16 junho 2007
27 abril 2007
Avanzada
(Taiguara)
Soy un loco,
Ya lo se
Pero comprendam
Que es mi modo
Simplemente de pensar
Y que culpa tengo yo
Si está en mis huesos
Esta forma
Un tanto estraña
De cantar
Las ventanas
De hace tiempo están cerradas
Porque hay normas
Y conceptos por vencer
Alguien tiene que atrever-se
A dar el paso
Y entreabrir-las
Para un nuevo amanecer
(em Guarani)
"RO JHACJHUGHI CHE RETÁ
ÄICHAA YAPOVA
PURAJHEI TAPÉ PYAJHÚ
PYCUIJHARÁ
CHE RENDUNA
JHA E MYASÁI
NDE YVY APE ARI
JHA I CATURAMO E ÑOTÏ
JHEÑOIJHAGÜA"
(Tradução)
"Porque eu te amo
Meu país, eu faço isto:
Um novo canto
Para trilhar novos caminhos
Me ouve...
E espalha
Pelo teu chão
E, se possível, planta
Para que ele brote."
18 abril 2007
(Manoel de Barros)
As coisas jogadas fora por motivo de traste
são objetos da minha estima.
Prediletamente latas.
Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.
Se você jogar na terra por motivos de traste uma
lata: mendigos, cozinheiras e até poetas podem
pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes, por
exemplo, do que as idéias.
Porque as idéias sendo objetos concebidos pelo
espírito, elas são abstratas.
Se você jogar um objeto abstrato na terra por
motivo de traste, ninguém pode pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes.
A gente pega uma lata, enche de areia e sai
puxando pela rua moda um caminhão de areia.
E as idéias por serem um objeto abstrato concebido
pelo espírito, não dá para encher de areia.
Por isso eu acho a lata mais suficiente.
Idéias são a luz do espírito — a gente sabe.
Há idéias luminosas — a gente sabe.
Mas elas inventaram a bomba atômica, a bomba
atômica, a bomba atôm....................................
....................................................................Agora
Eu queria que os vermes iluminassem.
Eu queria que os trastes iluminassem.
16 março 2007
(Artur Azevedo)
A cena passa-se em 1890.
A família está toda reunida na sala de jantar.
O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.
Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.
Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.
Silêncio.
De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:
- Papai, que é plebiscito?
O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.
O pequeno insiste:
- Papai?
Pausa:
- Papai?
Dona Bernardina intervém:
- Óseu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar que lhe faz mal.
O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.
- Que é? que desejam vocês?
- Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.
- Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?
- Se soubesse não perguntava.
O Senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:
- Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!
- Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.
- Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?
- Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que e plebiscito.
- Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!
- A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...
- A senhora o que quer é enfezar-me!
- Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, e o menino ficou sem saber!
- Proletário, acudiu o senhor Rodrigues, é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.
- Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!
- Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!
- Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: - Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.
O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:
- Mas se eu sei!
- Pois se sabe, diga!
- Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!
E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.
No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...
A menina toma a palavra:
- Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!
- Não fosse tolo, observa dona Bernardina, e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!
- Pois sim, acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão; pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.
- Sim! sim! façam as pazes! diz a menina em tom meigo e suplicante. Que tolice! duas pessoas que se estimam tanto zangarem-se por causa do plebiscito!
Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:
- Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.
O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente. Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.
- É boa! brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio; é muito boa! Eu! eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...
A mulher e os filhos aproximam-se dele.
O homem continua num tom profundamente dogmático:
- Plebiscito.
E olha para todos os lados a ver se há por ali mais alguém que possa aproveitar a lição.
- Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.
- Ah! suspiram todos, aliviados.
- Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...
(Mão Branca)
O casal comprou azeite no primeiro mercado que fizeram depois de casados. Quando foi usá-lo, Jorge se surpreendeu:
- Você é canhota?
- Não. – A esposa comia salada.
- Então por que furou a lata do azeite ao contrário?
- Contrário?
- Sim, você fez furos na diagonal inversa da tampa. – Serviu-se do azeite virando a lata para frente com dificuldade. – Tá vendo? – Trocou a lata de mão. – Com a mão esquerda fica fácil. Os buracos estão do lado contrário.
Ela percebeu a diferença e concordou que a lata serviria melhor aos canhotos. Ele abocanhou satisfeito uma garfada de tomate.
- Não bata o garfo nos dentes. – Pediu Rebeca. – Me causa gastura.
- Desculpe.
Jorge foi à cozinha atrás de azeite para a lentilha. Havia comprado uma nova lata. A grande surpresa foi quando percebeu que já estava com furos. Ao contrário.
- Querida, você furou a lata de azeite ao contrário novamente.
- Foi? – Ela nem se virou. – Sem querer.
- Eu sei. Preste atenção na próxima, por favor.
Ela continuou sem se virar, mas levantou os olhos quando ele levou o garfo à boca.
- Rebeca! – Falou com um tanto de raiva na voz. – O buraco do azeite tá ao contrário!
Ela sustentou o abridor de latas no ar.
