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09 fevereiro 2007

Mulheres
(Jacqueline Caixeta)

Mulheres de tantas lutas e labutas
de tantas dores e amores
de dias e noites em claro
à espera do amado


Mulheres quentes e ardentes
que dançam e bailam ao luar
que cantam o amor adolescente
e adoram se desnudar


Ser mulher é muito fácil
difícil é saber
entre tantas mulheres que somos
qual mais amamos ou odiamos


Difícil é descobrir qual delas deverá
brilhar ou se ocultar
quando seus olhos se encontram
ao brilho de um outro olhar


Nada fácil saber
qual delas ser
quando tudo que o amado quer
é ter só alguém para ficar
e de amor jamais falar


Quero que todas as mulheres
que guardam tantas mulheres
possam encontrar felicidade
vivendo todas elas
além dos seus medos e segredos.
ousando realizar seus desejos

06 fevereiro 2007


Quase ela deu o sim; mas...
(Lima Barreto)


JOÃO CAZU era um moço suburbano, forte e saudável, mas pouco ativo e amigo do trabalho.

Vivia em casa dos tios, numa estação de subúrbios, onde tinha moradia, comida, roupa, calçado e algum dinheiro que a sua bondosa tia e madrinha lhe dava para os cigarros.

Ele, porém, não os comprava; "filava-os" dos outros. "Refundia" os níqueis que lhe dava a tia, para flores a dar às namoradas e comprar bilhetes de tômbolas, nos vários "mafuás", mais ou menos eclesiásticos, que há por aquelas redondezas.

O conhecimento do seu hábito de "filar" cigarros aos camaradas e amigos, estava tão espalhado que, mal um deles o via, logo tirava da algibeira um cigarro; e, antes de saudá-lo, dizia:

-Toma lá o cigarro, Cazu.

Vivia assim muito bem, sem ambições nem tenções. A maior parte do dia, especialmente a tarde, empregava ele, com outros companheiros, em dar loucos pontapés, numa bola, tendo por arena um terreno baldio das vizinhanças da residência dele ou melhor: dos seus tios e padrinhos.

Contudo, ainda não estava satisfeito. Restava-lhe a grave preocupação de encontrar quem lhe lavasse e engomasse a roupa, remendasse as calças e outras peças do vestuário, cerzisse as meias, etc., etc.

Em resumo: ele queria uma mulher, uma esposa, adaptável ao seu jeito descansado.

Tinha visto falar em sujeitos que se casam com moças ricas e não precisam trabalhar; em outros que esposam professoras e adquirem a meritória profissão de "maridos da professora"; ele, porém, não aspirava a tanto.

Apesar disso, não desanimou de descobrir uma mulher que lhe servis convenientemente.

Continuou a jogar displicentemente, o seu football vagabundo e a viver cheio de segurança e abundância com os seus tios e padrinhos.

Certo dia, passando pela porteira da casa de uma sua vizinha mais ou menos conhecida, ela lhe pediu:

- "Seu" Cazu, o senhor vai até à estação?

- Vou, Dona Ermelinda.

- Podia me fazer um favor?

- Pois não.

- É ver se o "Seu" Gustavo da padaria "Rosa de Ouro", me pode ceder duas estampilhas de seiscentos réis. Tenho que fazer um requerimento ao Tesouro, sobre coisas do meu montepio, com urgência, precisava muito.

- Não há dúvida, minha senhora.

Cazu, dizendo isto, pensava de si para si: ,'É um bom partido. Tem montepio, é viúva; o diabo são os filhos!" Dona Ermelinda, à vista da resposta dele, disse:

- Está aqui o dinheiro.

Conquanto dissesse várias vezes que não precisava daquilo - o dinheiro - o impenitente jogador de football e feliz hóspede dos tios, foi embolsando os nicolaus, por causa das dúvidas.

Fez o que tinha a fazer na estação, adquiriu as estampilhas e voltou para entregá-las à viúva.

De fato, Dona Ermelinda era viúva de um contínuo ou cousa parecida de uma repartição pública. Viúva e com pouco mais de trinta anos, nada se falava da sua reputação.

Tinha uma filha e um filho que educava com grande desvelo e muito sacrifício.

Era proprietária do pequeno chalet onde morava, em cujo quintal havia laranjeiras e algumas outras árvores frutíferas.

Fora o seu falecido marido que o adquirira com o produto de uma "sorte" na loteria; e, se ela, com a morte do esposo, o salvara das garras de escrivães, escreventes, meirinhos, solicitadores e advogados "mambembes", devia-o à precaução do marido que comprara a casa, em nome dela.

Assim mesmo, tinha sido preciso a intervenção do seu compadre, o Capitão Hermenegildo, a fim de remover os obstáculos que certos " águias" começavam a pôr, para impedir que ela entrasse em plena posse do imóvel e abocanhar-lhe afinal o seu chalézito humilde.

De volta, Cazu bateu à porta da viúva que trabalhava no interior, com cujo rendimento ela conseguia aumentar de muito o módico, senão irrisório montepio, de modo a conseguir fazer face às despesas mensais com ela e os filhos.

Percebendo a pobre viúva que era o Cazu, sem se levantar da máquina, gritou:

- Entre, "Seu" Cazu.

Estava só, os filhos ainda não tinham vindo do colégio. Cazu entrou.

Após entregar as estampilhas, quis o rapaz retirar-se; mas foi obstado por Ermelinda nestes termos:

- Espere um pouco, "Seu" Cazu. Vamos tomar café.

Ele aceitou e, embora, ambos se serviram da infusão da "preciosa rubiácea" , como se diz no estilo "valorização".

A viúva, tomando café, acompanhado com pão e manteiga, pôs-se a olhar o companheiro com certo interesse. Ele notou e fez-se amável e galante, demorando em esvaziar a xícara. A viuvinha sorria interiormente de contentamento. Cazu pensou com os seus botões: "Está aí um bom partido: casa própria, montepio, renda das costuras; e além de tudo, há de lavar-me e consertar a roupa. Se calhou, fico livre das censuras da tia..."

Essa vaga tenção ganhou mais corpo, quando a viúva, olhando-lhe a camisa, perguntou:

- "Seu " Cazu, se eu lhe disser uma cousa, o senhor fica zangado?

- Ora, qual, Dona Ermelinda?

- Bem. A sua camisa está rasgada no peito. O senhor traz " ela" amanhã, que eu conserto "ela".

Cazu respondeu que era preciso lavá-la primeiro; mas a viúva prontificou-se em fazer isso também. O player dos pontapés, fingindo relutância no começo, aceitou afinal; e doido por isso estava ele, pois era uma " entrada" , para obter uma lavadeira em condições favoráveis.

Dito e feito: daí em diante, com jeito e manha, ele conseguiu que a viúva se fizesse a sua lavadeira bem em conta.

Cazu, após tal conquista, redobrou de atividade no football, abandonou os biscates e não dava um passo, para obter emprego. Que é que ele queria mais? Tinha tudo...

Na redondeza, passavam como noivos; mas não eram, nem mesmo namorados declarados.

Havia entre ambos, unicamente um " namoro de caboclo", com o que Cazu ganhou uma lavadeira, sem nenhuma exigência monetária e cultivava-o carinhosamente.

Um belo dia, após ano e pouco de tal namoro, houve um casamento na casa dos tios do diligente jogador de football. Ele, à vista da cerimônia e da festa, pensou: "Porque também eu não me caso? Porque eu não peço Ermelinda em casamento? Ela aceita, por certo; e eu..."

Matutou domingo, pois o casamento tinha sido no sábado; refletiu segunda e, na terça, cheio de coragem, chegou-se à Ermelinda e pediu-a em casamento.

- É grave isto, Cazu. Olhe que sou viúva e com dois filhos!

- Tratava " eles" bem; eu juro!

- Está bem. Sexta-feira, você vem cedo, para almoçar comigo e eu dou a resposta.

Assim foi feito. Cazu chegou cedo e os dous estiveram a conversar. ela, com toda a naturalidade, e ele, cheio de ansiedade e, apreensivo.

Num dado momento, Ermelinda foi até à gaveta de um móvel e tirou de lá um papel.

- Cazu - disse ela, tendo o papel na mão - você vai à venda e à quitanda e compra o que está aqui nesta "nota". É para o almoço.

Cazu agarrou trêmulo o papelucho e pôs-se a ler o seguinte:

1 quilo de feijão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 600 rs.
1/2 de farinha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
1/2 de bacalhau . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 1.200 rs.
1/2 de batatas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 360 rs.
Cebolas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .200 rs.
Alhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
Azeite . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 300 rs.
Sal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
Vinagre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3.260 rs.

Quitanda:

Carvão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 280 rs.
Couve . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
Salsa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
Cebolinha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
tudo: . . . . . . . . . . . 3.860 rs.

Acabada a leitura, Cazu não se levantou logo da cadeira; e, com a lista na mão, a olhar de um lado a outro, parecia atordoado, estuporado.

