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10 fevereiro 2013

parafilia

Parafilia

Alexandre Campinas


Ele espreitava. Ela sairia. Mais cedo ou mais tarde.  Doentio e compulsivo, ele esperaria horas seguidas. Dias. Sem comer, sem beber se fosse necessário. Quefazer inadiável. O ato em primeiro lugar.



Não precisaria ser um estoico, ela era um relógio. Deixou o modesto prédio do conservatório sem atraso, a violonista. Ela e seu instrumento. Na primeira esquina, aquele animal precipitou-se sobre sua vítima. Mau. Bote certeiro. Presa  fácil.



Arrastou-a para um terreno próximo. Não se preocupou com os passantes. Despiu-a de suas certezas. Arrancou, brutalmente,  de suas delicadas mãos, mãos sensíveis de artista, o instrumento caríssimo. Peça de luthier, feita sob encomenda. Inimitável.



Ainda mantendo seu braço entrelaçado ao da vítima, a besta-fera tirou uma palheta do bolso da camisa e iniciou sua sequência perversa. Fez de tudo com ela. Teló, Gusttavo Lima, Jorge e Mateus, Zezé e Luciano, Luan Santana... Ela gritava, pedia socorro aos transeuntes.



Bruno e Marrone, Edson e Hudson, Rick e Renner, Alexandre Pires, ele era um monstro. Malícia, Katinguelê, Karametade, Gamação. Uma após a outra, as músicas iam enchendo o espaço psíquico da moça, que ainda tentava esboçar reação.



Ao redor da cena tenebrosa, as pessoas já formavam uma pequena multidão. Uma menina batia palminhas. Uma criança...



A violonista, já sem palavras inteligíveis, gemia arrasada. Seu olhar, fio de esperança, ainda buscava na assistência daquele espetáculo de sombras alguma ajuda. Misericórdia. Ninguém.



Ao contrário, todos achavam aquilo muito normal. Eva, Águia, Peixe, Babado, Cheiro, Netinho, Brown. Aê. Eô. Tudo muito normal.



Ela nunca mais seria a mesma.



3 comentários:

Anônimo disse...

genial...;-)

Anônimo disse...

Compartilho das dores da violinista!

Rogério Machado disse...

Um psicopata... kkkkkkkkkkk
Muito bom esse conto.
A gente ri e, com isso, espanta o choro.