- Então por que você não veio fazer os furos? Só sabe reclamar.
- Você não me chamou. Poderia me deixar furar a próxima?
- Claro.
Jorge sentou-se para a janta. O casamento estava horrível, eram distantes, surgira a tão falada barreira entre eles. Mesmo que a aparente tranqüilidade do casal sugerisse conforto, no fundo ele achava que estava representando um papel: o de marido desprezado. Ela fazia todas as suas vontades contanto que fossem convenientes, porém quando encasquetava com algo, não havia conversa nem opinião adversa. A dela deveria prevalecer. O buraco do azeite era o exemplo perfeito. Bastou um dia ele pedir para que o buraco fosse do lado inverso da lata para ela incitar o mais íntimo dos confrontos, o da força de vontade. Quem cederia primeiro, ela ou ele? Se ele perdesse a paciência e ao menos gritasse, sabia que ela retornaria com tantas pedras fosse capaz de ter guardado durante os sete anos do casamento. Se ele pedisse mais uma vez que ela atentasse para os furos no azeite, deixaria claro quão ele era bundão, um verdadeiro frouxo nas decisões do casal.
Mas se ela se cansasse de provocá-lo com o azeite, ah, ele venceria. Como poderia fazer isso? Nunca fora dado a essas intriguinhas ridículas.
Serviu-se de salada e jorrou azeite por cima, sem muita dificuldade, já se acostumara aos buracos ao contrário. Preparou o garfo com alface, cebola e tomate e o levou a boca.
- Chega! – Gritou Rebeca, batendo as mãos na mesa. Talheres voaram. – Não agüento mais! – Apertou os olhos e apontou para Jorge. – Você faz de propósito. Sete anos e você continua me provocando. O que quer? O que ganha com isso? Você é um monstro! – E mergulhou a cabeça nas mãos num pranto sofrido.
- Tá louca, mulher? – Foi a reação de Jorge. – Do que você tá falando?
- Canalha, sádico, desprezível. – Balbuciou.
- Por que, Rebeca, por que?
- O garfo nos dentes. Não bata o garfo nos dentes.
06 março 2007
Clara saiu de casa cedo. Estava péssima. Queria se enfiar num quarto escuro e deixar a sensação de morte passar. Mas não podia. Tinha que sair e viver. Mesmo que fosse para afrontar o passado. Ainda sentia a presença do marido. Um idiota manipulador de mentes. Dono de um egoísmo sem precedentes. Quando se conheceram era diferente. Fazia outra figura. Talvez para impressioná-la. Mostrava-se compreensivo, liberal, dono de um discurso cativante. Conseguiu dela o que queria. A confiança. O crédito para uma vida a dois. O tempo revelou a sua verdadeira face. Um déspota. Um falso. Um mentiroso. Um doente. Fez de Clara a sua marionete. Um boneco de ventríloquo. Conduziu seus passos. Selecionou suas amizades. Direcionou seus pensamentos. Moldou a sua conduta de tal forma, que ela deixou de ser autêntica.
Quando se deu conta já era tarde. Não sabia mais andar sozinha. Não sabia decidir sozinha. Estava presa à submissão. À rotina de um casamento desigual. Era como um passarinho de gaiola. Sonha com a liberdade, mas não sabe o que fazer com ela. Aquela não era apenas mais uma das incontáveis manhãs de ódio na vida de Clara. Era diferente. Era definitiva. Não podia mais voltar atrás. Saiu porta afora pensando alto. Que fosse tudo pra puta que o pariu. Junto com ele. Que se danasse. Que ficasse podre. Sujo, como um pedaço de papel higiênico usado. Demônio. Deveria mesmo era ter sido corno. Era isso que merecia. Teve sorte dela não ser uma mulher vagabunda. A vadia que ele queria ter. Fosse verdade, já teria metido um bom par de chifres naquela cabeça imunda. Ele bem que merecia. Infeliz. Onde já se viu? Achar que ela aceitaria uma situação daquelas. O que ele pensava da vida? O que ele pensava dela?