- Anda Cazu, fez a viúva. Assim, demorando, o almoço fica tarde...

- É que...

- Que há ?

- Não tenho dinheiro.

Mas você não quer casar comigo? É mostrar atividade meu filho! Dê os seus passos... Vá! Um chefe de família não se atrapalha... É agir !

João Cazu, tendo a lista de gêneros na mão, ergueu-se da cadeira, saiu e não mais voltou...
João do Rio, pelo cartunista J. Carlos

O homem da cabeça de papelão

(João do Rio)



No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.

O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!

Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.

Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.

Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.

Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.

Ingredients:
— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.

— Mas não quero ser nada disso.

— Então quer ser vagabundo?

— Quero trabalhar.

— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.

— Eu não acho.

— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.

Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!

Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:

— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...

O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:

— A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.

— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?

Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.

No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.

Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.

— É doido, mas bom.

Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.

— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...

— É da tua má cabeça, meu filho.

— Qual?

— A tua cabeça não regula.

— Quem sabe?

Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.

— Só caso se o senhor tomar juízo.

— Mas que chama você juízo?

— Ser como os mais.

— Então você gosta de mim?

— E por isso é que só caso depois.

Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.

Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.

— Traz algum relógio?

— Trago a minha cabeça.

— Ah! Desarranjada?

— Dizem-no, pelo menos.

— Em todo o caso, há tempo?

— Desde que nasci.

— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...

Antenor atalhou:

— E o senhor fica com a minha cabeça?

— Se a deixar.

— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...

— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.

— Regula?

— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.

Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.

Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.

Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.

— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!

Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.

— Há tempos deixei aqui uma cabeça.

— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.

— Ah! fez Antenor.

— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...

— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.

— Mas a minha cabeça?

— Vou buscá-la.

Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.

— Consertou-a?

— Não.

— Então, desarranjo grande?

O homem recuou.

— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.

Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.

— Faça o obséquio de embrulhá-la.

— Não a coloca?

— Não.

— V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.

Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.

— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.

— Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.

Antenor ficou seco.

— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.

E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.

03 fevereiro 2007


Ilha
(Alexandre Campinas)


“O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira”
(Ezra Pound)


Cartinha pros eternos ilhéus:
É o que se repete amiúde: Nenhum homem é uma ilha. Eu, contrariando o velho axioma, digo que sou. Sempre fui Ilha. Pertenço à Ilha, que é gênese. Segundos antes da criação de céus e terra: a Ilha.


Atrevo-me, mesmo, a desdizer “As Origens” e gritar que Não ! Não havia terra informe e vazia sob as trevas. Havia a Ilha – e eu nela. Daí vieram o Fiat Lux, o firmamento entre as águas, o elemento árido, as plantas (todas as da Ilha: de jaca, de fruta-pão, de tamarindo, de amêndoa e de muitas, muitas mangas).


Da Ilha nasceram os luzeiros: o sol abrasador - que torna as águas tépidas -, as infinitas estrelas (e, talvez, os aviões rumo ao pouso noturno) e uma lua incomensurável, amarelo-avermelhada, indescritível para quem nunca viu. E quando o Criador, no quinto dia, lembrou-se de seres marinhos que pululassem as águas, é certo que pensava em siris graúdos e azuis, camarões habitantes das algas que se misturam nas espumas das marolas, mexilhões, cocorocas ronronantes e carapicús prateados, entretanto a Escritura menciona também os monstros marinhos, a saber (quem pesca, entende): bagres traiçoeiros de perversos aguilhões, peixes-voadores, ouriços, baiacús e marias-da-toca.


Também criou pássaros, como os bem-te-vis, gaivotas, fragatas. Canoros ou não, todos adoráveis. O Texto esquece-se, porém, de outra espécie voadora. A cigarra deve ter sido dada à luz também no quinto dia, pois está lá, na Ilha, para quem sempre espera um dia seguinte de pleno sol. Depois veio toda sorte de animal. Cachorros às pencas, cavalos e suas charretes, gatos indolentes e uma infinidade de morcegos.


Por fim, no sexto dia, viemos. Animais outros, à imagem e semelhança do Divino. Criados a fim de reinar sobre tudo, e, para Divino desencargo, arrojar corpos nas areias noturnas da praia da Imbuca e multiplicar (ou não), fornicando até as primeiras luzes da aurora, exalando contagiantes odores acres, ralando joelhos. Aliás, sobre os joelhos, paira-me um quê de dúvida sobre a justiça do descanso do sétimo dia. Mas, tudo bem, depois o homem inventou o mercurocromo.


Agarro-me a esse universo mitológico, tão próprio, no momento em que soa a sirene da estação anunciando o fechamento dos portões e a barca range, lotada, contra o cais flutuante, soando três apitos. Sentado na boca aberta da proa, olhos marejados, ouço o ronco cansado da casa de máquinas. Sinto-o vibrando como vibra em mim a saudade antecipada de quem veio passar apenas um dia na Ilha, depois de tantos verões e férias inteiras que pareciam eternas enquanto duravam (perdoe, poeta, não resisti). Afastam-se o cais, a igreja, a orla já acesa, o cheiro dos quitutes da baiana.


Atualmente é assim. Venho, deixo o dia e levo os sonhos. As horas fluem pelas pedaladas da bicicleta alugada. Desejo de rever tudo, onipresente, circulando sobre, dentro, através de mim mesmo, também eu feito daquele saibro das ruas da Ilha. É fome extraordinária que domina. Praia da Guarda, Lido, Ponte dos Suspiros, praia da Moreninha e lágrimas índias, ilha de Brocoió, mercadinho, Tomaz Cerqueira e seu castelinho, que nunca saiu da memória. Campo. São Roque, praia dos Coqueiros dos primeiros poemas noturnos, Praia do Boqueirão. Sigo, contorno, desço, peço benção à Maria-gorda, escrava plantada em sofrimento. A cãibra repuxa, não ligo.


Caramanchão, charretes, Hotel Flamboyant (como chamá-lo de outra forma?). Casa da Moreninha, Iate Clube de mergulhos inesquecíveis. Depois do Porto dos Cachorros, sento no banquinho de pedra e olho a vizinha ilha dos Lobos. Circula na família a história de que meu avô quase a comprou um dia (e nós sempre sonhamos com isso). Subo pela rua da delegacia até o cemitério. De gentes e passarinhos. Ali aprendi que ler sob as sombras das árvores, recostado em algum túmulo era uma forma de mergulhar em mim mesmo, vinculando-me radicalmente ao universal, no paradoxo mais delicioso que existe. Ou então, menos cultural (diriam), mas não menos gozoso, esperar escondido naquele lugar, disfarçado de alma-penada, pelo fim dos bailes de carnaval e a passagem dos foliões que ao ver tal assombro, esqueciam o estado estafante - overdose de marchas-rancho - em que se encontravam, para disparar de medo e susto.
Agora é descida até a praia. Os pés espantam peixinhos miúdos e rebatizo corpo e alma nas águas da Ilha. Mais pedal, tempo de retorno, já são horas. Rememoro o dia que passou e dispo-me do adolescente (nunca o faço verdadeiramente; finjo).


Dói o revés das máquinas que tramam o rodopio que levará ao caminho único da Praça Quinze. Na volta que dá sobre si mesma, a barca exibe a Serra dos Órgãos, Dedo de Deus, Verruga do Padre. Corro à popa. Uma lágrima contribui com o mar salgado do Pessoa que invade essa baía. A água, ao largo, tem a cor da garapa; junto à espuma dos motores, mate espumante. Bebo disso tudo. Revigoro-me pensando que nada é para sempre e, por um momento, volto a ser a criança que, na despedida, já esperava as férias seguintes. Nunca houve adeus; um eterno até breve.


A barca contorna a Ilha. O cais da Mesbla... Dali não se podia mergulhar para fora. Rezava a lenda que além do deck existiam fogões jogados no mar e outros lixos e, ademais, monstros marinhos. Respeitosos ao dogma, mergulhávamos para dentro, em direção a praia, na enorme piscina formada pelo quebra-mar. Passo pela Praça do Lixo lamentando tudo o que não revi dessa vez e então, botos debochados corcoveiam, despedindo-se das caras tristes que se vão para a Babilônia como degredados do paraíso. Mais água, muito mais saudade. O pescoço vira-se, entorta para ver a ponta do Parque. Do outro lado a Pedra do Raio, a ilha da Luz del Fuego, Ponte Rio-Niterói. Um avião de rabo laranja traz o presente (antes os rabos eram apenas azuis). A Ilha fica para trás, estando sempre dentro.


Ilha, querida, não lhe pronuncio o nome. De tão infinita, é entidade maior que nos absorve a todos. Maior do que sou, maior do que vô e vó que originaram a paixão, do que primos e primas, irmão, mãe, tio e tia que lhe vivemos.


Volto no ano que vem.


