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27 fevereiro 2009

Choro pro Abrahão

(Alexandre Campinas)


Queria curtir um chorinho

brasileiro,

cheio de repetição

de clarinete e pistão.


Que não faltasse o pandeiro,

marcação sensacional,

o cavaquinho e violão

do jeito bem tradicional.


Até pensei em ir a Lapa

me encontrar com um velho chapa

e no caminho

alguma coisa aconteceu.


Só percebi quando passei

pelo Noel, no Boulevard

todo enfeitado

e a esquerda eu tomei.



Cai em plena Teodoro

coração de Izabel

e na esquina com a Vianna

o velho chapa encontrei.


Olha aqui Seu Abrahão

este arremedo de canção

me de um jeito por favor

nessa letrinha e no tom.


A bela tarde já é boa

só porque eu te encontrei

e as horas vão passando

tanta memória que nem sei


Até parece um passeio

que no tempo fiz ligeiro

por aqui ou acolá

de bicicleta em Paquetá



Um tira-gosto, bota o sal

olha a cerveja, desce outra

e a conversa já parece,

nessa tarde, uma canção.


Seu Abrahão

se não se importa

não me feche essa porta

e deixe entrar a luz em escarcéu.


Tanta bagunça é o sol

se despedindo

na festa que não termina

com as estrelas lá do céu


Escute aqui velho Abrahão

a conta é minha, nem me fale

leve seu tutú pra noite

que eu levo a recordação.


20 fevereiro 2009


LOUCO POR DESCULPA
Entrou no ônibus com aquele olhar vidrado das pessoas que têm problemas demais na cabeça, ou daquelas que têm juízo mole. Mostrava um semblante aéreo, quase abobalhado. Passou direto pela catraca e nem fez menção de pagar.
- Ô meu chapa, vai pagar não?
- Desculpe.
- É cada maluco que me aparece...
- Já pedi desculpas. Por que o maluco?
- É só jeito de falar... Você foi passando direto... Tem que pagar!
- E só por isso eu sou maluco?
- Pensei que fosse.
- Mas eu não sou.
- Tá certo, você não é maluco.
- Então você me deve desculpas.
- Não me leve a mal, mas eu nunca peço desculpas.
- Olha aqui: eu agi errado e pedi desculpas. Você me ofende e não quer pedir?
- Não peço mesmo, são meus princípios.
- Princípios uma vírgula. Isso é falta de civilidade.
- Está me chamando de ignorante?
- Ignorante, grosso, mal educado ou o que você bem entender.
- Agora quem deve desculpas é você.
- De jeito nenhum. Quem não sabe pedir desculpas, não tem direito de exigi-las.
- Ai meu Deus, eu mereço...
- Merece mesmo. Pensa que todo mundo gosta de levar desaforo pra casa?
- Que desaforo, meu amigo?
- Você me chamou de maluco.
- Tá certo, faz o seguinte, o maluco sou eu.
- É mesmo. Pra fazer gracinha com quem não conhece tem que ser maluco
.- Tudo bem eu sou maluco. Agora vai sentar que você está obstruindo a passagem.
- Só depois de ouvir suas desculpas.
- Não vou pedir desculpas nenhuma.
- Vai sim.
- E quem vai me obrigar, você?
- Se eu não obrigar, o Tetéco obriga
.- Tetéco? Isso lá é nome de gente?
- Não, mas com ele vai ser pior. Você vai perder mais que a chance de pedir desculpas.
- Eu vou perder é a paciência já, já. Com você, com o tal do Tetéco e com o raio que os parta.
- Quero ver mostrar essa valentia olhando pro Tetéco.
- Então vá lá chamar o seu Tetéco e não me encha o saco.
- Tá bom. Fala aqui pra ele não encher o saco.

Quando os passageiros do ônibus viram a arma na mão do sujeito, seguiram o manual de sobrevivência nas cidades grandes: voltaram seus rostos para a janela e passaram a olhar o movimento lá fora, fingindo que nada estava acontecendo. O motorista nem olhou pra trás, nem esboçou reação. Apenas seguiu dirigindo, sem parar em nenhum ponto.