Clara nunca reclamou das esquisitices dele. Aceitava as taras do marido. Sujeitava-se, vá lá. Mas era melhor que ele tivesse em casa do que procurasse na rua. Mesmo o que não fosse bom para ela. Mas tudo tem o seu limite. Uma situação daquelas, ela nunca permitiria. A culpa foi dela mesma. Devia ter mantido os olhos mais abertos. Não faltaram sinais. Desde que a sua irmã se separou do marido e veio morar com eles. Não queria ela em casa. Mas ele ofereceu abrigo sem consultá-la. Ela reclamou, podiam perder a liberdade. Ele bateu pé, disse que era sangue da esposa, não podia ficar na rua. Ela cedeu por pena da irmã. Teve medo de mais tarde vir a sentir algum remorso. No princípio até achou bom. As brigas com o marido diminuíram. A presença da irmã inibia as suas explosões de ódio. Percebeu que ele já não era o mesmo. Procurava ser amável para impressionar. Tratava bem as duas. Chegava cedo para jantarem juntos. Trazia vinho e doces. Mimos que há muito não fazia. Até mesmo o noticiário da TV foi trocado pela novela do outro canal. Sem reclamações. Viu de novo o homem que conquistou seu coração. Relaxou a guarda. Permitiu que a irmã também agradasse o marido. E essa soube aproveitar a situação. Fez doce e salgado. Lenço bordado com iniciais, remendos apurados nas meias, botões reforçados nos blusões. Prendas de um lar que não era seu. Assumiu parte das obrigações de esposa. Carinhos para um marido que não era seu. A esposa de verdade achou tudo normal. Uma forma de retribuição. Ele não poupou elogios. Nem mendigou amabilidades. Sempre comparando as duas, nisso ou naquilo. Num tempero de feijão mais gostoso. Numa cerveja melhor servida. Mesmo no bife de fígado, que ele sempre dizia que só a esposa fazia ao seu gosto. Até nisso comparou. Dando vantagens aos feitos da cunhada. Tudo bem para a esposa, que trabalhava menos. Mas também tinha menos espaço em sua própria casa. Que assim fosse. Que se visse aonde aquilo iria dar. Em boa coisa não poderia ser. Não deu outra. Com o passar dos dias o marido voltou a fustigar Clara. No início, sozinhos. Na cama. Reclamando de um sexo mal feito. De uma vontade mal atendida. De uma menstruação fora de hora. De nada. Depois passou a desfeita-la na frente da irmã. Essa baixava os olhos e saía de perto. Buscava o seu quarto. Ato de fuga ou conivência. Não tentava apaziguar os ânimos. Nem defender esse ou aquele. Simplesmente saía de perto. Abandonava o casal sozinho. Ele aos berros. Ela aos prantos. Nunca ofereceu uma palavra de apoio à Clara. Nem antes nem depois das brigas.
Certa vez jantavam calados. Olhos baixos nos pratos. Ele disse que tinha duas entradas para o teatro. Clara disse que se aprontaria depois da refeição. Ele disse que não. Era mais justo um sorteio entre ela e a irmã. Ambas trabalhavam na casa. Clara ficou surpresa e explodiu. Ela era a esposa, a dona da casa. Ele não disfarçou a rigidez, dizendo que o sorteio seria mais justo. Clara não quis a humilhação. Que levasse a outra com ele. Para ele tudo bem. A outra não disse nada. Mostrava as garras na mudez permissiva. Mas insinuou um sorriso no olhar.
Clara ouviu os dois saindo. Amaldiçoou o marido e a irmã. Maldisse o dia que ela pôs os pés na sua casa. Chorou e sofreu sozinha, na cama. Pensou em milhões de vinganças. Mas sofrer e odiar cansa. Acabou dormindo. Acordou horas mais tarde. Ainda estava sozinha na cama. A amargura havia ressecado a sua boca. Foi beber água. Pensou nos dois. Já deveriam ter voltado. Mas a sua cama estava vazia. Foi então que um pensamento pesou o seu coração. Um fio de aço estrangulou seu estômago. Levou as mãos à boca para sufocar o desespero. Não podia ser. Isso não!
Caminhou na direção do quarto onde dormia a irmã. Pensou em voltar a cada passo. Mas quanto mais se aproximava, mais alto soava o seu desgosto. Até que viu o que os seus olhos não queriam. A irmã e o marido. O marido e a irmã. Os dois juntos. Mosaico de pernas e braços. Tudo o que ela fazia com ele, a irmã repetia. As mesmas taras. As mesmas esquisitices. Só que a irmã parecia gostar. Viu prazer em seu rosto. Viu satisfação na sua entrega às sujeiras dele. Estava gostando a safada. Cadela. Vadia. Puta. Decepção e ódio se alternaram com rapidez. Clara não conseguia se conter. Pensou em gritar, invadir e espancar os dois. Mas era pouco. Muito pouco. Era preciso mais. Era preciso que a sua dor fosse deles. Que a dor deles fosse a sua vingança. Conseguiu se conter. Cravou os dentes na própria mão. Mastigou sua angustia. Engoliu em seco e voltou para a sua cama.
A vingança é instintiva e faz do vingador um forte. Um determinado. Um criativo da obsessão. Por isso clara esperou em silêncio. Por isso cedeu em silêncio, quando o marido procurou seu leito e requisitou seu corpo. A irmã não lhe bastou. Queria mais carne o canibal. E assim foi. Calar sem compartilhar. Amar sem sentir. Provar sem gosto. Chorar sem lágrimas. Até que a fúria da besta se esvaiu, enchendo seu corpo de lixo. Molhando seu rosto de baba. Sujando sua vida de merda.
Clara levantou cedo como sempre. A irmã a seguiu. Nenhuma palavra foi dita. Prepararam o café com a certeza do óbvio. Um encontro de olhares poria tudo a perder. Serviu o marido. Serviu o cunhado. Serviu-se das duas. Saiu refestelado.
