto à parte).
Conversei com todos ou quase todos os membros da equipe e os atores. Uma tenda de maquiagem tinha sido improvisada numa rua lateral menos movimentada e dela surgiu, usando um vestido feito de clipes de metal, Viveca, a estrela do episódio, uma mulher alta, bonita, talvez excessivamente carnuda. Ao seu lado estava Marcos Palmeira, o protagonista da série. "Este aqui é o pai do Mandrake", disse Marquinhos, apresentando-me à estrela. "Ele é o criador de todos nós", disse Viveca, "tira uma foto comigo". Ela apanhou uma câmera digital e pediu a alguém da equipe que fizesse uma foto nossa. Agarrou o meu braço e carinhosamente grudou em mim seu seio criado pelo engenho e arte humanos.
Depois alguém me perguntou, "você que não gosta de tirar foto com ninguém, tirou com o travesti?" Respondi, "tirei exatamente porque era um travesti, um homem que saiu do armário e enfrenta a discriminação gritando desesperadamente. Pelo mesmo motivo que me levou a dar apoio explícito ao projeto de lei da Marta Suplicy, legalizando a união civil entre homossexuais". Se há uma coisa odiosa, é a discriminação, de qualquer tipo.
"Por que alguém se torna um travesti", indagaram.
Por que uma pessoa assume uma identidade indefinida sexualmente e não reconhecida socialmente? Freud passou ao largo disso em Totem e tabu. E a simplória visão psicanalítica do complexo de Édipo, entre o desejo de penetrar sua mãe, ou de ser penetrado pelo seu pai, não esclarece o problema. Muita gente tem escrito sobre o assunto, abordando os aspectos médico, ético, jurídico, psicanalítico, do transexualismo. Volta e meia surge a explicação da "mulher fálica".
Talvez os transexuais sejam iluminados pela sabedoria de Tirésias, essa figura da mitologia grega que, como punição, foi transformado pela deusa Atena em mulher. Tirésias permaneceu mulher durante sete anos, ao fim dos quais voltou a ser homem. Quando lhe perguntaram o que era melhor, ser homem ou ser mulher, ele respondeu que era ser mulher, pois os prazeres do amor eram melhor fruídos pela mulher do que pelo homem. Isso nos remete a uma série de perguntas. O transexual, então, desde cedo, sabe misteriosamente que será mais feliz e verdadeiro como mulher do que como homem? Mas como operar esse milagre, como superar os obstáculos físicos sem os recursos da cirurgia, entre nós denominada de "cirurgia de transgenitalização", e sem o socorro de hormônios? A primeira operação conhecida ocorreu na Dinamarca, em 1952, e depois disso não se sabe quantas foram feitas em todo mundo. Milhares, milhões? E mudar de aparência é suficiente?
Obviamente o problema não se resolve com uma simples modificação estética. E a ablação do pênis precisa ser feita? Umas acham que sim, para que nada de masculino reste nelas, outras se recusam a fazer isso, as profissionais do sexo principalmente, pois muitos clientes gostam também de ser sodomizados.
É preciso não confundir o transexual com o travesti e o homossexual. O travesti é um fetichista, pode ser homossexual ou não. O homossexual apenas sente atração pelo mesmo sexo. E o transexual sente uma total inadequação entre a sua anatomia e o seu sentimento de identidade sexual. Mas acho que isso nada esclarece."
28 abril 2006

Quando os passageiros do ônibus viram a arma na mão do sujeito, seguiram o manual de sobrevivência nas cidades grandes: voltaram seus rostos para a janela e passaram a olhar o movimento lá fora, fingindo que nada estava acontecendo. O motorista nem olhou pra trás, nem esboçou reação. Apenas seguiu dirigindo, sem parar em nenhum ponto.
- Que isso, cara. Abaixa essa arma.

