Sign by Dealighted - Coupons and Deals

10 junho 2010

A MORTE E A MORTE DE VANNEVAR E THEODORE

NO REINO CÓSMICO, HIPERTEXTUAL E ONÍRICO

DE LEVY, BORGES E CARTOLA


(Um conto-exaltação acadêmico)


-1-

Então caímos prostrados frente àquilo e choramos. Choramos copiosamente, Adso e eu. Era a resposta, e a resposta, constatamos, nunca esteve longe de nós, senão dentro. Era tudo. O que sempre foi, é e será. O tempo todo. Comandado pelos nossos próprios processos mentais automáticos. Choramos como se fôssemos secar o mundo. Éramos, enfim, o Todo e parte Dele enquanto

mirávamos aquele ponto onde Ele Se escondia, entre os degraus de nossa infinita escada. Amplificação dos conhecimentos do mundo.


Adso havia embarcado comigo naquela aventura. Seu motivo era como o meu, mas algo existia a mais que nos imantava àquela procura. Disso, também em dupla, tínhamos certeza, e cada um de nós sabia ser essa a impressão do outro, sem que para isto precisássemos tocar no assunto. Apenas íamos, tocados pelo nosso intento e pela tremenda atração que a algum lugar nos levaria. Tínhamos certeza.


-2-


Sei que adormeci na sala de tv enquanto assistia a uma reprise de uma partida qualquer de futebol. Dormir no sofá... Esporte de sábado a noite.


Ouvi minha filha gritar. Um uivo dorido e materializado que cortava os espaços da casa como faca. Acorri em sua direção. Vinha do pequeno escritório-biblioteca que mantínhamos em casa, no antigo quarto de empregada, repouso de nossos livros, nossos estudos e, da máquina. Máquina moderna. A melhor possível para uso doméstico. Vários gigas, megas, teras, hertzs, putzs... Comprado num sacrifício de 36 prestações no melhor hipermercado da cidade.


Ela estava na internet e eu sabia. Minha pequena Priscila, 11 anos, já era quase uma cracker como ela dizia ser (vá saber-se o que significa isto... a mim lembrava insossos biscoitos quadrados... mas essas crianças de hoje...).

O pequeno e delicado mouse cor de rosa, com olhinhos pintados em seus botões e saída do fio reencapado de preto para dar a impressão de um rabo de ratinho de verdade balançava no nada, pendente de seu pad (estes anglicismos ainda me matam). Procurei na casa inteira, apavorado, pela minha pequenina. Nada. Portas e janelas permaneciam trancadas. Minha esposa dormia profundamente. Acontecera ?


Na tela do PC, piscava a última mensagem recebida por Pri. Era da Eduarda, filha do Adso do 201, as duas eram, além de vizinhas, colegas de classe:


    • Tbm descobri, Pri, vc naum tá sozinha na fita. Tamu juntas miga !!


Que merda de coisa esta merda quer dizer ?


Tudo bem, calma, pensei. Vamos lá, devagar, deve ser: “Também descobri, Pri. Você não está sozinha nesta história. Estamos juntas, amiga !


Em tanta coisa poderiam estar juntas... Mas pelo computador ? Sim, claro ! Priscila me falou que estava desenvolvendo um blog com a Eduarda:


    • Blog, véi. Uma espécie de diário internético. Blog. Web Log.

    • Ah , tá. Isso não é perigoso, filha ? Não vai te expor muito para os outros “na rede”(eu também já tinha minhas gírias) ?

    • Não, pai. Não é para o mundo todo ver. Só eu e a Du seremos quem vai saber o endereço. Tipo assim: só a gente sabe, mas se quisermos que alguém mais saiba, a gente conta o endereço.

    • Daqui de casa ? (burro, interanta !)

    • Do blog pai, ô, se liga prego !

    • Então tá, filha, confio em vocês.