Clara foi atriz. Interpretou o papel da dor contida. Seria por pouco tempo. A farsa seguiu em todos, como um acordo tácito. Nada se revelou. Nada se reparou por todo o dia. Nem quando clara calça luvas de limpeza e esconde aquela faca. Essa de aço longo, que a irmã usou para fatiar o fígado em bifes. Carne de outros prazeres. Foi discreta naquele momento, porque sempre foi assim. Seguiu muda nas horas do dia. Permitiu a companhia permissiva. Almoçaram as duas. Lancharam as duas. Jantaram os três. E outra vez a noite trouxe os rituais da besta. Dos leitos que se invertem. Das camas que se multiplicam. Dos corpos que se repartem. Das almas que se deixam subjugar. Até que novamente ocorra o esvair de lixo. O molhar da baba. A vida de merda.
Quando a faca desceu os olhos do marido se abriram. E assim permaneceram até que Clara conseguiu conter o seu ímpeto. Firme. Decidida. Cansada. Continuou chorando sem lágrimas. Olhava com raiva aquele rosto assustado e sem vida. Poderia ter fechado os seus olhos. Mas não fechou. Ele deveria assistir ao fim. Como ela assistiu, na noite passada. Mas ele não bastava. Faltava castigar a outra. Sem morte. É sangue dos seus. Deixasse estar que a sua hora já estava marcada. O dela já estava guardado. Segurou o pênis do marido. Instrumento de tortura. Início e fim do seu martírio. Emissário dos esgotos de uma mente podre. Um mal que deve ser cortado pela raiz. Viu graça na situação. Mas continuou contrita. Terminou o que havia começado e saiu, enquanto não havia luz. Foi à cozinha e temperou com o capricho o regalo macabro. Guarneceu com batatas e ovos cozidos. Cobriu com papel alumínio e guardou no forno. Estava pronto. A irmã teria o seu prato preferido. A faca foi para a gaveta do armário. Suja do sangue maldito. Assinada com as digitais da traição. Voltou ao quarto. Ele permanecia lá. Inerte. Com os olhos fixos na escuridão eterna. Tomou banho. Limpou-se da morte. Vestiu sua roupa de festa. Juntou o que sobrou daquela vida em duas malas e saiu. Sem carregar nenhum remorso.
09 fevereiro 2007
Mulheres de tantas lutas e labutas
de tantas dores e amores
de dias e noites em claro
à espera do amado
Mulheres quentes e ardentes
que dançam e bailam ao luar
que cantam o amor adolescente
e adoram se desnudar
Ser mulher é muito fácil
difícil é saber
entre tantas mulheres que somos
qual mais amamos ou odiamos
Difícil é descobrir qual delas deverá
brilhar ou se ocultar
quando seus olhos se encontram
ao brilho de um outro olhar
Nada fácil saber
qual delas ser
quando tudo que o amado quer
é ter só alguém para ficar
e de amor jamais falar
Quero que todas as mulheres
que guardam tantas mulheres
possam encontrar felicidade
vivendo todas elas
além dos seus medos e segredos.
ousando realizar seus desejos06 fevereiro 2007
Quase ela deu o sim; mas...
(Lima Barreto)
JOÃO CAZU era um moço suburbano, forte e saudável, mas pouco ativo e amigo do trabalho.
Vivia em casa dos tios, numa estação de subúrbios, onde tinha moradia, comida, roupa, calçado e algum dinheiro que a sua bondosa tia e madrinha lhe dava para os cigarros.
Ele, porém, não os comprava; "filava-os" dos outros. "Refundia" os níqueis que lhe dava a tia, para flores a dar às namoradas e comprar bilhetes de tômbolas, nos vários "mafuás", mais ou menos eclesiásticos, que há por aquelas redondezas.
O conhecimento do seu hábito de "filar" cigarros aos camaradas e amigos, estava tão espalhado que, mal um deles o via, logo tirava da algibeira um cigarro; e, antes de saudá-lo, dizia:
-Toma lá o cigarro, Cazu.
Vivia assim muito bem, sem ambições nem tenções. A maior parte do dia, especialmente a tarde, empregava ele, com outros companheiros, em dar loucos pontapés, numa bola, tendo por arena um terreno baldio das vizinhanças da residência dele ou melhor: dos seus tios e padrinhos.
Contudo, ainda não estava satisfeito. Restava-lhe a grave preocupação de encontrar quem lhe lavasse e engomasse a roupa, remendasse as calças e outras peças do vestuário, cerzisse as meias, etc., etc.
Em resumo: ele queria uma mulher, uma esposa, adaptável ao seu jeito descansado.
Tinha visto falar em sujeitos que se casam com moças ricas e não precisam trabalhar; em outros que esposam professoras e adquirem a meritória profissão de "maridos da professora"; ele, porém, não aspirava a tanto.
Apesar disso, não desanimou de descobrir uma mulher que lhe servis convenientemente.
Continuou a jogar displicentemente, o seu football vagabundo e a viver cheio de segurança e abundância com os seus tios e padrinhos.
Certo dia, passando pela porteira da casa de uma sua vizinha mais ou menos conhecida, ela lhe pediu:
- "Seu" Cazu, o senhor vai até à estação?
