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14 maio 2009

Delírios




Talvez fosse
o som das horas
entrando pela janela,
ou o perfume
das rosas adormecidas
que exalavam
na madrugada
insone...
Eu tinha certeza
que ouvia você
gritando
meu nome.

haikaizim torpe toda vida...


no meu não, japa !
(Ela Sanipmac)



- saquê não: muito viado.

- porra, o dinheiro é meu !

(gole, gole, gole, gole...)

Putz... Ganhei poesia !




pra brincar:

Ale ale ale

ale ale ale
Olá!

(IndiaOnhara)


"gostado muito"

08 maio 2009

INSUPORTÁVEL

(Prado Costeiro - Sorry, mister Nuvens)


De nossos chats,

minha mente imprimiu

o melhor de você.


O que não quis,

deletei.

Pura chateação.


Insuportável como o tempo perdido:

a viagem que não existiu

porque não foi registrada.


MARIA DA FÉ

(Lex Campinho - Excusez-moi, monsieur Sebastião)


ELA TINHA APENAS A SEDE DO MUNDO,

ELA SÓ TINHA SEDE DE TUDO.


MARIA DA FÉ,

DESCENDO A RUA

DA CIDADEZINHA ONDE NASCEU

NÃO IMAGINAVA,

MARIA DA FÉ,

SERIA ACUSADA PELA MESMA TURMA

QUE A VIU CRESCER,

MAS QUE INJUSTIÇA

LOGO COM A DOCE MOÇA

QUE A TUDO SE DEU.

ENTREGANDO-SE À VIDA

NA LUTA E NO AMOR...



DISSERAM QUE ELA

ERA COMUNA OU ENTÃO MESMO

UMA SOCIALISTA.

TANTA BESTEIRA,

MARIA DA FÉ

NO FUNDO SABIA QUE A IDEOLOGIA

NÃO ERA PRA ELA:

MUNDO CAÍDO,

MUNDO CARTESIANO.

MUITO, DEMAIS

PRA PRENDER OS SENTIDOS

DE UM CÉU TÃO AMPLO...


ELA TINHA APENAS A SEDE DO MUNDO,

ELA SÓ TINHA SEDE DE TUDO.


SEM MAIS ARGUMENTOS

NA FOLHA DA TARDE, MARIA DA FÉ,

PINTADA EM HYPPIE,

ESCANDALIZANDO:

SENHORAS, IGREJAS.

ATÉ O PASTOR, PRIEST MACKENZIE,

SE PERGUNTAVA:

CADÊ SUA MENINA

QUE TANTO SONHAVA ARROZ

JOGADO À SAÍDA ?

MAS UM PRÍNCIPE ENCANTADO

NÃO ERA A SUA VIDA...



ELA TINHA APENAS A SEDE DO MUNDO,

ELA SÓ TINHA SEDE DE TUDO.


MARIA DA FÉ,

DEIXOU O SEU CANTO

ROMPENDO AS VIRGENS FRONTEIRAS,

AINDA REZAVA

PARA QUE O MUNDO

NÃO FOSSE TÃO MAU

COM A MAIORIA DAQUELAS PESSOAS

QUE VÃO SEMPRE À MARGEM,

EXPURGO DA VIDA.

LUTOU A DOCE MARIA,

TÃO CALEJADA DE VIDA

SONHOU DOCE, A MARIA...



NO FIM DA ESTRADA,

VOLTOU AO SEU POVO

TÃO RECONHECIDA, MAS NÃO TINHA FESTA.

APENAS PRIEST MACKENZIE

AGUARDAVA MARIA

SEM NUNCA ENTENDER:

CADÊ SUA MENINA ?

AGORA ERA CARNE, MORTA MARIA,

TODA SOL EM VIDA E ARTE,

SEMENTE DE AMOR.

DEU FÉ DO QUE VIU E OUVIU

ESPALHANDO LUZ E SOM ...


ELA TINHA APENAS A SEDE DO MUNDO,

ELA SÓ TINHA SEDE DE TUDO.


NINGUÉM FOI SALVO.

ANJOS COM SEDE,

ELES VÃO COM MARIA, PARA ONDE É QUE VÃO ?