Prometo.

10 novembro 2006

O mijador noturno e as velhas do condomínio

(Mão Branca)

Ele morava sozinho, trabalhava até tarde e quando voltava para casa gostava de beber uma ou duas doses de cachaça, coisa fina, de Salinas, antes de dormir. Chapava o sono dos justos até as duas da manhã, quando, incondicionalmente, levantava noctâmbulo para fazer xixi.

Colocava o bingulim para fora e jorrava a cachoeira. Chhhh. A média era de quarenta e sete segundo. Quanto mais bebia, mais mijava.

Numa reunião do condomínio, as velhas do edifício se revoltaram.

- Não é possível. – Gritou dona Jô. – Precisamos punir esse miserável. Toda noite acordo com o barulho daquele homem horroroso urinando como um cavalo.

- É isso mesmo. – Concordaram outras sete senhoras. De onde surgiu tanta velha?

- Devemos impor a lei do silêncio noturno, - Dona Jô, a líder - proibindo urinadas barulhentas.

- E os peidinhos também. – Completou dona Tereza, que chegara agora e já tomava parte. As outras senhoras a olharam envergonhadas. – Ele solta uns peidinhos apertados durante o xixi. Prá, parará.

- Certo. – Contornou dona Jô. – A lei do silêncio abrange flatos repetidos.

- E peidinhos. – Lembrou dona Tereza.

- E peidinhos. – Assentiu a líder. – Vamos votar?

O homem leu no elevador a Ata: “Por sugestão das comissão das senhoras do Condomínio, foi votado e acordado que, após as dez horas da noite, toda urinada masculina deverá ser realizada sem barulho. As senhoras sugeriram que os homens, principalmente o do apartamento 505 – ele próprio – façam suas necessidades sentados no vaso sanitário” . Quase caiu para trás de susto e, recuperado, apoiou-se para rir do absurdo daquela convenção.

Bebeu o de sempre e foi dormir, mas preocupado em não fazer barulho quando acordasse para urinar. Sempre tivera esse hábito, levantava da cama e procurava o vaso sanitário de olhos fechados para soltar a urina. A única coisa que fazia conscientemente era tentar manter o jato no meio da água para ter certeza que não estava errando o alvo. Daí vinha o barulho.

Agora, as senhoras do condomínio queriam que ele parasse de mijar em pé para resignar-se sentado como uma dama. Jamais. Só mijava sentado quando evacuava.

Às duas, levantou-se, foi ao banheiro, soltou o xixi e respirou fundo, aliviado. Só então se lembrou das velhinhas do condomínio. Ela deviam estar com os ouvidos colados aos vitrôs de seus banheiros para ver se a ordem seria obedecida. Achou engraçado e soltou uma leve risada.

No dia seguinte, logo cedo, dona Tereza aprontou o maior escarcéu na casa do síndico.

- Ele riu. Gargalhou. – Falou exaltada. – O mijador está caçoando de nós.

- Isso mesmo. – Dona Jô foi a segunda a aparecer. – Está nos achincalhando.

Antes que as outras sete senhoras aparecessem, o síndico resolveu conversar com o morador do 505. Foi ao seu apartamento e relatou a situação.

- Desculpe-me, – Explicou o homem. – mas não consigo controlar. Quando vejo, já estou mijando.

- Então mije sentado! – Pediu o síndico.

- Mije você, oras. – Respondeu de bate-pronto. Fechou a porta, ofendido.

De noite, bebeu mais que o costume pois ficou chateado com a história. Que audácia! Com que autoridade queriam definir sua maneira de mijar? Enquanto remoia sua irritação, mandava a cachaça para dentro.

Acordou, como de costume, às duas. Foi trôpego para a privada mas não mijou, vomitou até as tripas. Arrotos entrecortavam o fluxo de bebida mal-digerida que escorria da garganta. Gemeu como um bebê durante o processo e acabou abraçado à privada até de manhã.

A campainha tocou. Arrastou-se até a porta. Ele sabia que era alguma das velhas, aquelas bruxas. A dor de cabeça da ressaca parecia rachar seu crânio. O sala girava enquanto ele tentava destrancar a porta. Pelo mal-estar que sentia, tinha certeza que não agüentaria mais desaforos e mandaria todos para os quintos dos infernos.

Era a dona Tereza. Com olhar de reprovação, trazia às mãos uma xícara coberta por um lenço.

- Veja você, em que estado se encontra. – Entrou pelo apartamento empurrando o combalido homem ao sofá. – Descanse. Beba isso. – Destampou a xícara. – É chá de boldo.

O homem bebeu um gole. Não entendia bem o que acontecia, mas sentiu-se melhor com o líquido quente.

- Está com dor de cabeça? – Perguntou dona Tereza, voltando da cozinha com um grande copo de água e uma novalgina. – Engula, encoste a cabeça e durma um pouco. – Antes de sair olhou para trás para conferir se tudo estava bem. – A ressaca vai passar.

O homem tirou uma soneca. Acordou com dona Jô o observando.

- Finalmente. – Sumiu pela cozinha e voltou com pães fumegantes numa cesta. – Coma o miolo, para limpar o estômago.

Naquela noite o homem não bebeu mas acordou às duas horas como de hábito. Foi ao banheiro, sonâmbulo. Puxou o pênis para fora e, de súbito, acordou por completo. Sentou-se no vaso sanitário e fez o serviço. Apagou a luz e voltou para a cama, sentindo-se muito bem.

- Boa noite. – Ele sonhou que ouviu saindo do vitrô de seu banheiro antes de dormir

27 outubro 2006



Há tantas coisas germinando na noite, que nem sei como enumerá-las. À noite nascem as revoluções tanto as que vão triunfar como as que só se realizam em pensamento, e são quase todas. Os revolucionários viram-se, inquietos, na cama. E também os que se converterão, pela manhã, a religiões novas. E os amorosos. Análises emocionais levadas ao extremo da tortura arrastam-se pela horas lentas da noite. Como a noite é rica! A noite é o tempo de não dormir; é o de velar e procurar; de criar mundos.

Demétrio quis prolongar a noite obturando todas as frestas do quarto, para que não entrasse a luz. Luz não entrou. Demétrio gozou da noite plena, continuada, e todos os pensamentos lhe floresciam. Construiu sistemas filosóficos. A escuridão era propícia a teorias políticas. Nenhum crítico foi mais perspicaz do que Demétrio, na literatura e nas artes. Aquela noite era fantástica. Demétrio quis experimentar as sensações de horror, êxtase, humilhação, glória, poder e morte. Morreu, mesmo no escuro. Tendo sentido a morte em seu interior físico, não pôde mais tirá-la de si. É o único morto, conscientemente morto, de que já ouvi falar nesta vida. A noite é fantástica.

Contos Plausíveis, in Andrade, C. D. (1992): Poesia e Prosa, Rio de Janeiro: Aguilar, pg. 1240.

Diálogo Filosófico (Carlos Drummond de Andrade)

  • As coisas não são o que são, mas também não são o que não são - disse o professor suíço ao estudante brasileiro.
  • Então, que são as coisas? - inquiriu o estudante.
  • As coisas simplesmente não.
  • Sem verbo?
  • Claro que sem verbo. O verbo não é coisa.
  • E que quer dizer coisas não?
  • Quer dizer o não das coisas, se você for suficientemente atilado para percebê-lo.
  • Então as coisas não têm um sim?
  • O sim das coisas é o não. E o não é sem coisa. Portanto, coisa e não são a mesma coisa, ou o mesmo não.

O professor tirou do bolso uma não-barra de chocolate e comeu um pedacinho, sem oferecer outro ao aluno, porque o chocolate era não.

Contos Plausíveis, in Andrade, C. D. (1992): Poesia e Prosa, Rio de Janeiro: Aguilar, pg. 1261.




23 outubro 2006


Quando a literatura veste e dá contornos à filosofia. Entendeu, Señor Cornijo ?

UM APÓLOGO
(Machado de Assis)


ERA UMA VEZ uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a
agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

01 outubro 2006


SURDO MUDO
(Edwood Lautrec)

Muda nada, gira o mundo
Some o raso e vem o fundo
Muda o mundo, Cala o mudo
Fala nada , Falta tudo
Tudo nada, Mundo mudo
Falta fala, Surdo e mudo
Ouve nada, Mundo surdo
Fala tudo, Nada ouve
Surdo tudo, Mudo surdo
Vejo tudo, Cego nada
Vejo mundo, Nada muda
Calado não ouço, Vejo e não faço
Eixo quieto, para tudo, Mundo cego
Surdo e mudo.