- Vou, Dona Ermelinda.
- Podia me fazer um favor?
- Pois não.
- É ver se o "Seu" Gustavo da padaria "Rosa de Ouro", me pode ceder duas estampilhas de seiscentos réis. Tenho que fazer um requerimento ao Tesouro, sobre coisas do meu montepio, com urgência, precisava muito.
- Não há dúvida, minha senhora.
Cazu, dizendo isto, pensava de si para si: ,'É um bom partido. Tem montepio, é viúva; o diabo são os filhos!" Dona Ermelinda, à vista da resposta dele, disse:
- Está aqui o dinheiro.
Conquanto dissesse várias vezes que não precisava daquilo - o dinheiro - o impenitente jogador de football e feliz hóspede dos tios, foi embolsando os nicolaus, por causa das dúvidas.
Fez o que tinha a fazer na estação, adquiriu as estampilhas e voltou para entregá-las à viúva.
De fato, Dona Ermelinda era viúva de um contínuo ou cousa parecida de uma repartição pública. Viúva e com pouco mais de trinta anos, nada se falava da sua reputação.
Tinha uma filha e um filho que educava com grande desvelo e muito sacrifício.
Era proprietária do pequeno chalet onde morava, em cujo quintal havia laranjeiras e algumas outras árvores frutíferas.
Fora o seu falecido marido que o adquirira com o produto de uma "sorte" na loteria; e, se ela, com a morte do esposo, o salvara das garras de escrivães, escreventes, meirinhos, solicitadores e advogados "mambembes", devia-o à precaução do marido que comprara a casa, em nome dela.
Assim mesmo, tinha sido preciso a intervenção do seu compadre, o Capitão Hermenegildo, a fim de remover os obstáculos que certos " águias" começavam a pôr, para impedir que ela entrasse em plena posse do imóvel e abocanhar-lhe afinal o seu chalézito humilde.
De volta, Cazu bateu à porta da viúva que trabalhava no interior, com cujo rendimento ela conseguia aumentar de muito o módico, senão irrisório montepio, de modo a conseguir fazer face às despesas mensais com ela e os filhos.
Percebendo a pobre viúva que era o Cazu, sem se levantar da máquina, gritou:
- Entre, "Seu" Cazu.
Estava só, os filhos ainda não tinham vindo do colégio. Cazu entrou.
Após entregar as estampilhas, quis o rapaz retirar-se; mas foi obstado por Ermelinda nestes termos:
- Espere um pouco, "Seu" Cazu. Vamos tomar café.
Ele aceitou e, embora, ambos se serviram da infusão da "preciosa rubiácea" , como se diz no estilo "valorização".
A viúva, tomando café, acompanhado com pão e manteiga, pôs-se a olhar o companheiro com certo interesse. Ele notou e fez-se amável e galante, demorando em esvaziar a xícara. A viuvinha sorria interiormente de contentamento. Cazu pensou com os seus botões: "Está aí um bom partido: casa própria, montepio, renda das costuras; e além de tudo, há de lavar-me e consertar a roupa. Se calhou, fico livre das censuras da tia..."
Essa vaga tenção ganhou mais corpo, quando a viúva, olhando-lhe a camisa, perguntou:
- "Seu " Cazu, se eu lhe disser uma cousa, o senhor fica zangado?
- Ora, qual, Dona Ermelinda?
- Bem. A sua camisa está rasgada no peito. O senhor traz " ela" amanhã, que eu conserto "ela".
Cazu respondeu que era preciso lavá-la primeiro; mas a viúva prontificou-se em fazer isso também. O player dos pontapés, fingindo relutância no começo, aceitou afinal; e doido por isso estava ele, pois era uma " entrada" , para obter uma lavadeira em condições favoráveis.
Dito e feito: daí em diante, com jeito e manha, ele conseguiu que a viúva se fizesse a sua lavadeira bem em conta.
Cazu, após tal conquista, redobrou de atividade no football, abandonou os biscates e não dava um passo, para obter emprego. Que é que ele queria mais? Tinha tudo...
Na redondeza, passavam como noivos; mas não eram, nem mesmo namorados declarados.
Havia entre ambos, unicamente um " namoro de caboclo", com o que Cazu ganhou uma lavadeira, sem nenhuma exigência monetária e cultivava-o carinhosamente.
Um belo dia, após ano e pouco de tal namoro, houve um casamento na casa dos tios do diligente jogador de football. Ele, à vista da cerimônia e da festa, pensou: "Porque também eu não me caso? Porque eu não peço Ermelinda em casamento? Ela aceita, por certo; e eu..."
Matutou domingo, pois o casamento tinha sido no sábado; refletiu segunda e, na terça, cheio de coragem, chegou-se à Ermelinda e pediu-a em casamento.
- É grave isto, Cazu. Olhe que sou viúva e com dois filhos!
- Tratava " eles" bem; eu juro!
- Está bem. Sexta-feira, você vem cedo, para almoçar comigo e eu dou a resposta.