VÃO CHÃO ADENTRO,

VÃO CÉU AFORA

CANTANDO, LOUVANDO,

AMANTES DANÇANDO EM SUA PROCISSÃO.

DEIXANDO POEIRA

NA BELA, LONGA ESTRADA

PISADA EM FLORES AZUIS.

TODOS OS TONS COMEMORAM

MARIA EM CORES DE LUZ...


ELA TINHA APENAS A SEDE DO MUNDO,

ELA SÓ TINHA SEDE DE TUDO.


27 abril 2009

PRIMÓRDIA
(Alexandre Campinas)

À Josana

Ao Infierno do Denner Campolina


A cerâmica tem aquela cor ferruginosa,

pardacenta... É como se o fogo queimasse a cor

da cerâmica, guardando-a no interior da peça. É

o olhar que deve descobrir e revelar as cores.”

(Francisco Brennand)



Era repugnante ver todas aquelas partes espalhadas, desordenadamente, sobre o asfalto. Com o mergulho, as leis da física cobraram veredito e, de forma nenhuma o resultado poderia ser contrário. O que se viu foi um espatifamento extraordinariamente vermelho, pintalgado aqui e acolá por tecidos esporadicamente brancos.


O cara tinha miolos...


O impacto fez os órgãos explodirem e projetarem-se para fora daquele sofrido corpo, Cavalo de Tróia de seus sonhos, forçando os tecidos musculares e a pele a romperem-se como aqueles plásticos de bolotinhas de ar, que embalam coisas frágeis e que todos gostam de estourar, como passatempo.


Não fazia mal. A peneira do asfalto reteve o corpo, mas ele penetrou fundo os insondáveis mistérios da terra. Ela o chamou. Ainda ouvia populares questionando se suicídio ou crime terrível, entretanto o alarido foi ficando cada vez mais para trás, junto com o corpo que chegou ao solo de cabeça. A boca apontando para o chão num beijo de dentes pulverizados. Apesar do pouco gozo do mergulho (ele pensara que demoraria bem mais), a libertação de toda aquela carne corrompida foi-lhe extremamente saudável. Qual suicídio nada. Qual crânio rachado os cacetes ! Mergulhou para voltar ao fundo da terra que sempre foi meio invertida dentro da sua liturgia: o alto do céu.


A cabeça já fora rachada muitos anos antes quando ele simplesmente estoporou no fogo do sol na viagem desde a região da seca em que vivia. Rachou. Como pedra atingida por raio. Viveu toda a vida com aquele talho profundo que ocultava sob o chapéu. Ia da fronte à nuca. Só descobria à noite para pegar ar e as cores que ele acumulava em si. As soturnas cores do mundo.


Claro que, por tamanho rombo, muito mais entrava e saía. Durante a noite ele dava a descarga naquela privada de carne que habitava, de forma que, desimpedida a fresta, novamente pudesse entrar a vida por ali. Lá pela madrugada, acordava suavemente e, cheio de idéias, punha seu chapéu, terno preto e camisa de colarinho alto e saía pelas ruas vazias, coloridas de sonhos e plenas de som calado – que ele ouvia – e que antes, durante o dia dos normais eram muito embaçadas e cheias de nada (ele não era normal como todos. Era mais normal. Supranormal). Ele ia assim, pardo e nada, cheio de santos e rezas.


Na primeira mulher, educado e cheio de mesuras, retirava o Fedora curto, de feltro bege como argila. Tarde para ela, que era impiedosamente varada por aquele ímpeto santo, que nascia do baixio dos infernos e apontava o paraíso celestial. Mais uma santa que habitaria seu altar. Penetrava-lhe a carne e fazia gozar a alma na violência cariciosa do emplastramento uterino pelo esperma redentor. Era a demácula original. A mãe do mundo, finalmente purificada, era ungida nos santos óleos da verdade. Todas as cores do mundo, então, assomavam-se àquele novo ser que amanheceria espectral e, para sempre, fingir-se-ia noite durante o dia para viver o dia na noite.


Ao primeiro sol, a mulher, de espírito fertilizado, tinha estuporava a cabeça também. Os olhos passavam a ver o que ele via. Assim o enviado reproduzia-se. Espargia identidades não-hipócritas, repovoando mundo. Os hipócritas emprenhavam papéis higiênicos com todos os espermatozóides do mundo e, matavam, aos poucos, os semelhantes que jamais haveriam de ter a chance de estuporar. As hipócritas, emprenhavam-se de chuveirinhos tépidos, as mais afoitas lavavam seus óvulos como se isso fosse suficiente. Ele sabia que não. Daí a urgência da violência do ato.