09 setembro 2006

08 setembro 2006


QUALQUER UM
(Mão Branca)

- Não mato qualquer um. – Falei antes de qualquer coisa. O homem do outro lado da linha calou-se para me ouvir. – Preste atenção: só vou explicar uma vez! – Fiz uma pausa. – Você me dá todas as informações sobre o caso. Quero nomes, endereços e fatos. Vou investigar. Se o canalha que você quer morto realmente merecer morrer, eu me livro dele. Se não merecer, mato você por ser um filho da puta querendo matar gente inocente. Fui claro?
- Sim. – Sua voz era firme, bom indício.
- O pagamento será em dinheiro.
- Metade depois do serviço? - Perguntou o homem.
- E se eu resolver te matar, como vai me pagar?
Ele titubeou, finalmente.
- Certo. À vista.
- Conte-me tudo. – Pedi.
Disse chamar-se Alexandre Marques. Era engenheiro, dono de construtora, com um sócio que estava comendo sua mulher. Até então, nada de mais, só não é corno quem não sabe, eu jamais finalizaria alguém por traição. O problema era que os dois tramavam acabar com ele para ficarem com todo o empreendimento.
- A empresa é grande? – Quis saber o nível do meu contratante.
Falou-me o capital social. Milionário. Eram gentes de posse. Melhor assim, de pé-rapado eu tava de saco cheio.
Contou que descobriu a mulher e o amante contratando um assassino de aluguel para matá-lo, por isso resolveu me contratar para matá-los antes.
- Não sou um assassino de aluguel. – Retruquei. – Sou uma espécie de justiceiro. – Quase ri de mim mesmo, justiceiro? Que nada, eu matava por prazer mesmo, adorava ver os olhos da vítima tornarem-se turvos, a pupila dilatando sem sensibilidade à luz, a energia da vida fluindo livre do corpo maléfico e devasso.
- O assassino – Mudou o assunto – já deve estar atrás de mim.
Outro matador? Isso era perigoso. Qualquer cara com uma arma é um adversário a ser considerado. Pegar canalhas sexuais ou bandidos fuleiros era fácil, quase sempre estavam desarmados e morriam de medo dos meus trabucos, mas assassinos de aluguel eram normalmente ferozes e disciplinados, atacando de tocaia, sem misericórdia. Igual eu fazia.
- Como descobriu?
- Interceptei um telefonema ao matador. Meu sócio contava minha rotina.
Resolvi aceitar o caso.
- Esteja com meu pagamento na sexta-feira numa sacola plástica de supermercado ao lado do Pão de Açúcar do Lago Norte. – Expliquei uns detalhes e a hora e anunciei o montante. Ele nem se espantou, era rico. Eu havia multiplicado por quatro meu cachê. – Até lá seguirei as vítimas. Dê-me os endereços e horários.
Anotei e sai à caça. Morava o sócio no Lago Sul e meu contratante com a mulher no Park-Way, numa mansão de encher os olhos. Toquei a campainha e conversei com a empregada, uma mulatinha deliciosa.
- A patroa taí?
- Saiu com o doutor. – Brejeira, rebolava ao falar.
- E você, que horas sai? – Fiz meu olhar Dom Juan. Ela sorriu e respondeu. Zanzei pela vizinhança esperando o fim do expediente da empregada. Fumei um delicioso baseado pernambucano, bem verdinho, deixou-me bastante louco. Peguei a mulata em frente à mansão e demos um passeio. Em dois dias eu já era seu amante e sabia de tudo o que acontecia na casa.
Ela me contou que a patroa, Dona Irani, era meio vagabunda mas não parecia ter outro homem. Se tivesse, era bem discreta. O patrão, este sim, era enrolado até a cueca com outras mulheres.
Escondido no quarto da empregada, dormi na mansão no quarto dia. Sai durante a noite e xeretei nos telefones, nas agendas, nas carteiras, bolsas, gavetas, bolsos de roupas e até nos lixos. Pouco descobri, além de um número de telefone sem nome. Chamou-me a atenção pois era meu número antigo de celular, que eu havia trocado no sistema de rodízio que faço para nunca ser rastreado pela polícia. Sempre que mudava o número, ligava para os antigos contratantes para informar o novo celular e perguntar se alguém tinha “vendido” meus serviços, ou seja, encontrado algum novo canalha para eu apagar.
Pedi à Neide, a empregada, as contas de telefone da casa. Ela não aceitou a princípio, mas as flores com que a presenteei junto ao pedido fizeram-na ceder. Descobri que foi do telefone do patrão que saíram várias ligações para meu celular. Ele parecia já estar tentando me contatar há tempos.
Acessei a caixa de mensagens do antigo número:
- Preciso te contratar. – Escutei o patrão gravado na secretária eletrônica. – O marido da minha amante quer me matar. Retorne a ligação. – E citava um número desconhecido. Disquei para ele.
- Alô! – Disse um homem.
- Armando? – Perguntei.
- Não, aqui é Flávio.
- Armando Pinto?
- Ah, vá se foder! – Retrucou Flávio e desligou.
Perguntei à Neide quem era Flávio.
- Uai, - Ela sempre começava as frases com brejeirices. Gracinha. – é o sócio do patrão. – Olhou-me como se eu fosse um idiota. Comecei a achar que alguém realmente estava querendo me fazer de idiota.
Liguei mais uma vez para Flávio.
- Armando Pinto?
- Vá se foder! – Gritou Flávio.
- Aqui é o agente Horácio da Sexta Delegacia. Do Paranoá. – Metalizei a voz. – Há algum Armando Pinto que perdeu o telefone? Ou foi roubado? – Enfatizei a última parte.
- Sim, agente – Titubeou Flávio. – meu telefone foi roubado há uns meses, mas já apareceu. – Ouvi um sorriso simples. – Como por milagre.
- Exatamente quando o aparelho sumiu, senhor Armando? – Perguntei e ele me indicou uma data correspondente à que meu contratante havia ligado para meu número antigo. E disse o nome completo, Flávio Frias.
Se minha interpretação estivesse correta, e eu quase nunca me enganava, aconteceu que meu contratante roubou o telefone do sócio e ligou para um assassino de aluguel do próprio telefone, fazendo-se passar pelo sócio, para que o assassino retornasse a ligação no celular do sócio, assim ele próprio atenderia e acertaria o assassinato dele mesmo. Deixava tudo registrado nas contas. Não fazia sentido!