Desespero. Estava na mesma. Eu sabia que aquele blog não iria dar certo. Era ele, só podia ser o danado do blog. A internet chupou minha filha para suas entranhas, só podia ser. Maldita hora em que comprei o computador.


-3-


A campainha tocou. Adso. Sabia, abri a porta sabendo. Cara de desespero, como a minha.

    • Sumiu, bicho, sumiu. Estava no computador (agora é assim, todos estão no computador, nunca se sabe se dentro, atuando ou fora, voyerizando) ... De repente, nada. Sumiu. Virou nada.

    • Inferno. A Pri também. Estavam conversando no messenger. Eu vi o recado da sua filha na tela. Tem alguma idéia ?

    • Vizinhas de porta, mesmo andar, pra que conversar pelo computador ? Sei que elas estavam construindo um blog juntas. A Eduarda me falou que estava tentando achar uma forma de colar algumas dolls de um site que elas gostam, para por no blog delas.

    • Construindo ? Então era algo tangível ?

    • Não, maneira de falar, estavam criando, bolando...

    • Mas aí já temos uma pista, mas como procurar ? Vamos no escritório aqui de casa, talvez achemos algo. Você entende de computador ?

    • Um pouco (um pouco era muito mais que eu imaginava. Ele era analista de sistemas, falou aquilo para não me humilhar).


Nova mensagem no messenger, e agora muito mais estranha já que não havia mais Pri, nem Du:


A DOENÇA ESTÁ CONVOSCO. EXPLORE A JANELA. OS PORTÕES DE GUILHERME. VÁ AOS PORTÕES DE GUILHERME ESTUDAR E LER.

:-P


    • Adso, e agora ? Isto não diz nada para mim. Manda-nos estudar e ler. Será que vamos ter que ir na escola ? Que doença é esta ? Explorar qual janela ? Estão fechadas, todas as da casa. Não foi por lá que minha filha saiu. E quem é este Guilherme ? Estudar e ler... boa... só faltou me mandar para uma biblioteca... Nada bate, entende ? Nada bate ! E este símbolo: dois pontos, hífen, pê.

    • Calma. Tem algo a ver com internet. Achamos que ela as sugou, certo ?

    • Hã hã...

    • Este símbolo eu conheço. As crianças utilizam como uma careta, veja bem: dois olhos, nariz e língua de fora. Doença, vírus. Explore a janela, óbvio: windows explorer, portões de Guilherme, portões de Guilherme... Nada.

    • Se é tudo em inglês como parece, portões de Guilherme pode ser The Gates of William. (Há ! Ponto pra mim. O internético era ele, mas eu sou professor de inglês e francês, com muita honra e baixo salário).

    • Bingo !

    • O quê ?

    • The Gates of William. William. Bill. Gate. Bill`s gate. Bill Gates !


Fomos procurar pistas no windows explorer. Adso achou o tal vírus instaladinho, instaladinho na máquina.


    • Vou ter que abrir o vírus, você se importa ?

    • Por quê ?

    • Porque, de repente vai perder tudo o que tem aí, vamos ter que formatar depois.

    • Deixa de internetiquês e abre esta merda desse filho da puta desse corno desse vírus.


Dois cliques. Tudo azul escuro. Não na tela. Em torno de nós dois. Um monte de bonequinhas (as tais dolls) aparecem voando. Milhares delas, Lisergia total. Eu toco em uma com meu indicador. Uma vez. Duas vezes. Duplo clique... fudeeeeeuuuuuuuu...


Descemos numa espécie de toboágua a seco. Uma velocidade que se podia medir em cores e alterações delas. Via Adso, não via Adso, via Adso, não via Adso. Caímos no nada. Pesadelo. Portões dourados nos surgem à frente. Em cima, o deboche: Bill`s Gate. Mas não havia como entrar. Sim, era um portão, mas não tinha maçaneta, artifício elétrico, nada. Apenas cordas.