Sentia-se, então, um cruzado medievo ou cangaceiro signático ou mouro reagente que moldava carne no barro sob a ordem que se lhe vinha de cima. E de baixo. Carregando estandartes rubros e azuis. Um oleiro que cozinhava as peças no fogo que peca (enchendo-as de vida que só outros estuporados veriam) necessário e urgente. Após, a remissão viria pela visagem da luz exterior ao forno, num resfriamento rápido que dá dureza e firmeza de caráter, em contraposição à maleabilidade social.


As santas que ascendiam (descendo rapidamente terra adentro), antes seduziam e rachavam cabeças masculinas, pois o fulgor da manhã não era suficiente para a estuporação das cabeças desses. Muito duras. À força de machados, os atraídos por seus cantos eram devidamente rachados. Qual cera, nada. Qual mastro, porra nenhuma !


Viveu mendigo e miserável para todos (os que nunca viram sua caixa craniana tão receptiva, emitiva e rachada), porém, sempre cumprindo a determinação do altíssimo e do baixíssimo. Criando deusas e essas criando deuses.


Fervor.


Noite dessas, ouviu sua redenção chamando-o. A missão, finalmente, fora cumprida. Subiu pelas escadas ainda em construção de todos os 148 patamares do espetacular prédio construído pela hipocrisia (os dois últimos que, logicamente, arredondavam a conta, eram de um templo pentecostal e nesses não precisava entrar, pois seguindo a ordem da pontacabeça geral, sabia-os alocados radicalmente no inferno, sem a mínima possibilidade de viver entre os mundos, como ele).


Não tropeçou no céu, como os populares no alvoradíssimo logradouro pensaram, vendo-o flutuar no ar. Qual tropeço. Qual suicídio ! Apenas seguiu a mensagem que cumprimentava pelo desenvolvimento da missão, oferecendo, como prêmio, o céu profundo.


Levou a noite toda subindo, subindo... Do alto da escuridão, clarividente, percebeu o beijo safado abrindo-se para ele. Ascendeu ao chão. Ao alto do fundo do chão. Penetrou aquela terra. Êxtase sacral. Voltará no início dos tempos, quando desencantar.


Purificado e colorido de luzes, sem o corpo de barro.




31 março 2009

Irmão, irmãozão:

Segue com Deus teu caminho.
Que seja luz, brilho e aprendizagem tua sina.
Que sejam de trabalho duro, bom e justo
os teus passos.

"...qualquer dia, amigo,
a gente vai se encontrar".

(12 ago 57/ 31 mar 09)




Esta, você pediu para eu gravar. Não deu tempo de lhe entregar, mas... Aí está

29 março 2009

Canto pra Umes BH

(AC)


Passarinho tem que voar.

Fazer do céu seu mister

do campo geral, sua fé:

taça, ventre e graal.


Passarinho tem que ir e vir,

em cada bico uma notícia

pr'essa terra evoluir:

passarinho não precisa de polícia.



Todo o mundo num graveto,

gravetos, passarinhos...

construindo coletividade sem guetos:

Niños.


Fecundando hoje

os ninhos do amanhã,

d'onde tão sábios vão cantar:

e serão tantos outros niños.


Acalentando o saber

do canto que – hoje meninice –

amanhã, quando o sol nascer:

profissão de embalar sua velhice.



A pedra que vocês jogam, pedra inquieta,

ricocheteia no chão

faz poeira, mas vocês desconhecem o poeta:

vocês - desgraçadamente - passarão.


Passa, passarinho,

Vai, passarinho, e quando voar,

desperta amor, saber e carinho:

assim, de tanto meio-passar,


passe livre !




E que as crianças,

as nossas crianças:

de fora e de dentro de nós,

possam, sempre, e muito

Cantar livres sobre os muros e

ensinar sonhos aos que nunca

puderam amar sem dor.


Xô, ditadura.

Xô para sempre !


21 março 2009

Só para lembrar que

Os nossos sonhos,
os sonhos mais lindos que sonhamos,
não envelhecem não.