A não ser que ele próprio denunciasse tais ameaças à polícia e, quem sabe, contratasse outro matador para “fazer” o sócio antes de sofrer qualquer atentado. Desde o começo queria pagar só depois do serviço, ou seja, não queria pagar.
Liguei para a Sexta.
- Agente Horácio, por favor.
Um grito e ele atendeu.
- Faz uma pesquisa para mim? – Pedi. Concordou com um grunhido de “manda”. Falei sobre a ameaça a Alexandre Marques por parte de Flávio Frias.
- Tem registro sim. – Uns sons de teclado de computador – Ele contou que a mulher o trai com o sócio Flávio Frias e querem, em conluio, matá-lo para ficar com a empresa. – Horácio parecia ler o papel. – Assinado e registrado num BO.
Desliguei. Estava feito o esquema: meu contratante estava resguardado pelos próprios meninos da lei, vítima de ameaça pelo sócio que fodia sua mulher e trocava telefonemas com um possível matador de aluguel. O único erro que cometeu foi ligar para meu antigo número pelo próprio celular.
Pensei na “dona” Irani e em Flávio. Seriam mesmo amantes? Bem, tanto fazia. Que trepassem gostoso.
Na sexta-feira fui de moto ao Lago Norte. Estacionei na quadra 04 e atravessei a viela entre cercas de chapas de ferro até o Pão de Açúcar, lugar apertado de uns quatrocentos metros de extensão. Procurei pelo Baixinho, um moleque de rua. Logo apareceu.
- Ué? Cadê a moto?
- Hoje é diferente, Baixinho. – Expliquei que naquele dia ele não iria conferir o dinheiro e o levar para mim do outro lado da viela. Iria apenas conferir o dinheiro e me chamar ali mesmo.
- Duzentos? – Quis saber quanto iria ganhar pelo trampo.
- Quinhentos, meu chapinha. – Sorriu com os dentes perfeitos. Era de rua mas limpinho. E nada bobo.
O “doutor” Alexandre Marques, dono de empresa, rico, safado, tentou armar uma arapuca para se livrar da mulher e do sócio, ficando livre com toda a empresa. Iria conseguir perfeitamente seu intento, porém deu o azar de encontrar o matador errado. Provavelmente não acreditou em mim quando expliquei meus termos. Muitos possíveis contratantes desistem depois de ouvir meu discurso inicial. Ele provavelmente achou que fosse besteira ou, talvez, pagou para ver, imaginou que eu não fosse mesmo meter as caras na investigação. Ou que eu fosse burro.
Na hora marcada, início da noite, o engenheiro surgiu num Civic. Apontei-o com a cabeça, Baixinho disparou até o carro e soltou a matraca.
- O dinheiro tai, tio? – Enfiou a cabeça pela janela. – Cadê a sacola de supermercado? Anda, deixa eu ver. Abre. Tá armado, tio? Levanta as pernas. Levanta a camisa. – As ordens se sucediam. Era engraçado ver um marmanjo amedrontado com uma criança. – Abra o porta-malas. – Foi atrás conferir e olhou em minha direção. Confirmou com a cabeça.
O engenheiro estava tão certo que seu plano daria certo que foi entregar o dinheiro ao segundo matador sem nenhuma proteção. Pensou que só trataria com o moleque de rua como expliquei ao telefone. Azar o dele. Fui até o carro e entrei no banco de passageiro.
- Ai. - Ele se assustou. Foi engraçado.
- Calma. – Acendi o isqueiro e incendiei a ponta de um baseado paraguaio, do bom. – Sou eu. – Peguei o saco com o dinheiro. Nem conferi, confiei no Baixinho. Saquei cinco notas de cem e estendi para fora da janela. O moleque as pegou como um raio e sumiu no estacionamento. - Anda com o carro.
- Para onde?
- Só – Prendi a fumaça no pulmão. Saiu um barulho engraçado e um pouco de fumaça pelo nariz. – anda.
Ele saiu pelo Lago Norte, subiu a serra para Sobradinho, passou por Planaltina, seguiu para São João da Aliança e continuava calado. Eu fumava tranqüilamente, apontando as ruas a seguir. Até cumprimentei os canas da barreira policial. É impressionante o que o medo faz as pessoas aceitarem sem resistir, principalmente se o atacante está de luvas de plástico branco e um berro preto engatilhado.
- Para onde? – Finalmente perguntou. E ainda se repetiu.
- Para o inferno. – Nem me mexi no banco, para aumentar o efeito da frase. Notei que ele começou a tremer. Ri mentalmente. – Diminua. – Ele tirou o pé do acelerador. Logo paramos no acostamento. Virei-me e perguntei: - Você tentou me enganar?
- Pensei que aquele papo de justiceiro fosse brincadeira. – Falou com a voz firme. Havia recuperado a confiança. – Você vai me matar?
- O que você acha?
- Eu tenho muito dinheiro. – A voz estava inexpressiva, apenas constatava o fato. Para ele tudo se resumia aos valores sustentados pelo dinheiro. Honra e moral eram valores desconhecidos, esquecidos no velho mundo dos pais e avós, ou mesmo inaceitáveis na batalha diária pela sobrevivência no meio capitalista e portanto selvagem que se espalhou por todos os cantos. Com dinheiro resolveria qualquer problema, ninguém resistiria, afinal todos eram tão podres e mesquinhos que renegariam aos mais importantes valores em troca de aumentar os dividendos financeiros. Sendo rico, tinha o que quisesse.
- Eu tenho uma arma. – Apontei o trinta e oito para o nariz pequeno de Alexandre. Ficaria ainda menor com o estouro da bala. – Quer uma chance? Te dou uma chance. – Ele continuava impávido, porém o suor diminuiu. Eu sempre atentava para os detalhes, eles me previam as ações das vítimas. – Confesse.
- Como?
- Ligue agora para a polícia e confesse que você tramou a morte do seu sócio e da sua mulher. – Seus olhos perderam o foco, analisava as possibilidades. – Sim, você será preso, mas é melhor que morrer. – Ajudei em seus pensamentos.
- Certo. – Sacou o telefone e discou um número. – Aqui é Alexandre Marques. Quero confessar um crime.
Tomei o aparelho e desliguei.
- Tive uma idéia melhor. Vamos para a delegacia. – Sorri. – Sou policial. O senhor está preso!
Pareceu desabar o engenheiro, seus olhos brilharam. Sorriu, até. Viu-se apanhado numa armadilha da polícia para arrancar sua confissão.
- Sim. – Mantive o sorriso. – Saia do carro para ser algemado.
Ele contornou o Civic visivelmente feliz. Chegou-se para mim com as mãos estendidas.
- Pode algemar.
- Vire-se de costas, senhor. – Imaginei ver dúvida em seus olhos, mesmo assim ele se virou tranqüilamente e juntou as mãos às costas.
Acertei o tiro na nuca.
A bala saiu pelo rosto e o desfigurou. Caiu mortinho como desejou à própria esposa e ao sócio. Eu sentia algum remorso? Hum, não. Prazer? Hum, sim. Vergonha? Sim, principalmente por sentir prazer em estourar os miolos de um canalha e sem remorso algum. Nunca entendi essa minha compulsão.
Tirei as roupas do cadáver, guardei o relógio e a carteira e joguei tudo dentro do carro. O morto peladão deixei no banco de trás. A polícia acharia todo aquele sangue no carro e imaginaria que ele morreu. Voltei ao volante e andei com o carro. Já rodávamos na pista menos de três minutos depois que paramos no acostamento. Meu presunto estava nu e quase pronto para a desova.
Procurei a primeira estradinha perto do córrego Buritizinho. Entrei por uma picada de chão e desliguei os faróis. Andei vagarosamente, via pouco a frente. Logo parei o carro e arrastei o corpo para fora. Saquei o canivete e fiz dezenas de talhos na pele, abri a barriga e puxei fora o intestino e outros órgãos. Deixei tudo exposto à luz da lua. Naquela mesma noite todos os insetos da região se alçariam sobre o cadáver. Trariam bilhões de micróbios. De manhã estaria duro e seco, meio comido pelas formigas e ratos. Antes do meio dia estaria levemente decomposto. Ao cair da tarde seria atacado por urubus, musaranhas, gambás, até cachorros-do-mato, onças ou chupacabras, não importa, o certo é que na noite seguinte já será um monte de ossos espalhados pelo mato, que ficarão secos e quebradiços em poucos dias, graças ao sol e novamente aos insetos.
O casal jamais seria responsabilizado, sem cadáver não há crime, mesmo com os indícios do sangue no banco. Eu queria deixar claro para a família que não deveriam procurá-lo, ele já conversava com o capeta.
Voltei pilotando o carro com uma mão e outro baseado na outra. Antes havia queimado a carteira e espalhado as roupas pelo acostamento. Um homem sumia da face da terra.
Parei o carro no estacionamento do Pão de Açúcar, fechei-o com um bip, atravessei a viela e joguei a chave no quintal de uma casa. Cheguei na moto, soltei o capacete, montei e o celular tocou. Estranho, duas ligações num mesmo mês?
- Não mato qualquer um. – Falei antes de qualquer coisa.

07 setembro 2006

(Língua do cão - Cristiano Quintino)


POLILÍNGÜE
Minha língua pátria é presa
cercada de sanções, nações
corruptas e corruptoras.

Minha língua presa anseia a solta,
livre de imposições,
ágil e motora.

Minha língua solta é erótica:
espasmos após tensões.
Flerta, provocadora.

Minha língua erótica é ferina.
Cospe imaginações
E alguém ora: antiquelíngua fecundadora.

Minha língua ferina é frouxa.
Fala de arrebatações,
da vida viva e aterradora.

Minha língua frouxa se come
com batata, à portuguesa e com tesão;
com boca degustadora.

Minha língua multi-sabor é sempre suja
de violência e de paixão
entrega-se è outra, devoradora.

Minha língua suja disfarça-se em pê:
pêquer pêô pêcéu, pêchão.
É língua lúdica, voadora.

Minha língua do pê é feita de trapo,
que se esconde com exatidão
p’ra tocar, redentora.

Minha língua de trapo é língua de sogra:
faz festa, conselho e diversão.
Toca onde não se quer, desafiadora.

Minha língua é a língua do cão:
baba e lambe e late sem compaixão,
língua cachorra.

28 agosto 2006

"...fazer poema, lá na Vila,
é um brinquedo..."
(Palpite Infeliz - Noel Rosa)


O poeta, contista e publicitário Kinho Vaz
é um multi-criador carioca,
legítima cria de Vila Isabel.
Sua poesia gerou filhotes, que são
as caprichadas letras para as músicas
dos amigos compositores.

"Fazer o Quê?", composta em parceria
com Raquel Koehler, ocupa agora
o 1º lugar entre as "10 Mais Ouvidas da Semana"
do site do Clube dos Compositores do Brasil.

27 agosto 2006

Drogaria Granado - Tijuca / RJ - Foto de Giovanni Darienzo



CRÔNICA DO EXÍLIO
(Alexandre Campinas)


Valei-me por suas flechas, São Sebastião do Rio de Janeiro !


Essa cidade minha. Que me corta a alma a cada canção. Saudades que evocam toda a recordação de um tempo feliz. Uma vida feliz. Um passado cidade. De ônibus elétricos no subúrbio e mão firme de mãe na minha mão. Tempo de sonho e esperança, poesia e canção.


“Vamos carioca e sai do teu sono devagar. O dia já vem vindo e o sol já vai raiar.”


Vai raiar em Copacabana, em frente a Constant Ramos onde nos sentávamos meu avô e eu após a visita a colônia de pescadores. Ele a decepar e eviscerar peixes. Ali mesmo, em pleno calçadão. Eu, a sorver vida.