VIXE MARIA
(Edwood Lautrec)
Santificado seja vosso nome
Santificado seja vosso nome
ai ai ai minha machadinha
santificado seja vosso nome
santificado seja vosso nome
serra, serra serrador
santificado seja vosso nome
santificado seja vosso nome
vamos todos cirandar
santificado seja vosso nome
mas livrai-nos do mal... MIAU!!!
22 abril 2006

Essa cidade minha. Que me corta a alma a cada canção. Saudades que evocam toda a recordação de um tempo feliz. Uma vida feliz. Um passado cidade. De ônibus elétricos no subúrbio e mão firme de mãe na minha mão. Tempo de sonho e esperança, poesia e canção.
“Vamos carioca e sai do teu sono devagar. O dia já vem vindo e o sol já vai raiar.”
Vai raiar em Copacabana, em frente a Constant Ramos onde nos sentávamos meu avô e eu após a visita a colônia de pescadores. Ele a decepar e eviscerar peixes. Ali mesmo, em pleno calçadão. Eu, a sorver vida.
“São Jorge teu padrinho te dê cana pra tomar. Xangô teu pai te dê muitas mulheres para amar.”
Viva o Tom e a Miucha. Viva o poetinha. Viva o suburbano Aldir do Light e dessa deliciosa vida merda da qual eu também faço parte e adoro. Profundamente adoro. Barão de Drumond e Boulevard. Floresta de densa mata dos cantos e pássaros. Paineiras. Uma cascata escondida na curva que descortina a pintura da Lagoa, da Gávea e do campo do Flamengo nos fundos do Jóckei. Ou seria o Jóckei nos fundos do campo do mais querido ? Assim como fosse um quintal com cavalinhos...
Cidade eu sou perdidamente apaixonado por você. Eu sou você, sou meu pranto no Samba do Avião. Sou enlevo na Valsa de uma Cidade, sou cidadão ouvindo Cidade Maravilhosa. Te olho, suburbanamende tímido, do Excelsior e te exploro inteira, do Caju ao Maracanã. Da Central do Brasil ao Encantado, nome lúdico da infância vivida.
Cidade que confunde a minha salgada saudade de lágrimas ao teu doce contorno mulher. Tenros seios, montanhas onde mama a minha dor. Boa dor de saber-se dono do que não é. Pipas na Ilha do Governador. Uma santa. Sensual e ondulada Teresa. Uma gente, Ipanema. Uma gente, Vila Valqueire. Iguais. Um povo todo irmão. Todo igual.
Outra ilha e a mais amada fantasia. Um baobá por Maria Gorda, a profunda raiz de Paquetá, inesquecível amor. Eterno amor. Da Ribeira ao Catimbáu, do Iate ao Municipal. Gostosa tatuagem da minha vida. Amada tortura a qual eu, órfão de ti, me submeto mergulhado em prazer e gozo.
Santa, curta, Sofia. Santo Afonso, de pé sobre o adro de seu templo, velando a minha Tijuca querida. Conjunção carnal de ruas, e cinemas que já não o são desembocando na praça de nome de herói sulamericano. Chafariz e ginasta. Café Palheta e longa tênia em tuas carnes.
Desejo de chegar-te de qualquer lugar, rodas baixando sobre a ponte. Renascer a cada toque suave na noturna e iluminada pista do Santos Dumont.
“Dizem que sou démodé, saudosista, blasé, retro... e eu sou ...”
(Os versos que aparecem entre aspas são de músicas de Vinícius de Moraes e também de Aldir Blanc)

POESIA - VINICIUS DE MORAES
CONJUGAÇÃO DA AUSENTE
...Tua graça caminha pela casa
.Moves-te blindada em abstrações. Como um T. Trazes
A cabeça enterrada nos ombros qual escura
Rosa sem haste. És tão profundamente
Que irrelevas as coisas mesmo de pensamento.
A cadeira é cadeira e o quadro é quadroPorque te participam.
Fora, o jardim
Modesto como tu, murcha em antúrios
A tua ausência. As folhas te outonam, a grama te
Quer. És vegetal, amiga...
Amiga! Direi baixo teu nome
Não ao rádio ou ao espelho, mas à porta
Que te emoldura fatigada, e ao
Corredor que pára
Para te andar adunca, inutilmente
Rápida. Vazia a casa
Raios, no entanto, desse olhar sobejo
Oblíquos cristalizam tua ausência.
Vejo-te em cada prisma, refletindo
Diagonalmente a múltipla esperança
E te amo, e te venero, e te idolatro
Numa perplexidade de criança.

POESIA - FERNANDO PESSOA
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Interessante colagem em forma de entrevista. Feita por Rodrigo Souza Leão.