Amigo Negão, Crioulo: não sei se vai dar para a gente

- nesta passagem aqui -

reeditar aquelas tardes que a gente tanto invejava,
na Santa Sofia, com os velhos tomando whisky
e comendo biscoitinho de cebola.

Mas, se for o caso, de lá,
prepara a sala pra gente, falou ?



Irmandade
(Octávio Paz)

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Porém olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

Unhas Francesas
(Alexandre Campinas)


I


Executiva elegante, 52 anos, marido cardiologista: ricos amigos, corpos separados. Um tédio. Deixa o escritório para fazer algo diferente.



O motorista, sedução, motel. Ela o come. Pelo room-service pede bicarbonato. Arrôto. Diz: "homens..."



II


Moça no ônibus, incomodada com uma meleca grudada na parte mais funda da narina esquerda. Coça. Ônibus lotado, calor. ”Saco... mais uns 40 minutos, se não engarrafar”. O gordo sentado ao lado a espreme, sufoca.



A mão dele sobre roliças coxas jeans escorregam em direção às dela. O dedo mindinho dele roça de leve, esperando, testando. “Inconveniente, abusado, chato, porre, nojo...” Nojo ? Meleca. Enfia o dedo, tira, vem melada, geléia esticada, comprida. Segura a mão do gordo, aperta, cola. Levanta. Campainha. Desce.



III



Repentino temporal atrapalha a tarde adorável em Paris. Corre para o hotel, chega pingando. Elevador. A ascensorista cutuca a orelha. Repara: unhas francesas.


07 março 2009

8 de março
Dia Internacional da Mulher





Com Licença Poética
(Adélia Prado)


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.


Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Hoje, para as mulheres,
uma Rosa





27 fevereiro 2009

Choro pro Abrahão

(Alexandre Campinas)


Queria curtir um chorinho

brasileiro,

cheio de repetição

de clarinete e pistão.


Que não faltasse o pandeiro,

marcação sensacional,

o cavaquinho e violão

do jeito bem tradicional.


Até pensei em ir a Lapa

me encontrar com um velho chapa

e no caminho

alguma coisa aconteceu.


Só percebi quando passei

pelo Noel, no Boulevard

todo enfeitado

e a esquerda eu tomei.



Cai em plena Teodoro

coração de Izabel

e na esquina com a Vianna

o velho chapa encontrei.


Olha aqui Seu Abrahão

este arremedo de canção

me de um jeito por favor

nessa letrinha e no tom.


A bela tarde já é boa

só porque eu te encontrei

e as horas vão passando

tanta memória que nem sei


Até parece um passeio

que no tempo fiz ligeiro

por aqui ou acolá

de bicicleta em Paquetá



Um tira-gosto, bota o sal

olha a cerveja, desce outra

e a conversa já parece,

nessa tarde, uma canção.


Seu Abrahão

se não se importa

não me feche essa porta

e deixe entrar a luz em escarcéu.


Tanta bagunça é o sol

se despedindo

na festa que não termina

com as estrelas lá do céu


Escute aqui velho Abrahão

a conta é minha, nem me fale

leve seu tutú pra noite

que eu levo a recordação.