Assim foi feito. Cazu chegou cedo e os dous estiveram a conversar. ela, com toda a naturalidade, e ele, cheio de ansiedade e, apreensivo.
Num dado momento, Ermelinda foi até à gaveta de um móvel e tirou de lá um papel.
- Cazu - disse ela, tendo o papel na mão - você vai à venda e à quitanda e compra o que está aqui nesta "nota". É para o almoço.
Cazu agarrou trêmulo o papelucho e pôs-se a ler o seguinte:
1 quilo de feijão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 600 rs.
1/2 de farinha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
1/2 de bacalhau . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 1.200 rs.
1/2 de batatas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 360 rs.
Cebolas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .200 rs.
Alhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
Azeite . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 300 rs.
Sal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
Vinagre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3.260 rs.
Quitanda:
Carvão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 280 rs.
Couve . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
Salsa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
Cebolinha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
tudo: . . . . . . . . . . . 3.860 rs.
Acabada a leitura, Cazu não se levantou logo da cadeira; e, com a lista na mão, a olhar de um lado a outro, parecia atordoado, estuporado.
- Anda Cazu, fez a viúva. Assim, demorando, o almoço fica tarde...
- É que...
- Que há ?
- Não tenho dinheiro.
Mas você não quer casar comigo? É mostrar atividade meu filho! Dê os seus passos... Vá! Um chefe de família não se atrapalha... É agir !
João Cazu, tendo a lista de gêneros na mão, ergueu-se da cadeira, saiu e não mais voltou...
No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.
O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!
Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.
Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.
Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.
Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.
Ingredients:
— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.
— Mas não quero ser nada disso.
— Então quer ser vagabundo?
— Quero trabalhar.
— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.
— Eu não acho.
— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.
Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!
Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:
— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...
O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:
— A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.
— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?
Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.
No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.
Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.
— É doido, mas bom.
Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.
— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...
— É da tua má cabeça, meu filho.
— Qual?
— A tua cabeça não regula.
— Quem sabe?
Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.
— Só caso se o senhor tomar juízo.
— Mas que chama você juízo?
— Ser como os mais.
— Então você gosta de mim?
— E por isso é que só caso depois.
Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.
Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.
— Traz algum relógio?
— Trago a minha cabeça.
— Ah! Desarranjada?
— Dizem-no, pelo menos.
— Em todo o caso, há tempo?
— Desde que nasci.
— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...
Antenor atalhou:
— E o senhor fica com a minha cabeça?
— Se a deixar.
— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...
— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.
— Regula?
— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.
Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.
Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.
Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.
— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!
Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.
— Há tempos deixei aqui uma cabeça.
— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.
— Ah! fez Antenor.
— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...
— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.
— Mas a minha cabeça?
— Vou buscá-la.
Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.
— Consertou-a?
— Não.
— Então, desarranjo grande?
O homem recuou.
— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.
Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.
— Faça o obséquio de embrulhá-la.
— Não a coloca?
— Não.
— V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.
Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.
— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.
— Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.
Antenor ficou seco.
— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.
E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.
03 fevereiro 2007
“O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira” (Ezra Pound)
Cartinha pros eternos ilhéus:
Atrevo-me, mesmo, a desdizer “As Origens” e gritar que Não ! Não havia terra informe e vazia sob as trevas. Havia a Ilha – e eu nela. Daí vieram o Fiat Lux, o firmamento entre as águas, o elemento árido, as plantas (todas as da Ilha: de jaca, de fruta-pão, de tamarindo, de amêndoa e de muitas, muitas mangas).
Da Ilha nasceram os luzeiros: o sol abrasador - que torna as águas tépidas -, as infinitas estrelas (e, talvez, os aviões rumo ao pouso noturno) e uma lua incomensurável, amarelo-avermelhada, indescritível para quem nunca viu. E quando o Criador, no quinto dia, lembrou-se de seres marinhos que pululassem as águas, é certo que pensava em siris graúdos e azuis, camarões habitantes das algas que se misturam nas espumas das marolas, mexilhões, cocorocas ronronantes e carapicús prateados, entretanto a Escritura menciona também os monstros marinhos, a saber (quem pesca, entende): bagres traiçoeiros de perversos aguilhões, peixes-voadores, ouriços, baiacús e marias-da-toca.
Também criou pássaros, como os bem-te-vis, gaivotas, fragatas. Canoros ou não, todos adoráveis. O Texto esquece-se, porém, de outra espécie voadora. A cigarra deve ter sido dada à luz também no quinto dia, pois está lá, na Ilha, para quem sempre espera um dia seguinte de pleno sol. Depois veio toda sorte de animal. Cachorros às pencas, cavalos e suas charretes, gatos indolentes e uma infinidade de morcegos.
Por fim, no sexto dia, viemos. Animais outros, à imagem e semelhança do Divino. Criados a fim de reinar sobre tudo, e, para Divino desencargo, arrojar corpos nas areias noturnas da praia da Imbuca e multiplicar (ou não), fornicando até as primeiras luzes da aurora, exalando contagiantes odores acres, ralando joelhos. Aliás, sobre os joelhos, paira-me um quê de dúvida sobre a justiça do descanso do sétimo dia. Mas, tudo bem, depois o homem inventou o mercurocromo.