POESIA - FERREIRA GULLAR
TRADUZIR-SE
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?
21 abril 2006

(Taiguara - Excepcional cantor, intérprete, letrista, músico, arranjador e REVOLUCIONÁRIO)
Milhares de pessoas pra manter no ar
um jato, um cosmonauta, um comercial
Milhares de aventuras que não vão brilhar
Dezenas de novelas pra mostrar no ar
angústia, desventura, solidão e dor
Verdades de mentira que não vão abrir
Lá fora há uma procura de prazer
Lá fora, o namorado, que era dela
encontra aquela que, ao ser sua
vai ser mais sua
o sonho aprisionado da menina só
que perde o seu amor
e espera da TV, que ela lhe diga
um jato, um cosmonauta, um comercial
Verdades de mentira que não vão secar
os olhos dela...

Contemplo o vazio que me cerca...
Não a minha alma vazia mas,
o vazio que me cerca.
Acostumei-me a ver as pessoas diante das janelas de grandes torres, de enormes
Cansei-me e me cansaram. Me extraíam a oportunidade de poder enxergar o horizonte ou
Me exilei em uma cidade menor. Não, nunca mais em uma grande metrópole!
Infelizmente escolhi morar nas alturas...
Agora observo as pessoas que transitam pela calçada, as caixas d'água e as antenas que
Sinto novamente a solidão.
A solidão de não mais ver aquilo que só o oculto me proporcionava imaginar como algo

Hoje em día, quase todo mundo, quem más, quem menos, conta que teve alguma experiência sobrenatural. Um amigo meu, por exemplo, relata que, durante uma operação que sofreu há uns anos, pôde ver o trabalho do cirurgião, das enfermeiras e tudo o mais, como se observasse a cena desde o teto, enquanto o seu abdome era aberto, por assim dizer, de par em par, como –segundo sempre as palavras dele proprio- quem abre as janelas do quarto após uma noite de sono. Meu amigo leva jeito pra poeta...-Realmente –acrescenta o versificador aprendiz -, tive a sensação de estar assistindo ao açougueiro preparar esse franguinho pra grelha do domingo.... embora ele tenha sérios problemas se de imágens metafóricas se tratar. Também assistí na televisão, esse portentoso veículo cultural, aos depoimentos de uma porção de pessoas, quem dizíam ter passado pelo corredor que separa, ou talvez une, este vale de lágimas com o infinito, o desconhecido.Há quem declara que ouvíu e víu, num sonho, mas que parecía real, a sua vovó, morta tempo há, lhe chamando, e a lhe perguntar por outros seres queridos, a lhe contar que o sítio onde ela estava era muito lindo, e tal.Um cara relataba que a esposa, da qual era viúvo fazía longos anos, lhe aparecéu no momento de ele sofrer um acidente de carro. Insiste em que quase lho cegou uma luz forte e branca, enquanto ouvía uma voz cálida a dizer o seu nome, e que, se aproximando da luminosidade, viu um vulto de mulher que lho cumplimentava.
-Soube que era minha esposa de imediato –acrecentava o homem, emocionado. Ela, únicamente morta podería me saudar co´uma doçura semelhante...
Um rapazinho contou que, também na hora duma operação, neste caso do cérebro, veio procurá-lo um outro menino, vestido de branco, lhe pegar a mão, e convidá-lo pra ir jogar num parque, sempre seguindo o relato do moleque, muito bonitinho, com uns animalzinhos lindos, e bons, que também brincavam com eles. Disse que o garoto lhe falou que o seu nome era Jesus.Consultado o médico responsável da atencão do rapaz para saber a sua opinião sobre a matéria, o profissional depôs, lacónico, o seguinte:
-Os fármacos...
Pois é, amigos, está na hora de confessar que eu também viví uma dessas experiências. E acho este o momento propício pra dar a minha testemunha. Espero, sim, que o meu depoimento não seja, no futuro, objeto desta desajeitada ironía que eu, por falta de outros recursos literarios melhores, vejo-me obrigado a usar. Aliás, rogo vocês me poupem a dor de reviver as malfadadas circunstâncias em que fato dessa índole ocorreu-me. Nada acrescenta, nem tira, nem aclara, nem obscurece, nem atrasa, nem adianta que eu dilate estas linhas com o relato desses acontecimentos, já que será suficiente iniciar minha estória dizendo que, logo depois de transpor aquele túnel que tudos quem viveram coisa parecida nomeiam, me encontréi de repente num local bastante iluminado, amplo e vazío, com exceção dum piano de cauda preto, onde um cara de chapéu de palha e oculos tocava, enquanto um outro, muito mais velho, escutava, com olhos perdidos, a música. Éste último tinha um aspecto singular. Barba longa , cabelo comprido e também branco, e uma espécie de roupão da mesma cor. Sentado numa cadeira alta, encostado de cotovelos na capa do piano, tinha na mão um grande copo de uísque, que balançava fazendo rolar os pedaços de gelo com esse tilín tilín engraçado.
Quando o pianista acabou de tocar, o velho bebeu um grande gole, olhou pro músico e, admirativo, mas porém triste, disse:

(Rose Amaral)
Os fatos que passo a relatar são verídicos e confesso que só acreditei porque aconteceram comigo. Nada sério, apenas a vida e sua graça. Fortemente, não gosto de fazer qualquer voto para o Ano Novo, mas este ano me veio de fazer um: AGRADECER, SEMPRE, TUDO! Assim, o fiz.
Bom, acordei no primeiro dia de janeiro de 2005, às 8 horas da manhã, com o barulho de uma monstruosa escavadeira quebrando furiosamente o asfalto, em frente meu apartamento. Como? Tudo seria previsível, mas trabalho da Prefeitura em pleno 01/01, às 8:00 da manhã? E em frente minha casa?
Pensei, imediatamente, em reformular meu voto de agradecimento constante e incondicional. Porque foi aí que me dei conta das implicações de minha decisão; fiquei me imaginando em meio a uma tragédia, a uma catástrofe, com as mãozinhas levantadas, balançando de lá para cá e de cá para lá, cantando “Obrigada, Senhor!”.Achei ridículo!
Assim que a brutal escavadeira deu uma trégua em seu ensurdecedor barulho, ouvi outro ruído muito estranho vindo da área de serviço. Corri até lá e presenciei minha máquina de lavar roupas surtando. Não, aquilo mais parecia um ataque epilético; ela se debatendo, tremia do botão do painel até os pés de apoio, girando pela área de serviço. De repente, a tampa explodiu para cima e o restante para baixo. Deduzi, rapidamente, que seria melhor acudi-la e pequei um copo para salvá-la da espuma. Na primeira retirada, bati com o copo no tanque e ele se espatifou...
Lembrei:
-“Obrigada, Senhor!”.
Constatei que minha máquina de lavar havia sofrido um acidente terrível, talvez incalculável.
-“Obrigada, Senhor!”.
Voltei ao quarto, ainda em choque pelo que vi, quando me deparei com o meu telefone completamente bêbado. Eu explico: um ou dois dias antes eu havia derrubado um copo, inteirinho, de cerveja em cima dele (não por desavenças, mas por descuido). Daí para frente ele ficou bêbado e fora de qualquer área, mas aos trancos e algumas pancadinhas ele funcionava precariamente.
Eu sabia que devia fazer alguma coisa e fiz. Primeiro raciocinei sobre o telefone alcoolizado e conclui que se ele havia resistido ao álcool, que mal faria uma aguinha? Não pensei duas vezes (alias, taí coisa que não gosto de fazer) e busquei todo o material, abri o telefone (confesso que quase não aguentei o bafo), retirei com cuidado as pecinhas móveis e as coloquei em uma posição em que as identificaria com facilidade na hora da reposição.
Com toda cautela, iniciei os procedimentos; mas no afã de fazer um trabalho bem feito e não deixar sequelas acabei por chutá-las para fora do local de identificação.
-“Obrigada, Senhor!”.
Mas, o carinho no trato e cuidados com meu telefone foi tanto que pensei em lhe dar um banho de sal grosso no final. Mas, não o fiz. Depois da execução quase cirúrgica, olhei para a cama e me parabenizei pela competência na escolha do material utilizado: chave de ofendas, alicate de unhas, cotonetes, fio dental, tesourinha e claro, água. Terminada a limpeza interna, senti algo novo: percebi, claramente, que nunca havia estado tão próxima do humano de uma máquina. Senti por pouco que não éramos um. Enxuguei-o com amor e coloquei-o para secar tomando sol. Claro, todos dizem que sol de 6:00 às 10:00 é ótimo e eu estava dentro do prazo. Bom, não sei se ele funcionará, mas que é o telefone mais limpo da cidade, eu garanto!
Já no final da manhã do dia 1º, depois de uma máquina acidentada, de um telefone bêbado, de uma escavadeira vinda do além, ponderei que estava iniciando o ano com toda a oportunidade de que precisava para garantir o exercício do meu voto para 2005.
-“Obrigada, Senhor!”.
20 abril 2006