20 fevereiro 2009


LOUCO POR DESCULPA
Entrou no ônibus com aquele olhar vidrado das pessoas que têm problemas demais na cabeça, ou daquelas que têm juízo mole. Mostrava um semblante aéreo, quase abobalhado. Passou direto pela catraca e nem fez menção de pagar.
- Ô meu chapa, vai pagar não?
- Desculpe.
- É cada maluco que me aparece...
- Já pedi desculpas. Por que o maluco?
- É só jeito de falar... Você foi passando direto... Tem que pagar!
- E só por isso eu sou maluco?
- Pensei que fosse.
- Mas eu não sou.
- Tá certo, você não é maluco.
- Então você me deve desculpas.
- Não me leve a mal, mas eu nunca peço desculpas.
- Olha aqui: eu agi errado e pedi desculpas. Você me ofende e não quer pedir?
- Não peço mesmo, são meus princípios.
- Princípios uma vírgula. Isso é falta de civilidade.
- Está me chamando de ignorante?
- Ignorante, grosso, mal educado ou o que você bem entender.
- Agora quem deve desculpas é você.
- De jeito nenhum. Quem não sabe pedir desculpas, não tem direito de exigi-las.
- Ai meu Deus, eu mereço...
- Merece mesmo. Pensa que todo mundo gosta de levar desaforo pra casa?
- Que desaforo, meu amigo?
- Você me chamou de maluco.
- Tá certo, faz o seguinte, o maluco sou eu.
- É mesmo. Pra fazer gracinha com quem não conhece tem que ser maluco
.- Tudo bem eu sou maluco. Agora vai sentar que você está obstruindo a passagem.
- Só depois de ouvir suas desculpas.
- Não vou pedir desculpas nenhuma.
- Vai sim.
- E quem vai me obrigar, você?
- Se eu não obrigar, o Tetéco obriga
.- Tetéco? Isso lá é nome de gente?
- Não, mas com ele vai ser pior. Você vai perder mais que a chance de pedir desculpas.
- Eu vou perder é a paciência já, já. Com você, com o tal do Tetéco e com o raio que os parta.
- Quero ver mostrar essa valentia olhando pro Tetéco.
- Então vá lá chamar o seu Tetéco e não me encha o saco.
- Tá bom. Fala aqui pra ele não encher o saco.

Quando os passageiros do ônibus viram a arma na mão do sujeito, seguiram o manual de sobrevivência nas cidades grandes: voltaram seus rostos para a janela e passaram a olhar o movimento lá fora, fingindo que nada estava acontecendo. O motorista nem olhou pra trás, nem esboçou reação. Apenas seguiu dirigindo, sem parar em nenhum ponto.

- Que isso, cara. Abaixa essa arma.
- Eu falei que era melhor me pedir desculpas.
- Tá bom, eu peço, mas abaixa isso.
- Agora é tarde. Vai ter que pedir desculpas pra mim e dá um dinheirinho aqui pro Tetéco.
- Então era isso que você queria, assaltar o ônibus?
- Claro que não. Eu só queria as suas desculpas. Mas o meu amigo aqui, o Tetéco, tem esse fraco por dinheiro, fazer o quê?
- Toma, leva a grana, mas aponta isso pra lá...
- Bota tudo aí na sua bolsa.
- Posso tirar meus documentos?
- Claro, tiras as chaves de casa também. Mas deixa o dinheiro.
- Tá tudo aí, tá tudo aí...
- Certo, com o Tetéco você já se entendeu. Agora falta o que me deve?
- O que você quer mais?
- Esqueceu? Tetéco, fala pra ele o que falta...
- Não aponta isso pra mim, por favor.
- Então paga o que me deve...
- Tá bem, desculpa.
- O quê? Não ouvi direito?
- Desculpa.
- Mas o que aconteceu com você? Ainda há pouco estava falando grosso e agora mal se houve a sua voz. Grita pra tudo mundo ouvir: DESCULPA, VOCÊ NÃO É MALUCO!
- Tá, eu grito, eu grito! DESCULPA, VOCÊ NÃO É MALUCO!
- Sou sim. Quer dizer, sou sem ser.
- Ai, meu Deus, o que você quer mais?
- Só dizer que eu não sou doido, mas sou Maluco sim. Esse é o Tetéco e eu sou o Maluco! Dá tchau pro moço, Tetéco e vamos nessa.
- Motorista, pára no próximo!
Desceu do ônibus com aquele olhar vidrado das pessoas que têm problemas demais na cabeça, ou daquelas que têm juízo mole. Mostrava um semblante aéreo, quase abobalhado. Passou direto pela confusão das ruas como se não visse ninguém.

Crucificado no carnaval

(Mão Branca)



Li no jornal que um jovem foi encontrado morto preso numa cerca de arame farpado na mesma posição que Cristo na cruz.

A polícia não demorou para achar o corpo.

Decidi escapulir da cidade durante o carnaval. Detesto samba. Mesmo adorando as bundas desnudas e oferecidas dessa época, escolhi recolher-me junto à natureza. Quando saia pela estrada sul, notei uma briga no meio do mato, ao lado de um carro parado. Não queria me meter, mas sei do que sou capaz e decidi salvar o alguém que estivesse em perigo.