- Que isso, cara. Abaixa essa arma.
- Eu falei que era melhor me pedir desculpas.
- Tá bom, eu peço, mas abaixa isso.
- Agora é tarde. Vai ter que pedir desculpas pra mim e dá um dinheirinho aqui pro Tetéco.
- Então era isso que você queria, assaltar o ônibus?
- Claro que não. Eu só queria as suas desculpas. Mas o meu amigo aqui, o Tetéco, tem esse fraco por dinheiro, fazer o quê?
- Toma, leva a grana, mas aponta isso pra lá...
- Bota tudo aí na sua bolsa.
- Posso tirar meus documentos?
- Claro, tiras as chaves de casa também. Mas deixa o dinheiro.
- Tá tudo aí, tá tudo aí...
- Certo, com o Tetéco você já se entendeu. Agora falta o que me deve?
- O que você quer mais?
- Esqueceu? Tetéco, fala pra ele o que falta...
- Não aponta isso pra mim, por favor.
- Então paga o que me deve...
- Tá bem, desculpa.
- O quê? Não ouvi direito?
- Desculpa.
- Mas o que aconteceu com você? Ainda há pouco estava falando grosso e agora mal se houve a sua voz. Grita pra tudo mundo ouvir: DESCULPA, VOCÊ NÃO É MALUCO!
- Tá, eu grito, eu grito! DESCULPA, VOCÊ NÃO É MALUCO!
- Sou sim. Quer dizer, sou sem ser.
- Ai, meu Deus, o que você quer mais?
- Só dizer que eu não sou doido, mas sou Maluco sim. Esse é o Tetéco e eu sou o Maluco! Dá tchau pro moço, Tetéco e vamos nessa.
- Motorista, pára no próximo!
Desceu do ônibus com aquele olhar vidrado das pessoas que têm problemas demais na cabeça, ou daquelas que têm juízo mole. Mostrava um semblante aéreo, quase abobalhado. Passou direto pela confusão das ruas como se não visse ninguém.

Crucificado no carnaval

(Mão Branca)



Li no jornal que um jovem foi encontrado morto preso numa cerca de arame farpado na mesma posição que Cristo na cruz.

A polícia não demorou para achar o corpo.

Decidi escapulir da cidade durante o carnaval. Detesto samba. Mesmo adorando as bundas desnudas e oferecidas dessa época, escolhi recolher-me junto à natureza. Quando saia pela estrada sul, notei uma briga no meio do mato, ao lado de um carro parado. Não queria me meter, mas sei do que sou capaz e decidi salvar o alguém que estivesse em perigo.

- Fique aqui no carro, mulher. - Disse à minha companhia. Peguei a pistola debaixo do meu banco e sai cortando o mato.

Ouvi gritos. Um homem mandava outro entrar no porta-malas. Gritava também a um terceiro para que retirasse gasolina do tanque. Eles iriam queimar o prisioneiro.

- Por favor, moço, pode levar o carro. Pode levar minha carteira. Eu não conto nada para ninguém. - Implorava o prisioneiro, um jovem de uns 21 anos. Cabelo bem aparado, roupas sóbrias, na camisa a inscrição "exército de Jesus".

- Calaboca. Você vai morrer! - Virou-se ao comparsa. - Cadê a merda da gasolina?

- Tô puxando, porra! - Ele sugava uma mangueira enfiada no tanque. Engoliu um grande gole e engasgou.

- Entra logo nesse porta-mala. Anda! - O seqüestrador tinha um revólver 32 na mão. Empurrava sua ponta na barriga do prisioneiro.

- Por favor, moço, eu sou crente. Não faço mal a ninguém. Não vou contar nada.

- Claro que vai, filho da puta. Vocês, crentes, são mais safados que qualquer bandido.

- Não, moço, não faça isso.

- Se eu te deixar vivo, você vai me dedar.

- Não, moço, não vou.

- Calaboca! - O seqüestrador deu uma coronhada no crente. Ele se calou mas ainda não queria entrar no porta-malas.

O outro bandido apareceu com um saco plástico cheio de gasolina.

- Por favor, eu faço o que você quiser. Eu chupo seu pau!

- Sai fora, viado. Vai morrer mesmo, ainda mais porque é viado. Crente e viado. - Deu uns tapas no crente.

Não interrompi a luta pois esperava o melhor momento para meu ataque.

- Se não entrar no porta-malas vai levar bala aqui mesmo. - Apontou a arma para o crente. Eu não conseguia ver se o outro bandido também estava armado. Tive que agir senão o crente morreria.

Atirei em cheio no peito do bandido. Ele desmontou feito marionete sem os arames. O crente gritou de medo. O outro bandido me viu saindo do mato.

- Se quer viver, fique parado. - Eu disse ao bandido.

O crente pegou a arma do morto e a apontou para o outro bandido.

- Larga essa merda. - Falei. - Você não sabe mexer com isso.

- Eles iam me matar.

- Larga logo isso. - Gritei.

- Não. Eu vou matar esse cara!

