
o som das horas
entrando pela janela,
ou o perfume
das rosas adormecidas
que exalavam
na madrugada
insone...
Eu tinha certeza
que ouvia você
gritando
meu nome.
O Quintal Literário é um blog de literatura criado por Alexandre Campinas. Grandes nomes e novas penas dividem aqui o espaço para suas literatices. Colaborações para o email quintal_literario@yahoo.com.br No Quintal há arquivos (imagem, som, imagem em movimento e texto) de autorias diversas. Caso sinta-se usurpado(a) em seus direitos intelectuais e/ou autorais, envie um email para que tal arquivo possa ser suprimido.
INSUPORTÁVEL
(Prado Costeiro - Sorry, mister Nuvens)
De nossos chats,
minha mente imprimiu
o melhor de você.
O que não quis,
deletei.
Pura chateação.
Insuportável como o tempo perdido:
a viagem que não existiu
porque não foi registrada.
MARIA DA FÉ
(Lex Campinho - Excusez-moi, monsieur Sebastião)ELA TINHA APENAS A SEDE DO MUNDO,
ELA SÓ TINHA SEDE DE TUDO.
MARIA DA FÉ,
DESCENDO A RUA
DA CIDADEZINHA ONDE NASCEU
NÃO IMAGINAVA,
MARIA DA FÉ,
SERIA ACUSADA PELA MESMA TURMA
QUE A VIU CRESCER,
MAS QUE INJUSTIÇA
LOGO COM A DOCE MOÇA
QUE A TUDO SE DEU.
ENTREGANDO-SE À VIDA
NA LUTA E NO AMOR...
DISSERAM QUE ELA
ERA COMUNA OU ENTÃO MESMO
UMA SOCIALISTA.
TANTA BESTEIRA,
MARIA DA FÉ
NO FUNDO SABIA QUE A IDEOLOGIA
NÃO ERA PRA ELA:
MUNDO CAÍDO,
MUNDO CARTESIANO.
MUITO, DEMAIS
PRA PRENDER OS SENTIDOS
DE UM CÉU TÃO AMPLO...
ELA TINHA APENAS A SEDE DO MUNDO,
ELA SÓ TINHA SEDE DE TUDO.
SEM MAIS ARGUMENTOS
NA FOLHA DA TARDE, MARIA DA FÉ,
PINTADA EM HYPPIE,
ESCANDALIZANDO:
SENHORAS, IGREJAS.
ATÉ O PASTOR, PRIEST MACKENZIE,
SE PERGUNTAVA:
CADÊ SUA MENINA
QUE TANTO SONHAVA ARROZ
JOGADO À SAÍDA ?
MAS UM PRÍNCIPE ENCANTADO
NÃO ERA A SUA VIDA...
ELA TINHA APENAS A SEDE DO MUNDO,
ELA SÓ TINHA SEDE DE TUDO.
MARIA DA FÉ,
DEIXOU O SEU CANTO
ROMPENDO AS VIRGENS FRONTEIRAS,
AINDA REZAVA
PARA QUE O MUNDO
NÃO FOSSE TÃO MAU
COM A MAIORIA DAQUELAS PESSOAS
QUE VÃO SEMPRE À MARGEM,
EXPURGO DA VIDA.
LUTOU A DOCE MARIA,
TÃO CALEJADA DE VIDA
SONHOU DOCE, A MARIA...
NO FIM DA ESTRADA,
VOLTOU AO SEU POVO
TÃO RECONHECIDA, MAS NÃO TINHA FESTA.
APENAS PRIEST MACKENZIE
AGUARDAVA MARIA
SEM NUNCA ENTENDER:
CADÊ SUA MENINA ?
AGORA ERA CARNE, MORTA MARIA,
TODA SOL EM VIDA E ARTE,
SEMENTE DE AMOR.
DEU FÉ DO QUE VIU E OUVIU
ESPALHANDO LUZ E SOM ...
ELA TINHA APENAS A SEDE DO MUNDO,
ELA SÓ TINHA SEDE DE TUDO.
NINGUÉM FOI SALVO.
ANJOS COM SEDE,
ELES VÃO COM MARIA, PARA ONDE É QUE VÃO ?