— Afinal, você veio.
Gesticulando, nervoso, aproximara-se da mesa:
18 abril 2006

E se não fosse em poesia;
E como se fosse um laxante,

O universo está entrando em colapso e a existência, idem. É a hora do Big Crunch !
(Conto de Evaldo Magalhães)
O universo estava prestes a entrar na Idade da reversão, período que duraria os mesmos bilhões de anos até aquele momento e o faria reduzir-se, aos poucos, a um minúsculo ponto de singularidade, feito de matéria hiperconcentrada e perdido no Vazio (embora não houvesse alguém para encontrá-lo). Dali em diante, era impossível prever quanto tempo levaria até que, mais uma vez, houvesse o sopro, o clic na chave do reator invisível. Outra gigantesca explosão ecoaria pelo Nada, dando início à enésima volta no ciclo intérminável dos acontecimentos - àquele caos motocontínuo de luzes, gases, matéria escura e poeira cósmica que iria se organizando, com o passar do recém-criado tempo, em galáxias, estrelas, planetas e seres vivos, inteligentes e/ou estúpidos. Tudo isso tentando, em diferentes níveis de complexidade e com as mais diversas estratégias, afastar-se a uma distância segura do indefectível Verbo. E então, frustrada ao final da correria, a família universal, como em incontáveis ocasiões, sucumbiria num único instante ao derradeiro e repetido colapso. E assistiria ativamente à contração de seu lar, revivendo ao contrário a enganosa escapada pelo espaço-tempo.
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Dominus, o andróide, olhava fixamente o cronômetro quasárico no laboratório central de Zelgrub, em uma das milhares de câmaras intraterrenas do planeta, a leste das escarpas de Calixus. Ele sentia no peito algo bem próximo à Angústia - doença psicofísica que lhe fora relatada inúmeras vezes por humanóides de diversos planetas, e cujo sintoma mais comum era "um enorme bolo de vazio no plexo solar". Era estranho o sentimento de que todos os seres "superiores" à base de carbono sintético ou verdadeiro, ambos dotados de pensamento (e os últimos capazes de criar vidas artificiais como a sua, a partir da prática da matemática combinatória), estivessem ausentes naquela hora. Todos mortos. "Solidão", pensava Dominus, enquanto ajustava obsessivamente controles no painel à sua frente. "Solidão com uma boa dose de medo", balbuciou, conclusivo.
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Na superfície do globo, contudo, havia uma contradição fundamental ao raciocínio do andróide. Em uma tenda de fibra de vidro, reluzente na quietude desértica sob os raios de Cintila, a estrela do sistema G-232, abrigava-se um homem; não um calixusiano, mas um terráqueo. Bêbado por doses e mais doses de cartúnia, com olhos enfadados passeando eletricamente pelos cantos, como que à procura de mosquitos inexistentes, Malt Stuponic soltava um filete de saliva pelo canto da boca, enquanto pronunciava, com dificuldade, palavras ininteligíveis até para si mesmo. "Bltassnersdtst", era o que se podia entender. Um som agudo e sincopado vinha do relógio em seu pulso. Era como uma marcha fúnebre, eletrônica e minimalista, marcando os segundos finais do universo como o próprio medidor de tempo o concebia. Mas Stuponic não dava atenção. Estava mais sintonizado com o grande, frio e inelutável Destino que o aguardava, e a tudo o que conhecia, do que com qualquer outro pensamento. "Fim", ele finalmente pode ouvir-se.
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Ex-funcionário do Instituto Quasar de Pesquisas do Caos (IQPC), o último ser de carbono verdadeiro do mundo ainda vivo e pensante sabia que, dali a pouco, começaria, grosso modo, a encolher, num trágico e lento processo de rejuvenescimento. Antes mesmo de ser um bebê, se ainda estivesse respirando, Stuponic passaria fome, sentiria mais terror do que naquele momento e, o que é pior, não encontraria pai, mãe, tios, avós, primos, irmãos, sobrinhos, sobrinhas, amigos ou inimigos para diminuir seu desconforto. "Fim", ele repetiu. Stuponic pegou outra garrafa de cartúnia e abriu-a com os dentes amarelados que, de podres, não resistiram e se quebraram. Cuspiu porcamente os pedaços e levou a bebida à boca, com um desespero contido. Foi uma longa talagada com os olhos apertados, dos quais lágrimas insistiam em escapar.