Se o crente atirasse seria assassinato pois o bandido já estava dominado. Matei o outro para salvar a vida do crente, num momento decisivo.

- Solta essa arma! Você não pode fazer isso! - Gritei.

O crente, com olhos alucinados, apontou a arma para mim. Empurrei o revólver e levantei a ponta. O tiro foi para cima. O cano queimou minha mão.

- Seu merda idiota... - O outro bandido puxou um revólver de baixo da camisa e me apontou. Fuzilei-o com um tiro na testa.

O 32 soltou-se da minha mão e o crente olhou o novo morto.

- Você matou os dois. - Disse-me.

- Larga essa arma, cara. Você não tá bem.

- Você matou os dois. - Repetiu. - Você cometeu um pecado.

- Foi para te salvar. Larga a arma!

- Você cometeu um pecado. Você vai pro inferno!

Nem argumentei mais ao ver a loucura em seus olhos. O crente apontou novamente a arma para mim. Eu podia desarmá-lo num instante, mas resolvi dar a ele a mesma chance que ele próprio deu ao segundo bandido. Acertei o tiro em seu coração.

Busquei meu carro na estrada. Recolhi as armas e os corpos dos bandidos. Eu os desovaria em algum lugar distante dali. Peguei o corpo do crente e conferi meu disparo. A bala o havia atravessado. Sem preocupações com balística. Arrumei tudo ao redor e fui embora.

- Por que você colocou o crente de braços abertos e pernas juntas na cerca de arame farpado? - Quis saber minha companhia.

- Para ficar igual a Cristo na cruz. - Ela me olhou inquisitiva. - Ele era crente, não era? Deve ter gostado. Quem sabe assim não tem alguma redenção lá onde estiver.

13 fevereiro 2009

Crônica do Brant no Estado de Minas, 11/2/09


Vidas de Passarinhos


"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho".
(Mário Quintana)


Cristiano Quintino, olhar fotográfico, percebeu que seu canarinho estava diferente. Descera do poleiro e não mostrava ter forças para retornar às alturas, o pescoço em posição estranha. O que estaria acontecendo, era o fim do ciclo de vida dele ? Cuidadosamente, desceu com a água e a comida para o andar térreo da gaiola. Quantos anos humanos vive esse tipo de pássaro ? Mais tarde, era hora de trabalhar em seu ofício, pesquisaria na internet para saber.


O ontem se foi e ele acordou na manhã ávido de notícias. O canário rosa e alaranjado parecia mais bem disposto. Pela manhã conseguira subir à cobertura, mas, à tarde, a fragilidade do dia anterior voltara. Comida e água voltaram para o rés do chão. Nas fotografias que Cristiano fez, naquele momento, ficou claro que a ave tinha o corpo enrugado, gasto e envelhecido.

O tempo de despedida está se aproximando. Mas, para que isso não ocorra, o homem das lentes se dirigiu ao amigo conclamando-o a viver mais um pouquinho. E falou com o amor e o carinho que existe entre um homem sensível e qualquer ser vivo e companheiro. Diálogo dos que se querem.

Na mesma manhã, no mesmo dia, em outro endereço, no jardim da casa de minha mãe, um filhote de passarinho caiu do ninho. Minha irmã, ao vê-lo, levou-o para a varanda, temerosa de que ele fosse destruído pela cadela. Querendo alimentá-lo, providencia alpiste para ele, que não tem idade para comê-lo.

Eis que começa a chover. Ana resolve levá-lo para o quintal, 30 metros abaixo de onde ele foi encontrado. É bom dizer que, entre o jardim, em frente à rua, e o quintal, lá no fundo do lote, existe a casa em que a família Rocha Brant se criou e cresceu. Nova tentativa com o alpiste, e nada.

Passado um tempo, a alegria do milagre. Os pais do filhote o encontram, lá naquele espaço longínguo em que ele está. Voam em torno dele e se aproximam. E buscam na redondeza os pequenos pedaços de vida, fiapos que trazem no bico e lhe dão. Pais e mães acham os filhos onde eles estiverem ?

O amor tem radar. E o desespero da procura do filhote desaparecido agora se transforma no tudo fazer para a sua sobrevivência. O canarinho do Cristiano vive seus últimos dias. E o filhote que a Aninha descobriu no jardim de nossa casa, e que os pais reencontraram, é uma pequena história para comover e ensinar aos homens e mulheres de todos os tempos. Vida vai, vida vem.