VÃO CHÃO ADENTRO,
VÃO CÉU AFORA
CANTANDO, LOUVANDO,
AMANTES DANÇANDO EM SUA PROCISSÃO.
DEIXANDO POEIRA
NA BELA, LONGA ESTRADA
PISADA EM FLORES AZUIS.
TODOS OS TONS COMEMORAM
MARIA EM CORES DE LUZ...
ELA TINHA APENAS A SEDE DO MUNDO,
ELA SÓ TINHA SEDE DE TUDO.
À Josana
Ao Infierno do Denner Campolina
“A cerâmica tem aquela cor ferruginosa,
pardacenta... É como se o fogo queimasse a cor
da cerâmica, guardando-a no interior da peça. É
o olhar que deve descobrir e revelar as cores.”
Era repugnante ver todas aquelas partes espalhadas, desordenadamente, sobre o asfalto. Com o mergulho, as leis da física cobraram veredito e, de forma nenhuma o resultado poderia ser contrário. O que se viu foi um espatifamento extraordinariamente vermelho, pintalgado aqui e acolá por tecidos esporadicamente brancos.
O cara tinha miolos...
O impacto fez os órgãos explodirem e projetarem-se para fora daquele sofrido corpo, Cavalo de Tróia de seus sonhos, forçando os tecidos musculares e a pele a romperem-se como aqueles plásticos de bolotinhas de ar, que embalam coisas frágeis e que todos gostam de estourar, como passatempo.
Não fazia mal. A peneira do asfalto reteve o corpo, mas ele penetrou fundo os insondáveis mistérios da terra. Ela o chamou. Ainda ouvia populares questionando se suicídio ou crime terrível, entretanto o alarido foi ficando cada vez mais para trás, junto com o corpo que chegou ao solo de cabeça. A boca apontando para o chão num beijo de dentes pulverizados. Apesar do pouco gozo do mergulho (ele pensara que demoraria bem mais), a libertação de toda aquela carne corrompida foi-lhe extremamente saudável. Qual suicídio nada. Qual crânio rachado os cacetes ! Mergulhou para voltar ao fundo da terra que sempre foi meio invertida dentro da sua liturgia: o alto do céu.
A cabeça já fora rachada muitos anos antes quando ele simplesmente estoporou no fogo do sol na viagem desde a região da seca em que vivia. Rachou. Como pedra atingida por raio. Viveu toda a vida com aquele talho profundo que ocultava sob o chapéu. Ia da fronte à nuca. Só descobria à noite para pegar ar e as cores que ele acumulava em si. As soturnas cores do mundo.
Claro que, por tamanho rombo, muito mais entrava e saía. Durante a noite ele dava a descarga naquela privada de carne que habitava, de forma que, desimpedida a fresta, novamente pudesse entrar a vida por ali. Lá pela madrugada, acordava suavemente e, cheio de idéias, punha seu chapéu, terno preto e camisa de colarinho alto e saía pelas ruas vazias, coloridas de sonhos e plenas de som calado – que ele ouvia – e que antes, durante o dia dos normais eram muito embaçadas e cheias de nada (ele não era normal como todos. Era mais normal. Supranormal). Ele ia assim, pardo e nada, cheio de santos e rezas.
Na primeira mulher, educado e cheio de mesuras, retirava o Fedora curto, de feltro bege como argila. Tarde para ela, que era impiedosamente varada por aquele ímpeto santo, que nascia do baixio dos infernos e apontava o paraíso celestial. Mais uma santa que habitaria seu altar. Penetrava-lhe a carne e fazia gozar a alma na violência cariciosa do emplastramento uterino pelo esperma redentor. Era a demácula original. A mãe do mundo, finalmente purificada, era ungida nos santos óleos da verdade. Todas as cores do mundo, então, assomavam-se àquele novo ser que amanheceria espectral e, para sempre, fingir-se-ia noite durante o dia para viver o dia na noite.