- Fique aqui no carro, mulher. - Disse à minha companhia. Peguei a pistola debaixo do meu banco e sai cortando o mato.

Ouvi gritos. Um homem mandava outro entrar no porta-malas. Gritava também a um terceiro para que retirasse gasolina do tanque. Eles iriam queimar o prisioneiro.

- Por favor, moço, pode levar o carro. Pode levar minha carteira. Eu não conto nada para ninguém. - Implorava o prisioneiro, um jovem de uns 21 anos. Cabelo bem aparado, roupas sóbrias, na camisa a inscrição "exército de Jesus".

- Calaboca. Você vai morrer! - Virou-se ao comparsa. - Cadê a merda da gasolina?

- Tô puxando, porra! - Ele sugava uma mangueira enfiada no tanque. Engoliu um grande gole e engasgou.

- Entra logo nesse porta-mala. Anda! - O seqüestrador tinha um revólver 32 na mão. Empurrava sua ponta na barriga do prisioneiro.

- Por favor, moço, eu sou crente. Não faço mal a ninguém. Não vou contar nada.

- Claro que vai, filho da puta. Vocês, crentes, são mais safados que qualquer bandido.

- Não, moço, não faça isso.

- Se eu te deixar vivo, você vai me dedar.

- Não, moço, não vou.

- Calaboca! - O seqüestrador deu uma coronhada no crente. Ele se calou mas ainda não queria entrar no porta-malas.

O outro bandido apareceu com um saco plástico cheio de gasolina.

- Por favor, eu faço o que você quiser. Eu chupo seu pau!

- Sai fora, viado. Vai morrer mesmo, ainda mais porque é viado. Crente e viado. - Deu uns tapas no crente.

Não interrompi a luta pois esperava o melhor momento para meu ataque.

- Se não entrar no porta-malas vai levar bala aqui mesmo. - Apontou a arma para o crente. Eu não conseguia ver se o outro bandido também estava armado. Tive que agir senão o crente morreria.

Atirei em cheio no peito do bandido. Ele desmontou feito marionete sem os arames. O crente gritou de medo. O outro bandido me viu saindo do mato.

- Se quer viver, fique parado. - Eu disse ao bandido.

O crente pegou a arma do morto e a apontou para o outro bandido.

- Larga essa merda. - Falei. - Você não sabe mexer com isso.

- Eles iam me matar.

- Larga logo isso. - Gritei.

- Não. Eu vou matar esse cara!

Se o crente atirasse seria assassinato pois o bandido já estava dominado. Matei o outro para salvar a vida do crente, num momento decisivo.

- Solta essa arma! Você não pode fazer isso! - Gritei.

O crente, com olhos alucinados, apontou a arma para mim. Empurrei o revólver e levantei a ponta. O tiro foi para cima. O cano queimou minha mão.

- Seu merda idiota... - O outro bandido puxou um revólver de baixo da camisa e me apontou. Fuzilei-o com um tiro na testa.

O 32 soltou-se da minha mão e o crente olhou o novo morto.

- Você matou os dois. - Disse-me.

- Larga essa arma, cara. Você não tá bem.

- Você matou os dois. - Repetiu. - Você cometeu um pecado.

- Foi para te salvar. Larga a arma!

- Você cometeu um pecado. Você vai pro inferno!

Nem argumentei mais ao ver a loucura em seus olhos. O crente apontou novamente a arma para mim. Eu podia desarmá-lo num instante, mas resolvi dar a ele a mesma chance que ele próprio deu ao segundo bandido. Acertei o tiro em seu coração.

Busquei meu carro na estrada. Recolhi as armas e os corpos dos bandidos. Eu os desovaria em algum lugar distante dali. Peguei o corpo do crente e conferi meu disparo. A bala o havia atravessado. Sem preocupações com balística. Arrumei tudo ao redor e fui embora.

- Por que você colocou o crente de braços abertos e pernas juntas na cerca de arame farpado? - Quis saber minha companhia.

- Para ficar igual a Cristo na cruz. - Ela me olhou inquisitiva. - Ele era crente, não era? Deve ter gostado. Quem sabe assim não tem alguma redenção lá onde estiver.