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Em Zelgrub, Dominus pensava seriamente em recorrer a uma garrafa semelhante à tomada, naquele mesmo momento, na superfície de Calixus, pela corporifição da antítese à idéia de que estaria sozinho no universo. Tamborilando os dedos nas botas luminosas e esfregando o baixo ventre, com a outra mão, o andróide relutava em abrir o congelador, para o qual olhava fixamente. Ele titubeou ainda por alguns segundos _ pensou nos porres de Gerhdt, seu mestre, e nas bordoadas que dava na esposa após algumas doses. Mas isso não o impediu. Deu um longo e saudoso suspiro e retirou nervosamente a garrafa do compartimento gelado, onde se lia "Faça uma boa viagem". Convicto de que seria um excelente remédio para a Angústia, Dominus sacou a rolha e sugou o líquido de uma só vez com um canudo, por aquele arremedo de boca que haviam projetado para seu rosto. Finda a operação "boa viagem", atirou a garrafa na parede e relaxou na poltrona, exatamente como fazia Gerhdt, antes de matar-se. Aliás, foi esta a imagem que ocorreu à conturbada mente do andróide. O corpo do mestre esticado sobre a cama, ao lado da esposa e do filho de cinco anos, todos mortos pela ingestão dos comprimidos "Além".
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Tão logo os cientistas do IQPC anunciaram a comprovação da permanência da alma após a morte, oito luas cheias de Calixus antes daquele dia, todo o mundo correu às farmácias para comprar os tais comprimidos, que garantiriam uma entrada sem problemas no "reino encantado do além", como dizia a bula. Até os andróides, os superinteligentes bichinhos de estimação dos humanóides, haviam embarcado na febre do post mortem _ o pessoal do IQPC afirmara que mesmo produtos da biotecnologia poderiam possuir almas resistentes à inativação dos corpos, desde que "desenvolvidas" em complicadas práticas ascéticas. O suicídio coletivo fora completo, em todos os planetas do universo. Isso porque, no dia seguinte à descoberta da "vida após a vida", os mesmos cientistas revelaram a data e a hora de início do temido processo de reversão, o Big Crunch, cinicamente apelidado pela mídia intergalática de Bang Big. Por obra de Deus, ou fosse lá que força misteriosa comandava aquela bagunça toda chamada universo, no entanto, sobraram um homem bêbado e decadente e um andróide psicotizado, que acabara de enveredar pelo caminho do álcool. Um sem saber da existência do outro.
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Stuponic largou a garrafa de cartúnia na mesa à sua frente e tombou, salivando e ruminando palavrões contra si mesmo. Ele sentia um misto de tristeza e loucura que jamais experimentara em sua torpe vida de cientista. "Caralho !", gritou. "Sempre achei graça em tentar prever as coisas, hic, agora sei exatamente o que vai acontecer comigo e, hic, estou ficando louco", ele disse - ou, melhor, pensou nisso e tentou dizer. O terráqueo dormiu por umas oito horas e acordou espantado, sentindo-se alguns segundos rejuvensecido - o Bang Big tivera início. A sensação de reversão só não livrou-o de amargar uma dor de cabeça cósmica. "Preciso dar uma volta e encontrar comida", pensou.
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O único humano ainda vivo nas faces de todos os mundos do mundo entrou em seu módulo para viagens de curta duracão e deu a partida. Planou sobre o deserto como uma águia faminta. Stuponic tinha a esperança de encontrar uma escotilha aberta na planície - que algum caluxiano mais afoito, na ânsia de morrer, tivesse esquecido de fechar. Depois de voar horas e horas, tomando-se o sentido inverso dos relógios analógicos, claro, ele finalmente avistou uma abertura, 200 metros abaixo de onde estava. Quando preparava-se para aterrisar, viu um ser de macacão prateado deixando a fenda e mirando, aparentemente tão surpreso quanto ele, o aparelho no céu. Emocionado, Stuponic perdeu o controle da nave, que entrou em espiral durante a descida e chocou-se violentamente contra o chão. Dominus observou a cena, tirou do bolso um aparelho de detecção de vida que, apontado para os destroços, a poucas dezenas de metros de onde se encontrava, recusou-se a emitir o sinal positivo. O andróide deu de ombros e entrou pela escotilha. A porta foi se fechando. "Solidão", ele queixou-se, esfregando a mão em seu suposto plexo solar.
17 abril 2006