“São Jorge teu padrinho te dê cana pra tomar. Xangô teu pai te dê muitas mulheres para amar.”


Viva o Tom e a Miucha. Viva o poetinha. Viva o suburbano Aldir do Light e dessa deliciosa vida merda da qual eu também faço parte e adoro. Profundamente adoro. Barão de Drumond e Boulevard. Floresta de densa mata dos cantos e pássaros. Paineiras. Uma cascata escondida na curva que descortina a pintura da Lagoa, da Gávea e do campo do Flamengo nos fundos do Jóckei. Ou seria o Jóckei nos fundos do campo do mais querido ? Assim como fosse um quintal com cavalinhos...


Cidade eu sou perdidamente apaixonado por você. Eu sou você, sou meu pranto no Samba do Avião. Sou enlevo na Valsa de uma Cidade, sou cidadão ouvindo Cidade Maravilhosa. Te olho, suburbanamende tímido, do Excelsior e te exploro inteira, do Caju ao Maracanã. Da Central do Brasil ao Encantado, nome lúdico da infância vivida. Cidade que confunde a minha salgada saudade de lágrimas ao teu doce contorno mulher. Tenros seios, montanhas onde mama a minha dor. Boa dor de saber-se dono do que não é. Pipas na Ilha do Governador. Uma santa. Sensual e ondulada Teresa. Uma gente, Ipanema. Uma gente, Vila Valqueire. Iguais. Um povo todo irmão. Todo igual.


Outra ilha e a mais amada fantasia. Um baobá por Maria Gorda, a profunda raiz de Paquetá, inesquecível amor. Eterno amor. Da Ribeira ao Catimbáu, do Iate ao Municipal. Gostosa tatuagem da minha vida. Amada tortura a qual eu, órfão de ti, me submeto mergulhado em prazer e gozo.


Santa, curta, Sofia. Santo Afonso, de pé sobre o adro de seu templo, velando a minha Tijuca querida. Conjunção carnal de ruas, e cinemas que já não o são desembocando na praça de nome de herói sulamericano. Chafariz e ginasta. Café Palheta e longa tênia em tuas carnes.


Desejo de chegar-te de qualquer lugar, rodas baixando sobre a ponte. Renascer a cada toque suave na noturna e iluminada pista do Santos Dumont.

“... dizem que sou démodé, saudosista, blasé, retro... e eu sou ...”

(Os versos que aparecem entre aspas são de músicas de Vinícius de Moraes e também de Aldir Blanc)
CANALHA, UM ELOGIO DE PRIMEIRA
(Alexandre Campinas)

Antônio Carlos Magalhães não gostou
de uma crônica do escritor
e compositor Aldir Blanc,
publicada no JB.

O senador deixou a lógica de lado
e valeu-se - como sempre - da velha
tática do sofisma por ignorância de questão
aliado ao xingamento reles.

Truculento, deselegante e com a usual sutileza de um estouro de manada de aliás no cio, chamou o genial carioca de canalha.

Na impossibilidade do JB (não quis) publicar a crônica-resposta do Aldir, a
comunidade Aldir Blanc no Orkut, e vários blogs de admiradores e companheiros
fazem o desagravo na rede.

Os blogs

Cartas de Hades e Reino de Hades (Mariana Blanc)
São Coisas Nossas
Pentimento e
Buteco do Edu

já publicaram. Agora e a vez do Quintal Literário.

Jogo feito:


"BOLÔ-FEDEX

Leva, meu samba, meu mensageiro, esse recado...


O Sena-Sênior ACM, vulgo Malvadeza, me acusou de ser “um elemento lulista infiltrado” no JB. E concluiu seu arrazoado (?) me chamando de canalha.


Senadô-Skindô, por mais que eu viva nenhum elogio me trará orgulho maior do que ser chamado de canalha por V. Excrescência. Quem lê minha coluna sabe que o pau canta à direita, à esquerda e, claro, no centro, com igual prodigalidade. Espero que a grande famiglia pefelista já tenha providenciado junta médica competente para lubrificar os parafusos do Cacicão. A julgar pelas suas mais recentes declarações, as encrencagens, desculpem, engrenagens, estão precisando de uma lubrificada urgente: ginkgo biloba, piracetan, talvez um viagrinha... O senador, craque em prestidigitação, mais uma vez misturou as bolas: combatividade é muito diferente de baba paranóica escorrendo gravata parlamentável abaixo.


A ojeriza é mútua. Estou farto de maquiavelhos de fraldão deitando regras. Toda essa mixórdia envolvendo valeriodutos, mensaleiros, sanguessugas e saúvas, começa com políticos da sua estirpe. O mecanismo é manjado. Se as denúncias favorecerem meu partido, palmas, vamos apurar. Agora, se a canoa virar, o denunciante passa a bandido e fim de papo, vai ser preciso buscar a propina em outro guichê. A máscara-de-pau que descrevo acima é suprapartidária. Os que não a exibem são as exceções que confirmam as regras vigentes. Quando as regras rompem os diques e escorrem periferia abaixo, não há Lembo Pétala-Macia que evite derramamento de sangue - na maioria dos casos, inocente. Mas o meu negócio não é discurso, é galhofa. Já que falei em bolas misturadas... Dizem que um velho político pefelista, preocupado com as más performances nos palanques, procurou um médico, antigo cupincha de castelo e carteado.


- Tô com um problema, num sabe? Bem na... plataforma de lançamento.


- Hein?


- Pois é. Gases. Uma coisa impressionante. Além das explosões e dos odores, tem hora que chego a levitar. Uma assessora já foi arremessada contra meu contador de caixa 2. Estão hospitalizados. Isso não pode continuar.


O amigo explicou que aquela não era a especialidade dele, mas que pensaria no assunto, conversaria com colegas renomados, faria até pesquisa na internet.


No comício seguinte, o esculápio apareceu com um vidro misterioso, sem rótulo, e entregou ao político:


- É pra...


Mas o tumulto, o puxa-saquismo, os vivas, a euforia bem remunerada impediram a necessária e urgente troca de informações. Cerca de meia hora depois, o SSJE (Secretário para Superfaturamento Junto a Empreiteiras) agarrou o ilustre médico pelo paletó.


- Corre que o Chefe tá pegando fogo nas... nas partes baixas.


- O quê?!?


O socorrista encontrou o parlamentável feito um bebê, sem calças, com uma brutal reação alérgica na proa da região pélvica.


- Mas... Eu mandei você beber a poção e você esfregou nos...


- No calor da luta política, eu confundi peido público com pêlo púbico."

Aldir Blanc

17 agosto 2006

(Tentando o Impossível - René Magritte)




GUERRA DE MUDOS
(Kinho Vaz)

Eu vi a chama do prazer

Ardendo nos seus olhos.

Vi lábios selando desejos,

Beijos que não se pronunciam.

Vi mãos aflitas, contorcidas,

Combatendo os dedos na ansiedade

Como as fileiras de Atenas,

Cerrando ódio aos heróis de Esparta.



Vi tudo isso

E não dei um só passo,

Senão aquele que me trouxe de volta

À realidade.

28 julho 2006



Ai, Ching !
(Luiz)


As coisas Zen,
as coisas têm,
as coisas tão
tão sem sentido,
sem nem sim nem não,
assim, bem...
I Ching.