Bilhetinho pro Fernando

(Alexandre Campinas)



"O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz
largo com repuxo no meio, flores e arbustos,
alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima;
o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta,
branca e circular, donde mira o resto.
Tudo o mais é ilusão e mentira".
(Machado de Assis)

Vi um um lugar. Espécie de ponto não-ser, tal a projeção dos sonhos, bondades e sutilezas, que nos orbita a todos. É o espaço das boas maneiras, geografia abstrata do que há de verdadeiramente humano em nós, despido das vaidades e orgulhos que impedem o canto.


Trinado mais, trinado menos, às vezes, em flashes milimesimais, logramos uma breve visita a esse sacro que habita em nós. É o instante da poesia. Inebriante reencontro com o adolescente pleno de deliciosas incertezas lacunares cimentadas pelo sonho e pela esperança.



No raro momento, trinado mais, trinado menos, torna-se irresistível o compartilhar de nossos locus. É quando desejamos que o mundo saiba que nada é absoluto e que o impossível pode ser a via menos acidentada. O canário socrático do Machado sabia.



Trinado mais, trinado menos, o canário Orlando do Quintino também segue questionando os nossos níveis de disponibilidade fraternal e generosidade. O Profeta Gentileza era um canário. Os pais do filhote que a Aninha achou – shhhh, Fernando, eles ainda não sabem – são canários. Chaplin, Oscarito... Tá lá, pode ter certeza. E o Rosa, o Braga, CDA, Vinícius, Quintana, Bandeira, Bilac, Coralina ? Canários-realíssimos. I-n-d-i-s-c-u-t-í-v-e-l, como tantos outros que esculpem eternidades no instante. Borges e seu Aleph sabiam. Canário !


É só fechar os olhos, sintonizar o coração, permitir-se, crer para – trinado mais, trinado menos – perceber que o mundo é dos que cantam: a vida. Talvez você, Fernando, não tenha posto intenção (mentira, diria vovó, canária como ela só, o traquinas fez de propósito...), mas foi fundo no destaque dado a uma máxima do Quintino (só ele mesmo para contrariar o ditado popular):


- Os bicudos se beijam.


Os bicudos se beijam, Fernando. Então que jamais se turbe o vosso coraçãozinho: os Orlandos sempre serão eternos.


Eu ? Passarinho ! Um tanto rejeitado, mas passarinho. Um pouco sem rumo, passarinho. Algo à esquerda na vida, passarinho. Incompreendido comme d'habitude ? Passarinho. Passarinho. Passar-inho, passar pequenininho. Passar, indo.


Passar rindo.


14 dezembro 2008

ANARCRÔNICAS III

NA TÁBUA DA BEIRADA


Eu queria era ver agoooora ! Francyelly Keylla estava voltando. Foram quase três meses de sucesso absoluto como mulher-umbu, uma natural referência às predileções sexuais do rapaz, que chamava-se Haroldo José, de acordo com seu registro natural. Foram quase três meses, como ia dizendo. Para ser mais exato, 85 dias. Um período de festa total desde que foi flagrado com um famoso jogador de futebol, em um badalado motel da zona sul. Fotos, flashes, entrevistas em programas vespertinos. Até assessoria de imprensa ele contratou.



No decorrer desse período, Francyelly/Haroldo conheceu a luz. Não imaginava – jamais pensaria – ser possível que algumas pessoas pudessem viver assim. Aquilo nunca foi luz. Holofote sim, seria a palavra adequada (valei-me São Platão, Ave Beato Saramago, Salvai-me Dom Neo, Socorro, Baudrillard !). Champanhe ? Muita. Como água de torneira. Caviar ? Fedido, porém elegante, apesar do gosto de baiacu cru (se permitem-me o quase cacófato), aliás, baiacu cru não... Fugu, como falam os japoneses (ele/ela aprendeu...). Salmon é os cacete, ainda berrou da primeira vez, o certo é salmão ! E mesmo assim, nunca vi, só ouço falar... Mas comeu. E como... E agora ?


Faxina na Caverna do Platão


Como explicar para todos no cortiço o seu sumiço ? Tinha que voltar, o dinheiro das fotos da revista, digamos, poli-sexual, havia terminado e ninguém mais pagava mich... ops, cachê para que desse entrevistas na tv: a mãe do filho do Miquijegui, nem pensar.... A fama ? Babau. Afinal oitentissinco dias fora um recorde absoluto. Tinha ouvido falar, numa vernissage (até isso, até isso...), num tal de Andiórol (remédio ?) que teria dito que a fama dura quinze minutos apenas. Ual (era assim que escrevia no messenger...) ! Sou quase um sócio do Guiness !