Cordas cheias de nós que pendiam desde o infinito. De cada nó, outras cordas partiam com mais nós ainda. E desses, outros nós, e cordas e nós e cordas... Seguimos uma corda, sem ligar para as outras que partiam dela. Chegamos a uma biblioteca imensa de infinitos corredores, tantos quantos os nós e cordas. Não era medieval a biblioteca. Era moderna, arejada. Organizada por assuntos, coisas de biblioteca. A corda estava amarrada a um livro e eu pensei: para que tanto caminho até a bibioteca se era só puxar a corda até o livro vir até nós ?


-4-


Começamos a pesquisa. Livro por livro, folha por folha, palavra por palavra. Aquilo deveria conter algum código, uma chave que nos levasse a algum lugar. Desce livro, volta livro, uma frase, um caminho, outro livro, e tome corda e nó e mais corda.

Estávamos velhos, eu via no espelho que Adso era. Via nele, a mim mesmo. Encanecido, arqueado. Talvez muitos anos passamos ali, nos corredores, estantes e mesas. Se tivéssemos nossos fígados bicados eternamente, o sofrimento seria menor, e, pior, nenhum recado trazido por Hermes. Hermes. E não é que o velho diabo nos apareceu ?

    • Hermes ?

    • Não, idiota. Bush.

    • George ?

    • Vannevar.

    • Desconheço.

    • Pior para vocês.


E apontou-nos uma sala escura. Fomos. Obedientes ou desesperados. Fomos.


-5-


Assim como as dolls do passado, brilhavam coloridamente no escuro várias repetições de uma frase: browse it ! browse it ! browse it ! Todas em negrito e sublinhadas. Adso:

    • Hiperlink ! Hiperlink !

Gritava louco. Parecia o homem da grua de Cabral a gritar: Terra a vista ! Sem nenhuma dúvida, Adso meteu o dedão de tirar meleca duas vezes num dos browse it ! (professor de inglês será sempre professor de inglês : dê uma olhada ! explore !) Nada aconteceu, além da sala iluminar-se e os browse it ! sumirem todos. Era uma sala comum, nenhum móvel além do grande monolito negro no meio da sala, encimado por uma tv e cercado de potentes caixas de som. Um detalhe: parecia um computador, mas não era. Não tinha teclado.

Uma velha remington, sem rolo e sem alavanquinha de subir a página. Adso, interneticamente mais experiente datilografou no nada: Vannevar.


A ficha era longa na wikipedia. Vannevar Bush, nasceu a tal, fez isto e aquilo e coisa e tal, morreu aos tais de tal de mil novecentos e tal.

    • Como morreu ?

    • Idiota, isto é virtual. O cara tá aí. Pra sempre.

    • Ah ... tá...


Descobrimos que o tal Bush era um gênio do passado que anteviu, ainda que limitadamente, a possibilidade do banco de dados. Chamou sua cria de memex. Enquanto nós pensávamos, a máquina não parava de cuspir informação: depois , um outro deles, Theodore. Esse foi além do Bush. Imaginou a evolução daquilo que era apenas um conceito.

Agora as pessoas falavam e conversavam e consultavam e registravam conhecimento. Uma loucura. A internet antes da internet. O Xanadu conforme Theodore Nelson nominou. Era hipertexto, nada mais era linear, ou, pelo menos, precisava ser. Mas tudo isso nós já sabíamos, era apenas história. De gênios, porém história.

Aquilo que parecia um computador pré-histórico,


    • Memex, seu ignorante ! gritou o Vannevar da porta.


começou a mover-se. Para o lado. Embaixo dele uma escada, descemos. Nos recebeu um simpático anão.