Ao primeiro sol, a mulher, de espírito fertilizado, tinha estuporava a cabeça também. Os olhos passavam a ver o que ele via. Assim o enviado reproduzia-se. Espargia identidades não-hipócritas, repovoando mundo. Os hipócritas emprenhavam papéis higiênicos com todos os espermatozóides do mundo e, matavam, aos poucos, os semelhantes que jamais haveriam de ter a chance de estuporar. As hipócritas, emprenhavam-se de chuveirinhos tépidos, as mais afoitas lavavam seus óvulos como se isso fosse suficiente. Ele sabia que não. Daí a urgência da violência do ato.
Sentia-se, então, um cruzado medievo ou cangaceiro signático ou mouro reagente que moldava carne no barro sob a ordem que se lhe vinha de cima. E de baixo. Carregando estandartes rubros e azuis. Um oleiro que cozinhava as peças no fogo que peca (enchendo-as de vida que só outros estuporados veriam) necessário e urgente. Após, a remissão viria pela visagem da luz exterior ao forno, num resfriamento rápido que dá dureza e firmeza de caráter, em contraposição à maleabilidade social.
As santas que ascendiam (descendo rapidamente terra adentro), antes seduziam e rachavam cabeças masculinas, pois o fulgor da manhã não era suficiente para a estuporação das cabeças desses. Muito duras. À força de machados, os atraídos por seus cantos eram devidamente rachados. Qual cera, nada. Qual mastro, porra nenhuma !
Viveu mendigo e miserável para todos (os que nunca viram sua caixa craniana tão receptiva, emitiva e rachada), porém, sempre cumprindo a determinação do altíssimo e do baixíssimo. Criando deusas e essas criando deuses.
Fervor.
Noite dessas, ouviu sua redenção chamando-o. A missão, finalmente, fora cumprida. Subiu pelas escadas ainda em construção de todos os 148 patamares do espetacular prédio construído pela hipocrisia (os dois últimos que, logicamente, arredondavam a conta, eram de um templo pentecostal e nesses não precisava entrar, pois seguindo a ordem da pontacabeça geral, sabia-os alocados radicalmente no inferno, sem a mínima possibilidade de viver entre os mundos, como ele).
Não tropeçou no céu, como os populares no alvoradíssimo logradouro pensaram, vendo-o flutuar no ar. Qual tropeço. Qual suicídio ! Apenas seguiu a mensagem que cumprimentava pelo desenvolvimento da missão, oferecendo, como prêmio, o céu profundo.
Levou a noite toda subindo, subindo... Do alto da escuridão, clarividente, percebeu o beijo safado abrindo-se para ele. Ascendeu ao chão. Ao alto do fundo do chão. Penetrou aquela terra. Êxtase sacral. Voltará no início dos tempos, quando desencantar.
Purificado e colorido de luzes, sem o corpo de barro.
Canto pra Umes BH
(AC)
Passarinho tem que voar.
Fazer do céu seu mister
do campo geral, sua fé:
taça, ventre e graal.
Passarinho tem que ir e vir,
em cada bico uma notícia
pr'essa terra evoluir:
passarinho não precisa de polícia.
Todo o mundo num graveto,
gravetos, passarinhos...
construindo coletividade sem guetos:
Niños.
Fecundando hoje
os ninhos do amanhã,
d'onde tão sábios vão cantar:
e serão tantos outros niños.
Acalentando o saber
do canto que – hoje meninice –
amanhã, quando o sol nascer:
profissão de embalar sua velhice.
A pedra que vocês jogam, pedra inquieta,
ricocheteia no chão
faz poeira, mas vocês desconhecem o poeta:
vocês - desgraçadamente - passarão.
Passa, passarinho,
Vai, passarinho, e quando voar,
desperta amor, saber e carinho:
assim, de tanto meio-passar,
passe livre !
E que as crianças,
as nossas crianças:
de fora e de dentro de nós,
possam, sempre, e muito
Cantar livres sobre os muros e
ensinar sonhos aos que nunca
puderam amar sem dor.
Xô, ditadura.
Xô para sempre !
I
Executiva elegante, 52 anos, marido cardiologista: ricos amigos, corpos separados. Um tédio. Deixa o escritório para fazer algo diferente.
O motorista, sedução, motel. Ela o come. Pelo room-service pede bicarbonato. Arrôto. Diz: "homens..."