Voltou. E ninguém entendeu nada. Pior ainda: faziam piadinhas sobre bicha pobre e bicha rica, lembrando o Costinha. Gentalha ! Para eles, riqueza era carro mil do ano. Teve que voltar ao tanque, ao varal (em todos os sentidos) e aos prazeres comezinhos com a meninada da favela e a obrigação profissional paga no calçadão. Diziam pelas bandas do Toco Cru Pegando Fogo (nome da sub-vila na qual ficava o cortiço, no meio da grande comunidade) que ela havia se americanizado. Pediam dinheiro emprestado, assediavam, até que um dia... Esqueceram Francyelly Keylla. Escuro. Prisão. Vida porqueira... Nem havia com quem comentar...



Um dia, no calçadão, surge a Nissan. Prateada. Um touro deitado. Buzina, pi-pi. Não se alembra di eu gata ? Era ele. Ele, o jogador. Estou voltando prazeuropa, vou jogar agora no El-Elal dazarábia. Vem comigo ?


Um filósofo passava. Parou. Viu. Ouviu. Cyelly percebeu. O senhor pensa ? Cogito ergo sum. Então fala pro velho Platão que ele é um feladaputa !


Partiu no zepelim prateado.


E que Platão, Maupassant
ou Chico Buarque contem outras...


10 outubro 2008

ANARCRÔNICA II

A CEREJEIRA E O ROSA NO VENTRE DA MULATA ESMERALDA:
UMA HISTÓRIA DE INCONFIDÊNCIAS MINHEIRAS

OU

MISTURANDO ALHOS
COM BUGALHOS*

(Alexandre Campinas)

(*
Chama-se bugalho a uma excrescência de forma
arredondada que se forma em algumas espécies
de ávores do género Quercus - carvalhos, sobreiros e azinheiras -
na sequência do depósito, num dos seus ramos, de um ovo de vespa.
A vespa desenvolve-se e alimenta-se no interior do bugalho,
onde passará por todas as fases das suas metamorfoses:
larva, ninfa e insecto adulto.)


"Onde eu estaria feliz"
(Emiliano)


Esta fábula (sim... todas as criações minhas, animais meus são) aconteceRIA durante o período da invasão nipônica à Ilha dos Papagaios, idos quinhentistas. Os bravos bandeirantes estic’olhos do bairro da Liberdade deram de fundar na província das Minhas Gerais um pequeno aglomerado caipirurbano ao qual deram o nome de Nova Nagasaki (que ânus depois chamar-se-ia Cordisburgo). Uma tentativa de recriar em terras coloniais tupiniquins a megalópole original, destruída em um vago agosto do futuro pelas forças imperialistas paraguaias, à força de uma bomba de absolutos nêutrons literários: Pablo Cornijo, Dan MacCookie Brown e Lair Ribeir'agüada.


A vila foi fundada pelo nobre déspota bandeirante imperial Joaquim Manoel Toshiba e Toshiba, afilhado do imperador Hiroíto Nuno Saibro. Subitamente a cidadela envolta em paliçada (mór de palh'assada, menos beligerante) revelou imensa vocação floricultora. E aqui temos o início desta saga libertária-agrobisinática. Quase sem querer.


Os colonizadores plantaram nas incipientes ruas abertas do cerrado algumas cerejeiras-de-tamancos (palus lisboensis), originárias de sua terra, que, ao fim e ao cabo revelaram ser aquele solo habilitadérrimo para tais plantamentos e usufrutos, como assim o descreveu a filósofa nova-nagasaquiçençe Narcisa Tamborindeguy. em seu método desexistencialista “AI, QUE LOUCURA ! - O MUNDO É UMA ROLHA ESPOCADA DE VEUVE CLICQUOT” . O pioneiro Toshiba e Toshiba deu então de por por idéia fixa em seu processador Intel-carno-miudátido de outorgar que aquele seria o sustentáculo da terra. Nada mais haveria de plantar-se, ou lavrar-se ou criar-se além do ícone floriabundo da terrinha.


Acontece, porém, que o tirano apaixonou-se perdidamente por Esmeralda, uma mulata passista, madrinha de bateria da G.R.E.S.T.A.P.O - Grêmio Recreativo e Escola de Samba Tupiniquins Afro-Puros e Oníricos. Entidade sambo-cultural criada por ele mesmo (todos os déspotas nipônicos são loucos por mulatas e samba, como é de conhecimento impudico) e da qual era presidente, presidente-de-honra, padrinho, bicheiro esponsorista e diretor de harmonia.