Agarro-me a esse universo mitológico, tão próprio, no momento em que soa a sirene da estação anunciando o fechamento dos portões e a barca range, lotada, contra o cais flutuante, soando três apitos. Sentado na boca aberta da proa, olhos marejados, ouço o ronco cansado da casa de máquinas. Sinto-o vibrando como vibra em mim a saudade antecipada de quem veio passar apenas um dia na Ilha, depois de tantos verões e férias inteiras que pareciam eternas enquanto duravam (perdoe, poeta, não resisti). Afastam-se o cais, a igreja, a orla já acesa, o cheiro dos quitutes da baiana.
Atualmente é assim. Venho, deixo o dia e levo os sonhos. As horas fluem pelas pedaladas da bicicleta alugada. Desejo de rever tudo, onipresente, circulando sobre, dentro, através de mim mesmo, também eu feito daquele saibro das ruas da Ilha. É fome extraordinária que domina. Praia da Guarda, Lido, Ponte dos Suspiros, praia da Moreninha e lágrimas índias, ilha de Brocoió, mercadinho, Tomaz Cerqueira e seu castelinho, que nunca saiu da memória. Campo. São Roque, praia dos Coqueiros dos primeiros poemas noturnos, Praia do Boqueirão. Sigo, contorno, desço, peço benção à Maria-gorda, escrava plantada em sofrimento. A cãibra repuxa, não ligo.
Caramanchão, charretes, Hotel Flamboyant (como chamá-lo de outra forma?). Casa da Moreninha, Iate Clube de mergulhos inesquecíveis. Depois do Porto dos Cachorros, sento no banquinho de pedra e olho a vizinha ilha dos Lobos. Circula na família a história de que meu avô quase a comprou um dia (e nós sempre sonhamos com isso). Subo pela rua da delegacia até o cemitério. De gentes e passarinhos. Ali aprendi que ler sob as sombras das árvores, recostado em algum túmulo era uma forma de mergulhar em mim mesmo, vinculando-me radicalmente ao universal, no paradoxo mais delicioso que existe. Ou então, menos cultural (diriam), mas não menos gozoso, esperar escondido naquele lugar, disfarçado de alma-penada, pelo fim dos bailes de carnaval e a passagem dos foliões que ao ver tal assombro, esqueciam o estado estafante - overdose de marchas-rancho - em que se encontravam, para disparar de medo e susto.
Agora é descida até a praia. Os pés espantam peixinhos miúdos e rebatizo corpo e alma nas águas da Ilha. Mais pedal, tempo de retorno, já são horas. Rememoro o dia que passou e dispo-me do adolescente (nunca o faço verdadeiramente; finjo).
Dói o revés das máquinas que tramam o rodopio que levará ao caminho único da Praça Quinze. Na volta que dá sobre si mesma, a barca exibe a Serra dos Órgãos, Dedo de Deus, Verruga do Padre. Corro à popa. Uma lágrima contribui com o mar salgado do Pessoa que invade essa baía. A água, ao largo, tem a cor da garapa; junto à espuma dos motores, mate espumante. Bebo disso tudo. Revigoro-me pensando que nada é para sempre e, por um momento, volto a ser a criança que, na despedida, já esperava as férias seguintes. Nunca houve adeus; um eterno até breve.
A barca contorna a Ilha. O cais da Mesbla... Dali não se podia mergulhar para fora. Rezava a lenda que além do deck existiam fogões jogados no mar e outros lixos e, ademais, monstros marinhos. Respeitosos ao dogma, mergulhávamos para dentro, em direção a praia, na enorme piscina formada pelo quebra-mar. Passo pela Praça do Lixo lamentando tudo o que não revi dessa vez e então, botos debochados corcoveiam, despedindo-se das caras tristes que se vão para a Babilônia como degredados do paraíso. Mais água, muito mais saudade. O pescoço vira-se, entorta para ver a ponta do Parque. Do outro lado a Pedra do Raio, a ilha da Luz del Fuego, Ponte Rio-Niterói. Um avião de rabo laranja traz o presente (antes os rabos eram apenas azuis). A Ilha fica para trás, estando sempre dentro.
Ilha, querida, não lhe pronuncio o nome. De tão infinita, é entidade maior que nos absorve a todos. Maior do que sou, maior do que vô e vó que originaram a paixão, do que primos e primas, irmão, mãe, tio e tia que lhe vivemos.
Volto no ano que vem.
Prometo.
10 novembro 2006
Ele morava sozinho, trabalhava até tarde e quando voltava para casa gostava de beber uma ou duas doses de cachaça, coisa fina, de Salinas, antes de dormir. Chapava o sono dos justos até as duas da manhã, quando, incondicionalmente, levantava noctâmbulo para fazer xixi.
Colocava o bingulim para fora e jorrava a cachoeira. Chhhh. A média era de quarenta e sete segundo. Quanto mais bebia, mais mijava.