13 fevereiro 2009

Crônica do Brant no Estado de Minas, 11/2/09


Vidas de Passarinhos


"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho".
(Mário Quintana)


Cristiano Quintino, olhar fotográfico, percebeu que seu canarinho estava diferente. Descera do poleiro e não mostrava ter forças para retornar às alturas, o pescoço em posição estranha. O que estaria acontecendo, era o fim do ciclo de vida dele ? Cuidadosamente, desceu com a água e a comida para o andar térreo da gaiola. Quantos anos humanos vive esse tipo de pássaro ? Mais tarde, era hora de trabalhar em seu ofício, pesquisaria na internet para saber.


O ontem se foi e ele acordou na manhã ávido de notícias. O canário rosa e alaranjado parecia mais bem disposto. Pela manhã conseguira subir à cobertura, mas, à tarde, a fragilidade do dia anterior voltara. Comida e água voltaram para o rés do chão. Nas fotografias que Cristiano fez, naquele momento, ficou claro que a ave tinha o corpo enrugado, gasto e envelhecido.

O tempo de despedida está se aproximando. Mas, para que isso não ocorra, o homem das lentes se dirigiu ao amigo conclamando-o a viver mais um pouquinho. E falou com o amor e o carinho que existe entre um homem sensível e qualquer ser vivo e companheiro. Diálogo dos que se querem.

Na mesma manhã, no mesmo dia, em outro endereço, no jardim da casa de minha mãe, um filhote de passarinho caiu do ninho. Minha irmã, ao vê-lo, levou-o para a varanda, temerosa de que ele fosse destruído pela cadela. Querendo alimentá-lo, providencia alpiste para ele, que não tem idade para comê-lo.

Eis que começa a chover. Ana resolve levá-lo para o quintal, 30 metros abaixo de onde ele foi encontrado. É bom dizer que, entre o jardim, em frente à rua, e o quintal, lá no fundo do lote, existe a casa em que a família Rocha Brant se criou e cresceu. Nova tentativa com o alpiste, e nada.

Passado um tempo, a alegria do milagre. Os pais do filhote o encontram, lá naquele espaço longínguo em que ele está. Voam em torno dele e se aproximam. E buscam na redondeza os pequenos pedaços de vida, fiapos que trazem no bico e lhe dão. Pais e mães acham os filhos onde eles estiverem ?

O amor tem radar. E o desespero da procura do filhote desaparecido agora se transforma no tudo fazer para a sua sobrevivência. O canarinho do Cristiano vive seus últimos dias. E o filhote que a Aninha descobriu no jardim de nossa casa, e que os pais reencontraram, é uma pequena história para comover e ensinar aos homens e mulheres de todos os tempos. Vida vai, vida vem.

Bilhetinho pro Fernando

(Alexandre Campinas)



"O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz
largo com repuxo no meio, flores e arbustos,
alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima;
o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta,
branca e circular, donde mira o resto.
Tudo o mais é ilusão e mentira".
(Machado de Assis)

Vi um um lugar. Espécie de ponto não-ser, tal a projeção dos sonhos, bondades e sutilezas, que nos orbita a todos. É o espaço das boas maneiras, geografia abstrata do que há de verdadeiramente humano em nós, despido das vaidades e orgulhos que impedem o canto.


Trinado mais, trinado menos, às vezes, em flashes milimesimais, logramos uma breve visita a esse sacro que habita em nós. É o instante da poesia. Inebriante reencontro com o adolescente pleno de deliciosas incertezas lacunares cimentadas pelo sonho e pela esperança.



No raro momento, trinado mais, trinado menos, torna-se irresistível o compartilhar de nossos locus. É quando desejamos que o mundo saiba que nada é absoluto e que o impossível pode ser a via menos acidentada. O canário socrático do Machado sabia.



Trinado mais, trinado menos, o canário Orlando do Quintino também segue questionando os nossos níveis de disponibilidade fraternal e generosidade. O Profeta Gentileza era um canário. Os pais do filhote que a Aninha achou – shhhh, Fernando, eles ainda não sabem – são canários. Chaplin, Oscarito... Tá lá, pode ter certeza. E o Rosa, o Braga, CDA, Vinícius, Quintana, Bandeira, Bilac, Coralina ? Canários-realíssimos. I-n-d-i-s-c-u-t-í-v-e-l, como tantos outros que esculpem eternidades no instante. Borges e seu Aleph sabiam. Canário !