Linda, a Esmeralda. Olhos verdes como convém as Esmeraldas literárias, corpo de um marrom-cobreado estonteante que emanava ondas de gengibre, alcaçuz e canela. Ele tomou aquela jóia para si, entretanto nunca foi de todo feliz porque nunca consumou a união. Toshiba e Toshiba sofria de brochurus falus mínimus o quê justificava sua tirania e megalomania (é Freud!) ficando assim a pobre (e tesuda) Esmeralda na mão, vivendo infeliz, ainda que cercada de mucamas e eununcas.


Tudo isso sucedeu-se impositivamente até que um tupiniquim por nome de João Guimarães Miguilim – um homem que amava chãos, rios, jacarés, mulatas e ROSAS foi contratado como ministro-jardineiro-chefe das Matas de Esmeralda (região úmida, contígua à quinta onde habitava - sem, entretanto, usufruir - o japa). A sensibilidade enorme daquele Miguilim roubou o coração (e outras partes pudendas) da mulata Esmeralda, já a esta altura subindo pelas paredes pela falta de, digamos, atenções.


(Em + os) vários colóquios que tivera com a Esmeralda, o jardineiro convenceu-a do perfume da ROSA. Ela, que nunca havia visto nada que não fossem as cansativas cerejeiras-de-tamanco, que a cada florada exalavam ao modo do acre cod-no-head-fish, ofertou ao poeta o seu próprio cod(igo secreto), em reconhecimento e desespero de causa.


Tramaram os amantes a Revolução das Rosas. (Em + a) surdina vírgula cooptaram a força pública vírgula os meios jurídicos vírgula a alta-saciedade e o polvo pelo obséquio-corruptício das sementes da ROSA, com que fizeram regalo a cada um deles, polvos* (histériscos vide logo abaixo) que, por sua rês, seguiram à risca os conselhos do jardineiro, espargindo-as por todo o chão da municipalidade.



* PAUSA PRO HITÉRISCO CULINÁRIO

(GRIFOS E PARÊNTESIS - NEPÓTICOS - LIBORTÁRIOS, ÓBVIOS CHAMATIVOS DE ATENÇAUM, DOIS, TRÊS... POR CONTA E RISCO DO ALL THOR)

Polvo Assado na Brasa

(Mundialmente conhecido pela all cu nha de:

PERDEU, JOSÉ MANOEL, PERDEU...)

Ingredientes
800 g Polvo
480 g Batatas
40 g Alho(s) (ainda bem que sobreveio o "(s)" ! Um alho de 40g seria do car)
160 g Pão
200 g Cebola
60 g Azeite
Envolve-se o polvo numa serapilheira (Q'PORRAÉESSA?) ou pano grosso e com, um pau bate-se muito bem (no polvo, porra... sempre no polvo...) para ficar tonto (comme d'habitude, my way, etc). Lava-se e coloca-se o polvo sobre a grelha a assar na brasa e deitam-se as batatas com casca na brasa do borralho. Quando as batatas estiverem assadas, limpam-se bem e dá-se-lhes uma pancada (eu avisei... eu avisei !) para as esborrachar (tá vendo ?!) sem as desfazer (claro... e a massa ? aquela de manobra...). Entretanto, picam-se os alhos (tô fora do infinitivo sem artigo !), a salsa e a cebola e junta-se o azeite. Colocam-se o polvo e as batatas com a casca numa travessa e rega-se tudo como molho. As batatas podem ser assadas no forno.

RITORNA, NOJENTO... TCHAN!


Na primeira florada, as oloríferas ROSAS entupiram as ditatoriais narinas, numa crise alérgoligofrênica que tampou-lhe a glote, a epiglote, o cangote, os bofes e os cambáus (chamado eufemisticamente de cu). Tal anaerobidade veio a ser o final (de + aquela) tirania, cujo corpo foi jogado para que os rouxinóis do imperador o devorassem e o tornassem esterco (ôôô...) (em + aquelas) terras, enchendo seu solo de fertilidade e plantando nas suas gentes o repúdio indignado à imposição (quaisquer [de + elas]) (foda-se, maths), gerando o permanente desejo de liberdade, ainda que à tardinha, período do dia em comemorava-se o passamento do malvado japonês.


E, como au fináu de toda fábula há um adágio ou algo semelhante que a corrobore, seguem as palavras do Rosa, o pluriúnico e verdadeiro:


“Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo profundamente os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.”

(João Guimarães Rosa)


E quem quiser que conte outra.

30 setembro 2008

AINDA SOBRE DISCRIMINAÇÃO

Para corroborar o post abaixo, sobre a data das
"LEIS ANTI-ESCRAVAGISTAS" do Império,

o Quintal Literário mostra as imagens
do passeio ao cinema e repete
parte do texto anterior.


2008.