Numa reunião do condomínio, as velhas do edifício se revoltaram.
- Não é possível. – Gritou dona Jô. – Precisamos punir esse miserável. Toda noite acordo com o barulho daquele homem horroroso urinando como um cavalo.
- É isso mesmo. – Concordaram outras sete senhoras. De onde surgiu tanta velha?
- Devemos impor a lei do silêncio noturno, - Dona Jô, a líder - proibindo urinadas barulhentas.
- E os peidinhos também. – Completou dona Tereza, que chegara agora e já tomava parte. As outras senhoras a olharam envergonhadas. – Ele solta uns peidinhos apertados durante o xixi. Prá, parará.
- Certo. – Contornou dona Jô. – A lei do silêncio abrange flatos repetidos.
- E peidinhos. – Lembrou dona Tereza.
- E peidinhos. – Assentiu a líder. – Vamos votar?
O homem leu no elevador a Ata: “Por sugestão das comissão das senhoras do Condomínio, foi votado e acordado que, após as dez horas da noite, toda urinada masculina deverá ser realizada sem barulho. As senhoras sugeriram que os homens, principalmente o do apartamento 505 – ele próprio – façam suas necessidades sentados no vaso sanitário” . Quase caiu para trás de susto e, recuperado, apoiou-se para rir do absurdo daquela convenção.
Bebeu o de sempre e foi dormir, mas preocupado em não fazer barulho quando acordasse para urinar. Sempre tivera esse hábito, levantava da cama e procurava o vaso sanitário de olhos fechados para soltar a urina. A única coisa que fazia conscientemente era tentar manter o jato no meio da água para ter certeza que não estava errando o alvo. Daí vinha o barulho.
Agora, as senhoras do condomínio queriam que ele parasse de mijar em pé para resignar-se sentado como uma dama. Jamais. Só mijava sentado quando evacuava.
Às duas, levantou-se, foi ao banheiro, soltou o xixi e respirou fundo, aliviado. Só então se lembrou das velhinhas do condomínio. Ela deviam estar com os ouvidos colados aos vitrôs de seus banheiros para ver se a ordem seria obedecida. Achou engraçado e soltou uma leve risada.
No dia seguinte, logo cedo, dona Tereza aprontou o maior escarcéu na casa do síndico.
- Ele riu. Gargalhou. – Falou exaltada. – O mijador está caçoando de nós.
- Isso mesmo. – Dona Jô foi a segunda a aparecer. – Está nos achincalhando.
Antes que as outras sete senhoras aparecessem, o síndico resolveu conversar com o morador do 505. Foi ao seu apartamento e relatou a situação.
- Desculpe-me, – Explicou o homem. – mas não consigo controlar. Quando vejo, já estou mijando.
- Então mije sentado! – Pediu o síndico.
- Mije você, oras. – Respondeu de bate-pronto. Fechou a porta, ofendido.
De noite, bebeu mais que o costume pois ficou chateado com a história. Que audácia! Com que autoridade queriam definir sua maneira de mijar? Enquanto remoia sua irritação, mandava a cachaça para dentro.
Acordou, como de costume, às duas. Foi trôpego para a privada mas não mijou, vomitou até as tripas. Arrotos entrecortavam o fluxo de bebida mal-digerida que escorria da garganta. Gemeu como um bebê durante o processo e acabou abraçado à privada até de manhã.
A campainha tocou. Arrastou-se até a porta. Ele sabia que era alguma das velhas, aquelas bruxas. A dor de cabeça da ressaca parecia rachar seu crânio. O sala girava enquanto ele tentava destrancar a porta. Pelo mal-estar que sentia, tinha certeza que não agüentaria mais desaforos e mandaria todos para os quintos dos infernos.
Era a dona Tereza. Com olhar de reprovação, trazia às mãos uma xícara coberta por um lenço.
- Veja você, em que estado se encontra. – Entrou pelo apartamento empurrando o combalido homem ao sofá. – Descanse. Beba isso. – Destampou a xícara. – É chá de boldo.
O homem bebeu um gole. Não entendia bem o que acontecia, mas sentiu-se melhor com o líquido quente.
- Está com dor de cabeça? – Perguntou dona Tereza, voltando da cozinha com um grande copo de água e uma novalgina. – Engula, encoste a cabeça e durma um pouco. – Antes de sair olhou para trás para conferir se tudo estava bem. – A ressaca vai passar.
O homem tirou uma soneca. Acordou com dona Jô o observando.
- Finalmente. – Sumiu pela cozinha e voltou com pães fumegantes numa cesta. – Coma o miolo, para limpar o estômago.
Naquela noite o homem não bebeu mas acordou às duas horas como de hábito. Foi ao banheiro, sonâmbulo. Puxou o pênis para fora e, de súbito, acordou por completo. Sentou-se no vaso sanitário e fez o serviço. Apagou a luz e voltou para a cama, sentindo-se muito bem.
- Boa noite. – Ele sonhou que ouviu saindo do vitrô de seu banheiro antes de dormir