II
Moça no ônibus, incomodada com uma meleca grudada na parte mais funda da narina esquerda. Coça. Ônibus lotado, calor. ”Saco... mais uns 40 minutos, se não engarrafar”. O gordo sentado ao lado a espreme, sufoca.
A mão dele sobre roliças coxas jeans escorregam em direção às dela. O dedo mindinho dele roça de leve, esperando, testando. “Inconveniente, abusado, chato, porre, nojo...” Nojo ? Meleca. Enfia o dedo, tira, vem melada, geléia esticada, comprida. Segura a mão do gordo, aperta, cola. Levanta. Campainha. Desce.
III
Repentino temporal atrapalha a tarde adorável em Paris. Corre para o hotel, chega pingando. Elevador. A ascensorista cutuca a orelha. Repara: unhas francesas.
(Alexandre Campinas)
Queria curtir um chorinho
brasileiro,
cheio de repetição
de clarinete e pistão.
Que não faltasse o pandeiro,
marcação sensacional,
o cavaquinho e violão
do jeito bem tradicional.
Até pensei em ir a Lapa
me encontrar com um velho chapa
e no caminho
alguma coisa aconteceu.
Só percebi quando passei
pelo Noel, no Boulevard
todo enfeitado
e a esquerda eu tomei.
Cai em plena Teodoro
coração de Izabel
e na esquina com a Vianna
o velho chapa encontrei.
Olha aqui Seu Abrahão
este arremedo de canção
me de um jeito por favor
nessa letrinha e no tom.
A bela tarde já é boa
só porque eu te encontrei
e as horas vão passando
tanta memória que nem sei
Até parece um passeio
que no tempo fiz ligeiro
por aqui ou acolá
de bicicleta em Paquetá
Um tira-gosto, bota o sal
olha a cerveja, desce outra
e a conversa já parece,
nessa tarde, uma canção.
Seu Abrahão
se não se importa
não me feche essa porta
e deixe entrar a luz em escarcéu.
Tanta bagunça é o sol
se despedindo
na festa que não termina
com as estrelas lá do céu
Escute aqui velho Abrahão
a conta é minha, nem me fale
leve seu tutú pra noite
que eu levo a recordação.

Crucificado no carnaval
Li no jornal que um jovem foi encontrado morto preso numa cerca de arame farpado na mesma posição que Cristo na cruz.
A polícia não demorou para achar o corpo.
Decidi escapulir da cidade durante o carnaval. Detesto samba. Mesmo adorando as bundas desnudas e oferecidas dessa época, escolhi recolher-me junto à natureza. Quando saia pela estrada sul, notei uma briga no meio do mato, ao lado de um carro parado. Não queria me meter, mas sei do que sou capaz e decidi salvar o alguém que estivesse em perigo.
- Fique aqui no carro, mulher. - Disse à minha companhia. Peguei a pistola debaixo do meu banco e sai cortando o mato.
Ouvi gritos. Um homem mandava outro entrar no porta-malas. Gritava também a um terceiro para que retirasse gasolina do tanque. Eles iriam queimar o prisioneiro.
- Por favor, moço, pode levar o carro. Pode levar minha carteira. Eu não conto nada para ninguém. - Implorava o prisioneiro, um jovem de uns 21 anos. Cabelo bem aparado, roupas sóbrias, na camisa a inscrição "exército de Jesus".
- Calaboca. Você vai morrer! - Virou-se ao comparsa. - Cadê a merda da gasolina?
- Tô puxando, porra! - Ele sugava uma mangueira enfiada no tanque. Engoliu um grande gole e engasgou.
- Entra logo nesse porta-mala. Anda! - O seqüestrador tinha um revólver 32 na mão. Empurrava sua ponta na barriga do prisioneiro.
- Por favor, moço, eu sou crente. Não faço mal a ninguém. Não vou contar nada.
- Claro que vai, filho da puta. Vocês, crentes, são mais safados que qualquer bandido.
- Não, moço, não faça isso.
- Se eu te deixar vivo, você vai me dedar.
- Não, moço, não vou.
- Calaboca! - O seqüestrador deu uma coronhada no crente. Ele se calou mas ainda não queria entrar no porta-malas.