Uma escola municipal da periferia
de Belo Horizonte programa excursão
de seus alunos (entre 6 e 14 anos) para um
shopping center, classe AAA, da cidade,
a fim de assistir um filme.

Pais e responsáveis pagam - muitas vezes
com moedas contadas (a maioria com valores entre
R$ 0,05 e R$ 0,50) - à custa de muito sacrifício.

O valor de R$ 5,00 inclui o ingresso
e um pequeno lanche.

O shopping center, classe AAA,
permite que pequenos animais domésticos
acompanhem seus donos nos programas de compras.


Animais e donos freqüentam o mesmo
espaço amplo, com boa decoração, piso de granito
e tudo mais que imagina-se encontrar em um
shopping center, classe AAA.


No shopping center, classe AAA,
uma via de acesso "especial" foi preparada
para que transitassem as crianças mulatas,
mestiças, negras, todas lindas,
da cor do Brasil.


Há um portal.

Ele dá acesso ao interior do
shopping center, classe AAA.

O grande e iluminado portal da
igualdade é contornado
pela via "especial".



É que a via "especial" não possibilita
nenhum contato das crianças
com o interior do shopping center, classe AAA,
e tampouco com os usuais
freqüentadores, classe AAA
(e seus eventuais pets).


Crianças tão lindas seriam um caso
de emergência para o shopping center,
classe AAA ?


Cadê o piso de granito ?

Onde as vitrines
esmeradamente decoradas?



Glamour ?

Respeito ? Igualdade ?!?!

Saída de emergência ?
Ou de serviço ?



É que lá, no shopping center,
classe AAA,
não é lugar de Kizomba.


É claro !

Kizomba está além da classe AAA.
A Kizomba, a festa do povo negro
que resiste à escravidão, e exalta
a vida e a liberdade,
significa congregação, confraternização.

A etimologia de confraternização,
remete a frater. Do latim, irmão.
Somando-se ao radical, o prefixo e sufixo
que formam a palavra,
teremos a livre interpretação de
REUNIÃO DE IRMÃOS.

Como o shopping center foi feito
apenas para a classe AAA,
tal espaço de consumo irreal
e divertimento duvidoso, infelizmente,
passa ao largo da cultura inicial
(berço de todos os irmãos da raça humana,
que independe da cor da pele)
que, por tão generosa,

vai do Alfa ao Ômega.

Como seria maravilhoso
se a classe AAA soubesse ler.

Se soubesse apreender significados
antes de impor significantes.

Zumbi: valeu !


Aos filhos de um mesmo mundo


Guarda sua arma,
meu peito é aberto.
As suas, nas minhas mãos,
aperto, pouso certo.
Irmãos:
luta, vida, karma.

Já há paz que flui,
horizonte em revolução.
A mente irmã distribui
ternura sempre e socialização.
Desejamos e construímos:
saúde, escola e pão.
Diferenças partilhadas,
colheita que nasce do chão.

Guerreiros de Jorge querem paz;
conosco a mão de Ogum.
Junta com nosso braço e faz
força fraterna, mais um.

27 setembro 2008

DIA 28 DE SETEMBRO

LEI DO VENTRE LIVRE (1871)
LEI DO SEXAGENÁRIO (1885)

Morto, sim; escravo, não !


Olha palma, palma, palma...
Olha pé, pé, pé...
Roda, roda, roda, menina

Que veio lá da Guiné
Mas existe...


"Existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e covardia"
Assim gritou a fúria do poeta
Com a dor do negro escravo que tanto sofria...
E hoje, relembrando Castro Alves
O povo desce sambando e cruza os mares
E um afro canto banto nos devolve...
A luta que nasceu com Zumbi dos Palmares

Oiá, Zumbi... bravo irmão
Deste a própria vida para não trair
Aqueles que lá no Quilombo
Palmaram teus ombros
De um congo fiel
Morto sim! Escravo não!
Canta tua memória lá da Chácara do Céu
Que a voz operária é a do Borel

Olha a palma, palma, palma...
Olha pé, pé, pé...
Roda, roda, roda, menina
Que veio lá da Guiné
Mas existe...
(Levante do Borel - Taiguara
vide mais abaixo)


Dona Ivone Lara: rainha !




O NAVIO NEGREIRO
(Tragédia no mar)


(Castro Alves)


VI

(...) Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...
Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...


Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares! (...)

*


2008.


Uma escola municipal da periferia
de Belo Horizonte
programa excursão
de seus alunos (entre 6 e 14 anos) para um

shopping center, classe AAA, da cidade,
a fim de assistir um filme.