07 julho 2006


PERVERSOS PRECOCES
Éramos uma legião de demônios precoces. Não valíamos a bala que roubávamos na quitanda. Nem os sacos que enchíamos com urina, para arremessar nos ônibus lotados. Uma turba vadia, de liberdade indecente, como a nossa condição. Tínhamos a fragilidade das rolinhas que abatíamos por lazer e fome. E a resistência das pequenas eras que crescem nas frestas das calçadas. Éramos seres sem compromissos. Pequenos e pobres como as possibilidades disso mudar. O nosso tempo só contava após a escola, onde despertávamos remelentos, desgrenhados e sacudidos pelos berros do inspetor. Não éramos rebeldes, pois ainda não conhecíamos a rebeldia. Mas conseguíamos agregar criatividade à ousadia de um jeito agressivo. Tanto que os adultos nunca descartaram a possibilidade de nos mandar para um reformatório. Puro exagero. A nossa perversidade era ingênua. Não tinha nenhum efeito prático, senão o de nos divertir. Como foi divertido roubar o Ford Bigode do seu Manduca. Uma paixão do velho. Mantido como uma amante. O carro ficava parado o tempo todo, na sua porta. Dali só saía uma vez por mês, dirigido pelo seu Manduca. Sempre num sábado. Ninguém, nunca, descobriu porquê. O velho entrava no carro e a gente provocava para ele reagir. Já vai passear de carroça, Manduca? Sai da frente suas pestes. Sai senão passo por cima, bando de bostinhas. A gente ria dos insultos, mas gostava mesmo de correr ao lado do carro atiçando o velho. Pisa aí Manduca caduca. Essa porra não corre mais que a gente não? Corre mais que o cu da tua mãe, estrupício. Ainda atropelo um! Filhos da puta! Crias de cadela vadia! Netos de mulher da zona... E xingava o que podia, enquanto conseguíamos ficar emparelhados com a janela do carro. Era sempre assim, uma vez por mês, todos os meses. Até o dia em que tivemos a idéia de esconder o Ford Bigode. Uma maldade que quase custou a vida ao homem. Era tarde da noite. O guarda noturno já apitava ao longe. Algumas pancadas de leve na lataria fizeram a maçaneta ceder. Abrimos. Um ficou na direção, o resto empurrou. Paramos o carro umas duas quadras adiante. Fechamos a porta e voltamos pra casa. No dia seguinte estávamos lá, sentados no meio fio, quando o seu Manduca apareceu arrumado para sair. Olhou o espaço vazio na rua e tonteou. Tirou o chapéu panamá e começou a se abanar. As palavras não saíram. Uma brancura de morte tomou conta do seu rosto. A camisa de linho engomada encharcou. Os joelhos dobraram e fizeram o velho escorregar pela parede até o chão. Acode que seu Manduca tá passando mal! Corre que o velho tá morrendo aqui! E toda gente acudiu rápido. Todo mundo saiu de casa pra ver. Porque gente pobre é assim: nem sempre pode ajudar, mas não deixa de conferir. Nós, farsantes, corríamos de cima a baixo atendendo aos pedidos. Pegando água com açúcar pra acalmar. Buscando vinagre, pra esfregar nos pulsos. Uma colher de sal, pra levantar a pressão. Café sem açúcar pra avivar o velho. Deu certo. Manduca falou. Roubaram meu carro! Puta que pariu! Cadê meu carro? Calma seu Manduca, vamos chamar a polícia. Polícia? Fodeu! Vamos ser castigados duas vezes. No cassetete dos meganhas e no fio de ferro da nossa mãe. Agora não teria jeito. Iríamos conhecer o reformatório. Que merda! Mas se o diabo atenta, o anjo da guarda protege. Veio a idéia de procurar o carro. Deve tá perto, seu Manduca. Aquela carroça não andava porra nenhuma. Carroça é a puta que o pariu seu bostinha! Cala boca, peste. Não tá vendo que o velho tá passando mal. A gente só quer ajudar. Vão ajudar a sua mãe a lavar a boceta, seus filhos da puta! Vocês devem ter alguma coisa com isso. Mas se eu descubro eu mato um puto desses! Calma, seu Manduca, calma. Sai pra fora daqui seus coisa ruim. Vão acabar de matar o velho. A gente só quer ajudar, tia. Podemos correr por aí procurando o carro. Então vai, vão ver se acha a porra desse carro por aí, merda! Saímos voando e estridentes, como um bando de biquinhos de lacre. Mas não podíamos voltar logo, para não parecer coisa feita. Fomos para o campo do América, assistir à pelada da manhã. Subimos ao Santo Antônio para ver a turma cruzando pipa. Mergulhamos no açude da fábrica abandonada. E só então voltamos correndo para a nossa rua. Achamos! Achamos! Achamos o carro do seu Manduca. Tá aonde? Lá embaixo, na rua do querosene. Vamos lá pra ver. E todo mundo foi. Seu manduca na frente. Todo mundo atrás. Era o fato do dia. Aquilo valia mais que lavar as roupas da madame. Que catar o feijão da semana. Que remendar as cuecas do marido. Era festa em dia comum. Todo mundo viu seu Manduca abraçar o carro. Erguer as mãos e agradecer a Deus. Beijar o capô. Conferir a lataria, os pneus. E depois entrar para levar seu precioso Ford Bigode pra casa. Dá carona, seu Manduca? Sai pra lá que aqui vocês não sentam esse cu sujo! Aqui não! E arrancou com o carro, deixando o povo pra trás. Menos a nós, que saímos correndo ao seu lado, atazanando a sua vida.
Houve outras ocasiões onde deixamos a maldade depor contra a nossa inocência. Como aquela, em que simulamos um assassinato para a minha mãe. Morávamos num porão. Chovia muito, o dia todo. Ficamos presos naquele subsolo úmido e apertado. Pequeno demais para a nossa imaginação criminosa. Minha mãe estava no quintal. Armada com um vergalhão de ferro lutava para que o ralo não entupisse e transbordasse imundices para o nosso lar subterrâneo. Possivelmente chorava, por aquilo e por nós. Pois ainda não era meio dia e já havíamos dado àquela mulher curvada pelos sacrifícios da vida, muitos motivos para chorar. Quebramos a sua cama, jogando bola com os travesseiros. Acabamos com uma caixa de fósforos, um vidro de esmalte e um tubo de laquê, num ritual de incineração de formigas. A mistura provocou uma pequena explosão que deixou careca de cílios e sobrancelhas o meu irmão caçula. Era pouco. Decapitamos o São Jorge do meu pai, alvo do nosso estilingue. Gastamos o último gás do bujão, fazendo goma de farinha para colar a cabeça do santo. Destruímos dois cabides, transformados em rústicos arcos para flechas. Uma dessas varou a porta de vidro da cristaleira. Soltamos o azulão da gaiola para brincar de caçá-lo. Ele fugiu. Passou rasante pela cabeça da minha mãe, que largou um grito de espanto. Ai, meu Deus! Que isso! Puta que pariu! O que eu fiz para merecer isso? Hoje eu pego um de jeito! Berrou mais ameaças para nós e continuou sua luta com o ralo. Não tinha a menor idéia do que aconteceu e do que iria acontecer lá embaixo. Ficamos quietos uns segundos, até que voltamos a escutar seus palavrões dirigidos às baratas que subiam em suas pernas. O céu seguiu trovejando pesado. Devia ser Deus, assumindo o seu desgosto com a gente. Ou então tentando alertar àquela pobre mulher. Chamar a sua atenção para os pequenos seres diabólicos, presos no seu submundo. Nós, que naquele instante chegamos à caixa dos remédios. Descobrimos o vidro de mercurocromo e sorrimos em perversa conivência. O irmão caçula foi deitado no chão. Segurava a lâmina do facão de peixe com o sovaco. O falso sangue foi espalhado a esmo, pelo corpo e pelo lugar. Estava pronta a farsa. Era só ver no que dava. Socorro mãe! Corre aqui. Acode mãe. Ajuda! Rápido! Corre! Depressa, mãe!Ela veio rápida, entre palavrões. Desceu se equilibrando para não cair nos degraus toscos e molhados. Parou estatelada diante da cena. Deu um grito aterrador e desabou, sem sentidos. Ai o meu cacete! Matamos a mamãe. E agora? Mãe é brincadeira. Ele não morreu não. Acorda, mãe! Joga água nela. Já ta molhada. Na cara, seu bosta. Vai afogar ela. Joga logo essa merda aí! Enquanto isso, o ralo transbordava e o esgoto descia em cachoeira até nós. O cheiro tomou conta de tudo. E nos ajudou a fazer minha mãe voltar a si. A primeira coisa que fez foi abraçar assustada o filho caçula. Chorou soluçando. Pegou seu rosto entre as mãos para conferir a cria. Notou a ausência dos cílios. As sobrancelhas chamuscadas. Que isso? Fomos saindo de fininho para um canto. Ela se levantou e começou a tomar pé da realidade. Olhou ao redor e viu tudo pelos ares. Viu a cama quebrada. Conferiu a parede enegrecida pelo fogo. Alisou a cristaleira partida. Levou as mãos à boca e fez o sinal da cruz, quando viu o São Jorge com a cabeça colada ao contrário. Voltou-se para o chão sujo de mercurocromo, como o corpo do meu irmão. Puxou os cabelos com todo aquele mal feito, completado pelo rio de fezes que descia as escadas. Arregalou os olhos de um jeito conhecido. Perigoso, para nós. Torceu o canto da boca. Puxou o ar com força e explodiu. Seus filhos de uma puta! Desgraçados. Pestes do inferno. Isso é coisa que se faça? Mas eu mato, hoje mato um. E vai ser agora! Vem cá! Vem cá! Não adianta correr! Eu caço vocês no inferno. Interna essas crianças, mulher! Vai cuidar da sua vida fofoqueira. Então vá se foder! Saímos correndo para a rua, com chuva e tudo. Atrás de nós voavam panelas, pratos e baldes. Minha mãe tentava nos acertar como podia. Mas não corria como nós. Sumimos na chuva. Subimos o morro, entramos no mato. Passamos o dia fugindo dela. Molhados, com fome e rindo da nossa maldade. Mais tarde ela se acalma. Aí a gente volta.