O outro bandido apareceu com um saco plástico cheio de gasolina.
- Por favor, eu faço o que você quiser. Eu chupo seu pau!
- Sai fora, viado. Vai morrer mesmo, ainda mais porque é viado. Crente e viado. - Deu uns tapas no crente.
Não interrompi a luta pois esperava o melhor momento para meu ataque.
- Se não entrar no porta-malas vai levar bala aqui mesmo. - Apontou a arma para o crente. Eu não conseguia ver se o outro bandido também estava armado. Tive que agir senão o crente morreria.
Atirei em cheio no peito do bandido. Ele desmontou feito marionete sem os arames. O crente gritou de medo. O outro bandido me viu saindo do mato.
- Se quer viver, fique parado. - Eu disse ao bandido.
O crente pegou a arma do morto e a apontou para o outro bandido.
- Larga essa merda. - Falei. - Você não sabe mexer com isso.
- Eles iam me matar.
- Larga logo isso. - Gritei.
- Não. Eu vou matar esse cara!
Se o crente atirasse seria assassinato pois o bandido já estava dominado. Matei o outro para salvar a vida do crente, num momento decisivo.
- Solta essa arma! Você não pode fazer isso! - Gritei.
O crente, com olhos alucinados, apontou a arma para mim. Empurrei o revólver e levantei a ponta. O tiro foi para cima. O cano queimou minha mão.
- Seu merda idiota... - O outro bandido puxou um revólver de baixo da camisa e me apontou. Fuzilei-o com um tiro na testa.
O 32 soltou-se da minha mão e o crente olhou o novo morto.
- Você matou os dois. - Disse-me.
- Larga essa arma, cara. Você não tá bem.
- Você matou os dois. - Repetiu. - Você cometeu um pecado.
- Foi para te salvar. Larga a arma!
- Você cometeu um pecado. Você vai pro inferno!
Nem argumentei mais ao ver a loucura em seus olhos. O crente apontou novamente a arma para mim. Eu podia desarmá-lo num instante, mas resolvi dar a ele a mesma chance que ele próprio deu ao segundo bandido. Acertei o tiro em seu coração.
Busquei meu carro na estrada. Recolhi as armas e os corpos dos bandidos. Eu os desovaria em algum lugar distante dali. Peguei o corpo do crente e conferi meu disparo. A bala o havia atravessado. Sem preocupações com balística. Arrumei tudo ao redor e fui embora.
- Por que você colocou o crente de braços abertos e pernas juntas na cerca de arame farpado? - Quis saber minha companhia.
- Para ficar igual a Cristo na cruz. - Ela me olhou inquisitiva. - Ele era crente, não era? Deve ter gostado. Quem sabe assim não tem alguma redenção lá onde estiver.

(Alexandre Campinas)
Vi um um lugar. Espécie de ponto não-ser, tal a projeção dos sonhos, bondades e sutilezas, que nos orbita a todos. É o espaço das boas maneiras, geografia abstrata do que há de verdadeiramente humano em nós, despido das vaidades e orgulhos que impedem o canto.
Trinado mais, trinado menos, às vezes, em flashes milimesimais, logramos uma breve visita a esse sacro que habita em nós. É o instante da poesia. Inebriante reencontro com o adolescente pleno de deliciosas incertezas lacunares cimentadas pelo sonho e pela esperança.
No raro momento, trinado mais, trinado menos, torna-se irresistível o compartilhar de nossos locus. É quando desejamos que o mundo saiba que nada é absoluto e que o impossível pode ser a via menos acidentada. O canário socrático do Machado sabia.
Trinado mais, trinado menos, o canário Orlando do Quintino também segue questionando os nossos níveis de disponibilidade fraternal e generosidade. O Profeta Gentileza era um canário. Os pais do filhote que a Aninha achou – shhhh, Fernando, eles ainda não sabem – são canários. Chaplin, Oscarito... Tá lá, pode ter certeza. E o Rosa, o Braga, CDA, Vinícius, Quintana, Bandeira, Bilac, Coralina ? Canários-realíssimos. I-n-d-i-s-c-u-t-í-v-e-l, como tantos outros que esculpem eternidades no instante. Borges e seu Aleph sabiam. Canário !