Pais e responsáveis pagam - muitas vezes

com moedas contadas (a maioria com valores entre
R$ 0,05 e R$ 0,50) - à custa de muito sacrifício.

O valor de R$ 5,00 inclui o ingresso
e um pequeno lanche.


No shopping center, classe AAA,
uma via de acesso especial
foi preparada

para receber as crianças mulatas, mestiças,
negras, todas lindas, da cor do Brasil.


A via de acesso não possibilita
nenhum contato das crianças
com o interior do shopping center, classe AAA,
e tampouco com seus usuais
freqüentadores, classe AAA.



Com a palavra, TAIGUARA.





É que lá, no shopping center,
classe AAA,

não é lugar de Kizomba.

É claro !

Kizomba está além da classe AAA.

A Kizomba, a festa do povo negro
que resiste à escravidão, e exalta
a vida e a liberdade,

significa congregação, confraternização.

A etimologia de confraternização,
remete a frater. Do latim, irmão.
Somando-se ao radical, o prefixo e sufixo

que formam a palavra,

teremos a livre interpretação de
REUNIÃO DE IRMÃOS.

Como o shopping center foi feito
apenas para a classe AAA,

tal espaço de consumo irreal
e divertimento duvidoso, infelizmente,
passa ao largo da cultura inicial

(berço de todos os irmãos da raça humana,

que independe da cor da pele)
que, por tão generosa,

vai do Alfa ao Ômega.

Como seria maravilhoso
se a classe AAA soubesse ler.

Se soubesse apreender significados
antes de impor significantes.


Zumbi: valeu !







*


*
Kizomba, a festa da raça
(Rodolpho, Jonas e Luiz Carlos da Vila)

Valeu Zumbi

O grito forte dos Palmares

Que correu terras céus e mares
Influenciando a Abolição

Zumbi, valeu

Hoje a Vila é Kizomba

É batuque, canto e dança
Jongo e Maracatu

Vem menininha pra dançar o Caxambu
Vem menininha pra dançar o Caxambu


Ô ô Nêga Mina
Anastácia não se deixou escravizar
Ô ô Clementina

O pagode é o partido popular


O sarcedote ergue a taça
Convocando toda a massa

Nesse evento que congraça
Gente de todas as raças
Numa mesma emoção

Esta Kizomba é nossa constituição

Esta Kizomba é nossa constituição

Que magia

Reza, ajeum e Orixás
Tem a força da Cultura
Tem a arte e a bravura

E um bom jogo de cintura

Faz valer seus ideais

E a beleza pura dos seus rituais

Vem a Lua de Luanda

Para iluminar a rua
Nossa sede é nossa sede
De que o Apartheid se destrua

Valeu,
Valeu Zumbi

*

22 setembro 2008

Montagem ?
Muito treinamento ?


Ou... poesia ?


19 setembro 2008

MINHA ILHA
( CARMINHA HORTA )


A MINHA ILHA FICA SEMPRE DENTRO DE MIM.

QUANDO PARTO SAUDOSA, ELA NÃO PERGUNTA SE VOU VOLTAR

FICA ME OLHANDO ATÉ O MEU BARCO SUMIR.

AS NUVENS QUE PARTIRAM NA MINHA CHEGADA,

VOLTARAM A COBRIR MINHA ILHA COM SEU MANTO CINZA,

COMO SE COMPREENDESSEM A DOR DA SAUDADE

QUE EU E ELA SENTIMOS NA HORA DE PARTIR.


SIGO MUITOS CAMINHOS, CONHEÇO OUTROS MARES

NAVEGO SEM INSPIRAÇÃO, NÃO CONSIGO REMAR CONTRA A MARÉ.

MINHA ILHA ENVOLVENTE, DE ÁGUAS TÃO QUENTES

ME EMBALA COMO UMA LINDA MULHER.

NÃO DÁ PRA VIVER SEM VOCÊ

SUAS CURVAS PERFEITAS, SUAS LINHAS EXATAS,

ME MOSTRAM SEU PERFIL DE DEUSA DOS MARES

NAS SUAS PRAIAS DE AREIAS PRIMITIVAS,

MEU CORPO DEITO, PRA RELAXAR:

ME ACHEGO PRA LÁ, PRA CÁ

E SINTO NA PELE, ALGO QUE NEM SEI EXPLICAR

CORRENDO OS OLHOS NEM SEI O QUE PRIMEIRO OLHAR:

SE SUAS PRAIAS, FLAMBOYANTS

OU SUA BRISA QUE VEM LÁ DO MAR.


POR TANTOS ISSO E AQUILO,

EU TE AMO, PAQUETÁ.