É só fechar os olhos, sintonizar o coração, permitir-se, crer para – trinado mais, trinado menos – perceber que o mundo é dos que cantam: a vida. Talvez você, Fernando, não tenha posto intenção (mentira, diria vovó, canária como ela só, o traquinas fez de propósito...), mas foi fundo no destaque dado a uma máxima do Quintino (só ele mesmo para contrariar o ditado popular):


- Os bicudos se beijam.


Os bicudos se beijam, Fernando. Então que jamais se turbe o vosso coraçãozinho: os Orlandos sempre serão eternos.


Eu ? Passarinho ! Um tanto rejeitado, mas passarinho. Um pouco sem rumo, passarinho. Algo à esquerda na vida, passarinho. Incompreendido comme d'habitude ? Passarinho. Passarinho. Passar-inho, passar pequenininho. Passar, indo.


Passar rindo.


14 dezembro 2008

ANARCRÔNICAS III

NA TÁBUA DA BEIRADA


Eu queria era ver agoooora ! Francyelly Keylla estava voltando. Foram quase três meses de sucesso absoluto como mulher-umbu, uma natural referência às predileções sexuais do rapaz, que chamava-se Haroldo José, de acordo com seu registro natural. Foram quase três meses, como ia dizendo. Para ser mais exato, 85 dias. Um período de festa total desde que foi flagrado com um famoso jogador de futebol, em um badalado motel da zona sul. Fotos, flashes, entrevistas em programas vespertinos. Até assessoria de imprensa ele contratou.



No decorrer desse período, Francyelly/Haroldo conheceu a luz. Não imaginava – jamais pensaria – ser possível que algumas pessoas pudessem viver assim. Aquilo nunca foi luz. Holofote sim, seria a palavra adequada (valei-me São Platão, Ave Beato Saramago, Salvai-me Dom Neo, Socorro, Baudrillard !). Champanhe ? Muita. Como água de torneira. Caviar ? Fedido, porém elegante, apesar do gosto de baiacu cru (se permitem-me o quase cacófato), aliás, baiacu cru não... Fugu, como falam os japoneses (ele/ela aprendeu...). Salmon é os cacete, ainda berrou da primeira vez, o certo é salmão ! E mesmo assim, nunca vi, só ouço falar... Mas comeu. E como... E agora ?


Faxina na Caverna do Platão


Como explicar para todos no cortiço o seu sumiço ? Tinha que voltar, o dinheiro das fotos da revista, digamos, poli-sexual, havia terminado e ninguém mais pagava mich... ops, cachê para que desse entrevistas na tv: a mãe do filho do Miquijegui, nem pensar.... A fama ? Babau. Afinal oitentissinco dias fora um recorde absoluto. Tinha ouvido falar, numa vernissage (até isso, até isso...), num tal de Andiórol (remédio ?) que teria dito que a fama dura quinze minutos apenas. Ual (era assim que escrevia no messenger...) ! Sou quase um sócio do Guiness !


Voltou. E ninguém entendeu nada. Pior ainda: faziam piadinhas sobre bicha pobre e bicha rica, lembrando o Costinha. Gentalha ! Para eles, riqueza era carro mil do ano. Teve que voltar ao tanque, ao varal (em todos os sentidos) e aos prazeres comezinhos com a meninada da favela e a obrigação profissional paga no calçadão. Diziam pelas bandas do Toco Cru Pegando Fogo (nome da sub-vila na qual ficava o cortiço, no meio da grande comunidade) que ela havia se americanizado. Pediam dinheiro emprestado, assediavam, até que um dia... Esqueceram Francyelly Keylla. Escuro. Prisão. Vida porqueira... Nem havia com quem comentar...



Um dia, no calçadão, surge a Nissan. Prateada. Um touro deitado. Buzina, pi-pi. Não se alembra di eu gata ? Era ele. Ele, o jogador. Estou voltando prazeuropa, vou jogar agora no El-Elal dazarábia. Vem comigo ?


Um filósofo passava. Parou. Viu. Ouviu. Cyelly percebeu. O senhor pensa ? Cogito ergo sum. Então fala pro velho Platão que ele é um feladaputa !


Partiu no zepelim prateado.


E que Platão, Maupassant
ou Chico Buarque contem outras...