É só fechar os olhos, sintonizar o coração, permitir-se, crer para – trinado mais, trinado menos – perceber que o mundo é dos que cantam: a vida. Talvez você, Fernando, não tenha posto intenção (mentira, diria vovó, canária como ela só, o traquinas fez de propósito...), mas foi fundo no destaque dado a uma máxima do Quintino (só ele mesmo para contrariar o ditado popular):
- Os bicudos se beijam.
Os bicudos se beijam, Fernando. Então que jamais se turbe o vosso coraçãozinho: os Orlandos sempre serão eternos.
Eu ? Passarinho ! Um tanto rejeitado, mas passarinho. Um pouco sem rumo, passarinho. Algo à esquerda na vida, passarinho. Incompreendido comme d'habitude ? Passarinho. Passarinho. Passar-inho, passar pequenininho. Passar, indo.
Passar rindo.
Eu queria era ver agoooora ! Francyelly Keylla estava voltando. Foram quase três meses de sucesso absoluto como mulher-umbu, uma natural referência às predileções sexuais do rapaz, que chamava-se Haroldo José, de acordo com seu registro natural. Foram quase três meses, como ia dizendo. Para ser mais exato, 85 dias. Um período de festa total desde que foi flagrado com um famoso jogador de futebol, em um badalado motel da zona sul. Fotos, flashes, entrevistas em programas vespertinos. Até assessoria de imprensa ele contratou.
No decorrer desse período, Francyelly/Haroldo conheceu a luz. Não imaginava – jamais pensaria – ser possível que algumas pessoas pudessem viver assim. Aquilo nunca foi luz. Holofote sim, seria a palavra adequada (valei-me São Platão, Ave Beato Saramago, Salvai-me Dom Neo, Socorro, Baudrillard !). Champanhe ? Muita. Como água de torneira. Caviar ? Fedido, porém elegante, apesar do gosto de baiacu cru (se permitem-me o quase cacófato), aliás, baiacu cru não... Fugu, como falam os japoneses (ele/ela aprendeu...). Salmon é os cacete, ainda berrou da primeira vez, o certo é salmão ! E mesmo assim, nunca vi, só ouço falar... Mas comeu. E como... E agora ?
Faxina na Caverna do Platão
Como explicar para todos no cortiço o seu sumiço ? Tinha que voltar, o dinheiro das fotos da revista, digamos, poli-sexual, havia terminado e ninguém mais pagava mich... ops, cachê para que desse entrevistas na tv: a mãe do filho do Miquijegui, nem pensar.... A fama ? Babau. Afinal oitentissinco dias fora um recorde absoluto. Tinha ouvido falar, numa vernissage (até isso, até isso...), num tal de Andiórol (remédio ?) que teria dito que a fama dura quinze minutos apenas. Ual (era assim que escrevia no messenger...) ! Sou quase um sócio do Guiness !
Voltou. E ninguém entendeu nada. Pior ainda: faziam piadinhas sobre bicha pobre e bicha rica, lembrando o Costinha. Gentalha ! Para eles, riqueza era carro mil do ano. Teve que voltar ao tanque, ao varal (em todos os sentidos) e aos prazeres comezinhos com a meninada da favela e a obrigação profissional paga no calçadão. Diziam pelas bandas do Toco Cru Pegando Fogo (nome da sub-vila na qual ficava o cortiço, no meio da grande comunidade) que ela havia se americanizado. Pediam dinheiro emprestado, assediavam, até que um dia... Esqueceram Francyelly Keylla. Escuro. Prisão. Vida porqueira... Nem havia com quem comentar...
Um dia, no calçadão, surge a Nissan. Prateada. Um touro deitado. Buzina, pi-pi. Não se alembra di eu gata ? Era ele. Ele, o jogador. Estou voltando prazeuropa, vou jogar agora no El-Elal dazarábia. Vem comigo ?
Um filósofo passava. Parou. Viu. Ouviu. Cyelly percebeu. O senhor pensa ? Cogito ergo sum. Então fala pro velho Platão que ele é um feladaputa !
Partiu no zepelim prateado.
E que Platão, Maupassant
ou Chico Buarque contem outras...