Gregório de Matos, o Boca do Inferno
A Uma que lhe chamou “Pica Flor”
Se Pica flor me chamais
Pica flor aceito ser
mas resta agora saber
se no nome que me dais
meteis a flor que guardais
no passarinho melhor.
Se me dais este favor
sendo só de mim o Pica
e o mais vosso, claro fica
que fico então Pica flor.
13 abril 2006

Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito. Alguns chegam a supor que Macedo virou o juízo. Eis aqui o resumo da narração.
No princípio do mês passado, — disse ele, — indo por uma rua,sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de urna loja de belchior.Nem o estrépito do cavalo e do veículo, nem a minha entrada fez levantar o dono do negócio, que cochilava ao fundo, sentado numa cadeira de abrir. Era um frangalho de homem, barba cor de palha suja, a cabeça enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente não achara comprador. Não se adivinhava nele nenhuma história, como podiam ter alguns dos objetos que vendia, nem se lhe sentia a tristeza austera e desenganada das vidas que foram vidas.
A loja era escura, atulhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dois cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja nas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão.
Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. Tão velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desolação geral, faltava lhe estar vazia. Não estava vazia. Dentro pulava um canário.
A cor, a animação e a graça do passarinho davam àquele amontoado de destroços uma nota de vida e de mocidade. Era o último passageiro de algum naufrágio, que ali foi parar íntegro e alegre como dantes. Logo que olhei para ele, entrou a saltar mais abaixo e acima, de poleiro em poleiro, como se quisesse dizer que no meio daquele cemitério brincava um raio de sol. Não atribuo essa imagem ao canário, senão porque falo a gente retórica; em verdade, ele não pensou em cemitério nem sol, segundo me disse depois. Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela vista, senti-me indignado do destino do pássaro, e murmurei baixinho palavras de azedume.
— Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis? Ou que mão indiferente, não querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de graça a algum pequeno, que o vendeu para ir jogar uma quiniela?
E o canário, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto:
— Quem quer que sejas tu, certamente não estás em teu juízo. Não tive dono execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse. São imaginações de pessoa doente; vai-te curar, amigo.
— Como — interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado. Então o teu dono não te vendeu a esta casa? Não foi a miséria ou a ociosidade que te trouxe a este cemitério, como um raio de sol?
— Não sei que seja sol nem cemitério. Se os canários que tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque é bonito, mas estou vendo que confundes.
— Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém, salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali está sentado.—
Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canários não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo.
Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a linguagem, se as idéias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente, saía do bicho em trilos engraçados. Olhei em volta de mim, para verificar se estava acordado; a rua era a mesma, a loja era a mesma loja escura, triste e úmida. O canário, movendo a um lado e outro, esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe então se tinha saudades do espaço azul e infinito.
— Mas, caro homem, trilou o canário, que quer dizer espaço azul e infinito?
— Mas, perdão, que pensas deste mundo? Que cousa é o mundo?
O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira.
Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os pés. Perguntou-me se queria comprar o canário. Indaguei se o adquirira, como o resto dos objetos que vendia, e soube que sim, que o comprara a um barbeiro, acompanhado de uma coleção de navalhas.
— As navalhas estão em muito bom uso, concluiu ele.
— Quero só o canário.
Paguei lhe o preço, mandei comprar uma gaiola vasta, circular, de madeira e arame, pintada de branco, e ordenei que a pusessem na varanda da minha casa, donde o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um pouco do céu azul.
Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta. Comecei por alfabeto a língua do canário, por estudar-lhe a estrutura, as relações com a música, os sentimentos estéticos do bicho, as suas idéias e reminiscências. Feita essa análise filológica e psicológica, entrei propriamente na história dos canários, na origem deles, primeiros séculos, geologia e flora das ilhas Canárias, se ele tinha conhecimento da navegação, etc. Conversávamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele esperando, saltando, trilando.
Não tendo mais família que dois criados, ordenava lhes que não me interrompessem, ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente, ou visita de importância. Sabendo ambos das minhas ocupações científicas, acharam natural a ordem, e não suspeitaram que o canário e eu nos entendíamos.Não é mister dizer que dormia pouco, acordava duas e três vezes por noite, passeava à toa, sentia me com febre. Afinal tornava ao trabalho, para reler, acrescentar, emendar. Retifiquei mais de uma observação, — ou por havê-la entendido mal, ou porque ele não a tivesse expresso claramente. A definição do mundo foi uma delas.
Três semanas depois da entrada do canário em minha casa, pedi-lhe que me repetisse a definição do mundo.
— O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira.
Também a linguagem sofreu algumas retificações, e certas conclusões, que me tinham parecido simples, vi que eram temerárias.
Não podia ainda escrever a memória que havia de mandar ao Museu Nacional, ao Instituto Histórico e às universidades alemãs, não porque faltasse matéria, mas para acumular primeiro todas as observações e ratificá-las. Nos últimos dias, não saía de casa, não respondia a cartas, não quis saber de amigos nem parentes. Todo eu era canário. De manhã, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e pôr lhe água e comida. O passarinho não lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem faltava qualquer preparo científico. Também o serviço era o mais sumário do mundo; o criado não era amador de pássaros.
Um sábado amanheci enfermo, a cabeça e a espinha doíam-me. O médico ordenou absoluto repouso; era excesso de estudo, não devia ler nem pensar, não devia saber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e só então soube que o canário, estando o criado a tratar dele, fugira da gaiola. O meu primeiro gesto foi para esganar o criado; a indignação sufocou-me, caí na cadeira, sem voz, tonto. O culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o passarinho é que fugira por astuto.
— Mas não o procuraram?
Procuramos, sim, senhor; a princípio trepou ao telhado, trepei também, ele fugiu, foi para uma árvore, depois escondeu-se não sei onde. Tenho indagado desde ontem, perguntei aos vizinhos, aos chacareiros, ninguém sabe nada.
Padeci muito; felizmente, a fadiga estava passada, e com algumas horas pude sair à varanda e ao jardim. Nem sombra de canário. Indaguei, corri, anunciei, e nada. Tinha já recolhido as notas para compor a memória, ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas e grandes chácaras dos arrabaldes. Passeávamos nela antes de jantar, quando ouvi trilar esta pergunta:
— Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu?
Era o canário; estava no galho de uma árvore. Imaginem como fiquei, e o que lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doido; mas que me importavam cuidados de amigos?
Falei ao canário com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversação, naquele nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular.
— Que jardim? que repuxo?
— O mundo, meu querido.— Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima.
Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo; até já fora uma loja de belchior.
— De belchior? trilou ele às bandeiras despregadas. Mas há mesmo lojas de belchior?
Minha língua pátria é presa
cercada de sanções, nações
corruptas e corruptoras.
Minha língua presa anseia a solta,
livre de imposições,
ágil e motora.
Minha língua solta é erótica:
espasmos após tensões.
Flerta, provocadora.
Minha língua erótica é ferina.
Cospe imaginações
E alguém ora: antiquelíngua fecundadora.
Minha língua ferina é frouxa.
Fala de arrebatações,
da vida viva e aterradora.
Minha língua frouxa se come
com batata, à portuguesa e com tesão;
com boca degustadora.
Minha língua multi-sabor é sempre suja
de violência e de paixão
entrega-se è outra, devoradora.
Minha língua suja disfarça-se em pê:
pêquer pêô pêcéu, pêchão.
É língua lúdica, voadora.
Minha língua do pê é feita de trapo,
que se esconde com exatidão
p’ra tocar, redentora.
Minha língua de trapo é língua de sogra:
faz festa, conselho e diversão.
Toca onde não se quer, desafiadora.
Minha língua é a língua do cão:
baba e lambe e late sem compaixão,
língua cachorra.

ÚTEROS DE CARPETE
(Kinho Vaz)
Vontade danada
de comunicar conciso.
Sei: Matsuo Baixou.
Matsuo Basho é o criador do haikai.