Também sofreu a Júlia maluca. Que não era maluca de verdade. Mas ficava assim por nossa conta. Uma idosa sozinha no desamparo coletivo. Vivia de passar roupas pra fora. Todo dia saía com a trouxa na cabeça. Parte do seu corpo. Uma mulher pequena que cumpria o seu destino malabarista. Era vingativa. Gostava de dar o troco. A gente aprontava com ela e tinha que ficar atento. Ela não esquecia. Quando menos se esperava, vinha com uma tesoura cortar a linha da nossa pipa. Ou surgia do nada, para rasgar a nossa bola com a faca. Quando tinha sucesso na vingança, escancarava a boca sem vida e gritava rouca. Comigo vocês se fodem! Comigo vocês se fodem! A Júlia ficou chamada de maluca por um trauma. Tinha medo de macumba. Se encontrasse um frango morto e um toco de vela numa esquina, fazia um escarcéu. Apertava os olhinhos miúdos. Botava mais rugas no rosto. E falava correndo, batendo as mãos, compulsiva. Valha-me Deus, Nosso Senhor! Tira o capeta do meu caminho! Me guarda nas asas dos seus anjos! Me tenha na sua bondade. Expulsa o demo daqui. Tira o coisa ruim da minha frente que os caminhos do mundo são seus. Trabalho na sua fé. Vivo da sua caridade. É sua a minha alma, na vida que é meu castigo e na morte que será meu prêmio... E repetia a ladainha depressa. Pulando no mesmo lugar. Sem parar de pular. Sem deixar a trouxa de roupas cair da cabeça. Como se a trouxa fosse um apêndice. Uma grande verruga da sua cabeça. Fica nesse transe até a torrente de frases minguar. Então se benzia repetidamente, enquanto atravessava a rua correndo. Com toda a molecada atrás imitando e gritando. Júlia Maluca! Cabeça de trapo! Júlia Maluca! Cabeça de trapo! Vão daqui! Vai embora cambada! Pode esperar. Vocês vão se danar. Comigo vocês se fodem! A Júlia morria de medo dos santos de macumba. Até de Cosme e Damião. Uma vez fomos vender ferro velho, catado pelas ruas. Lá no depósito encontramos uma máquina de escrever muito antiga. Trocamos tudo por ela, aceita? Fica faltando meio quilo. Depois a gente paga, pode? Vão pagar como pirralhos? Com mais ferro, a gente cata e trás pro senhor. Vá... Levem esta bosta e me sumam da vista. Aquela máquina de escrever deu origem a muita coisa. Principalmente as que não prestam. Mas a pior delas foram os cartões de Cosme e Damião. Fizemos um montão. Entregamos na escola, na feira, onde a gente passava. Convidamos para distribuição de doces, roupas e brinquedos no dia dos santos. Era comum se fazer isso. A gente dizia que uma moça tinha mandado. Todo mundo acreditou. O dia todo mundo já sabia, 27 de setembro. Marcamos hora e local. Colocamos o endereço da Júlia. Vai dar uma merda só! Agora ela vai ficar maluca de vez. Muito antes da hora marcada, a fila já ia longe. Tinha de tudo. Adulto, criança, velho. Dia de Cosme e Damião é assim, faz todo mundo virar criança. Bota todo mundo na rua atrás de doce. Não parou de chegar gente. E a Júlia lá dentro. Passando roupa. Sem tempo de botar a cara na rua. Chegou a hora marcada no cartão. Nada da porta abrir. O povo ficou impaciente. Bateu na porta. Bateu palma. Berrou chamando o dono da casa. Queremos doce! Olha a hora! Abre essa porta aí. Salve Cosme Damião, gente! E nós lá, rolando de rir. Achando aquilo o máximo. Orgulhosos do feito. Vão derrubar a porta da Júlia. Vão querer matar a velha de pancada. A Júlia abriu a porta e se encolheu de espanto. Tentou fechar, mas o povo não deixou. Cadê o nosso doce, dona? Que doce? O de Cosme e Damião. Eu não mexo com essas coisas! Mas tá aqui no cartão, o número é da sua casa. Mas aqui não vai ter porra nenhuma. A gente tá aqui desde cedo, dona, isso é ruindade! Faz isso não, moça. Mas eu não tenho doce nenhum. E sei lá que cartão é esse. Aí pessoal, tá dizendo que não tem nada. Como nada? Esse tempo todo aqui pra nada? Tá brincando com as crianças? Assim você vai ficar corcunda, bruxa velha. Vá rogar praga no caralho. Vamos lá, pessoal, tomo mundo junto: queremos doce! Queremos Doce! Mentirosa! Bruxa velha! Vaca murcha. Filha da puta...A turma ficou louca. Só não invadiu a casa da Júlia, porque alguém chamou a polícia, que limpou a área na bordoada. A velha ficou mal vista pela vizinhança. Já tinha medo dessas coisas. Depois daquilo, nunca mais saiu de casa em dia de Cosme e Damião. Mas teve uma vez que a coisa ficou séria mesmo. Quase matamos a Júlia de verdade. De susto no coração. Estávamos à-toa na rua. A noite já estava alta. Parou um carro na esquina. Carro de bacana. Desceu uma mulher enorme de gorda. Trazia um sacolão de lona. Armou um grande despacho para os santos da encruzilhada. Tinha de tudo. Cachaça, frango, farofa amarela, vela preta e vermelha, pipoca, champanhe... Um verdadeiro banquete. Bonito de ver. Tudo arrumado em cima de um pano vermelho e preto. Cores de Exu. Cores do Flamengo. O carro saiu, a gente chegou perto. Olha o pano! Dá pra gente fazer bandeira do Mengo! Tá louco? Amanhã vai pro lixo mesmo! Isso faz mal, menino, é pros santos. Os santos não vão comer o pano, vão? Mas é deles, vai cair a sua mão. Mas vamos deixar isso tudo aí? Quem ia gostar de ver era a Júlia Maluca... Nossos olhos se acenderam com a idéia. Como se todos pensassem a mesma coisa. Pronto! Já não se tinha mais medo dos santos. Pegar já não fazia a mão cair. E a bandeira do Flamengo podia esperar mais um pouco. Vamos sacanear a Júlia! Como? A gente bota isso tudo na porta dela. E o castigo? Castigo é o caralho, você acredita nessa porra? Sei lá! Então não pega, só vigia. Tá bom!Apagamos as velas. Juntamos as pontas do pano rubro-negro e transportamos o despacho. Montamos tudo na porta da Júlia. O despacho completo. Grande, imponente. Todo certinho. Bonito, se não fosse o lado macabro. Pronto. Estava armado o circo. Era só esperar a hora do show. Cedinho estávamos lá. Culpados na cena do crime. A Júlia abriu a porta e saiu do mundo. O sangue fugiu. A pele eriçou. O grito não conseguiu sair. Ficou preso no peito arfante. A trouxa de roupas passadas caiu. Pela primeira vez na vida, desgrudou da sua cabeça. Caiu sobre o despacho. Atrás veio ela, a Júlia. Se debatendo toda. Botando espuma pela boca. Revirava os olhos. Agonizando. Tornou-se parte do seu medo. Parecia o frango da macumba, acabando de morrer. Acode gente, a Júlia tá tendo um ataque. Socorro! Venham ajudar a velha! Todo mundo veio. Mas ninguém queria botar a mão nela. Estava sobre um despacho. Com isso não se brinca. Tava se debatendo. Aquilo era coisa de santo. Vivia esconjurando eles. Tava sendo castigada. É um ataque! Não, é santo mesmo. Vivia brincando com eles, pegaram ela! E se não for? Vai deixar ela morrer? Temos que ajudar! Vai lá você. Eu não boto a mão aí. Joga um balde d’agua, tia. Cala a boca peste, que isso tem dedo de vocês. Tem não tia. Então sai daqui e não atrapalha. A Júlia vai morrer, tia? Não fala besteira, menino. Quer que a gente chame a polícia? Só se for pra prender vocês. Mas a gente não fez nada. Quem não conhece que compre. Vão lá na venda e pede ligar pro hospital. Pede uma ambulância. Diz que é urgente. Corre, peste. Vai logo. E nós fomos voando. Um riso de deboche, pelo acontecido. Um frio na barriga, pelo medo da velha morrer. A ambulância veio e levou a Júlia. Ela não morreu, mas jurou que iria nos matar. Como todos os outros que passaram pela nossa infância. E sofreram com a nossa cruel criatividade.

01 julho 2006



HAIKAIZINHOS BESTAS
Vontade danada
de comunicar conciso.
Sei: Matsuo baixou.
****
Ventilador preto,
antigo, de bisavó.
Um vento a ventou.
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Nenhum homem é
uma ilha. Besteira, que
eu sou Paquetá.
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Fred baila no ar
e um anjo de pernas tortas
diz: - joão, vem dançar !
****
Queimou soutiens;
moda com revolução.
Sobraram peitinhos.
****
Travesseiro espera
a cabeça oca, de tanto,
prum milhão de sonhos.
****