-6-


    • Meu nome é Finis Mentae. Muito prazer. Vocês foram trazidos até aqui para me ajudar. Eu já não aguento mais a função que me deram. Alguém datilografa algo lá em cima e eu saio por corredores para procurar as respostas. Sabem lá o que é isso ? anos e anos trancado neste infinito porão. Pensando, respondendo, estudando, anotando, sou o gerúndio em pessoa, mas cansado de sê-lo. Estudei tanto que evoluí e revolucionei esta porra toda. – chorava muito – mas eles sempre querem mais de mim. Sempre mais. Nunca se cansam. Ainda na virada do século tentei parar tudo. Não deu certo. Os caras lá de cima deram um jeito. Nem greve posso fazer. Tá certo, confesso, criei alguns mecanismos para confundir tudo, prejudicar muitos e atrofiar esta joça toda. Mas eles são poderosos. Criaram mecanismos contra minhas artimanhas.


Adso:


    • Então você é...

    • Sim. Sou. Um analista de sistemas como você, Adso. Criaram-me um engenheiro de tráfego de informações. Eu tinha um metro e noventa, era louro, ganhava bem, muito bem... Tinha mulheres, boas bebidas, carros lindos... E agora... Sou isto o que podem ver. Ajudei a criar tudo e não sou mais nada. Obsoleto.


Adso (cada vez mais técnico e chato):


    • Você criou o bug, os vírus...

    • Sim, e eles me fizeram criar os antivírus, solucionar o bug... Mas agora, já não sirvo mais para eles. Minha matemática não é suficiente para o que desejam. Querem um banco de dados como o cérebro. Eu não sou Deus ! Eu não sou Deus !!!!! Pensei que era, mas não sou.


Sou uma máquina, parte da máquina que ajudei a criar, mas eles querem humanos. Eu não posso mais pensar como humanos. 0001001111000110011


Neste momento fiz um comentário apropriado, espirituoso e inteligentíssimo:


    • Adso ! O que é isto de 0001001111000110011 ? Segura o pouca-sombra... o pintor de rodapé está dando tilt !


O escafandrista de aquário:


    • Passou... Passou. Ajudem-me a completar a máquina. Apenas humanos como vocês podem chegar ao final... ao final... ao final e ao início. O tudo e o todo.

    • Como ?!?!?!?!?! (nós dois, uníssonos)


-7-


    • O Aleph - falou o anão.

    • O quê ?!?!?!? (já estava ficando chato essa história de falar juntinhos)

    • Escutem isto


O anão tirou um LP de dentro do bolso, estalou os dedos e o disco girou no ar, reproduzindo uma história louca. E esta história não era apenas contada. Enquanto as palavras cortavam o ar, nós a vivíamos:


Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera tornassolada, de quase intolerável fulgor. Ao princípio pensei que fosse giratória; logo compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espetáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava aí, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (a lua do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu claramente a via de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos imediatos escrutando-se em mim como em um espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi em um pátio da rua Soler os mesmos ladrilhos que há trinta anos vi no saguão de uma casa em Frey Bentos, vi ramos, neve, tabaco, gretas de metal, vapor d'água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um câncer de mama, vi um círculo de terra seca em uma calçada, onde antes houve uma árvore, vi uma chácara de Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemont Holland, vi a um só tempo cada letra de cada página (quando criança eu costumava maravilhar-me de que as letras de um volume fechado não se misturassem e perdessem no decurso da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um pôr-do-sol em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi em um gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicavam sem fim, vi cavalos de crina como um remoinho, em uma praia do Mar Cáspio na aurora, vi a delicada ossatura de uma mano, vi os sobreviventes de uma batalha enviando cartões postais, vi em uma vitrine de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de umas samambaias no solo de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisontes, marejadas e exércitos, vi todas as formigas que há na terra, vi um astrolábio persa, vi em uma gaveta da escrivaninha (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, incríveis, precisas, que Beatriz havia dirigido a Carlos Argentino, vi um adorado monumento na Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente havia sido Beatriz Viterbo, vi a circulação do meu próprio sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, vi minha cara e minhas vísceras, vi a sua cara, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem jamais olhou: o inconcebível universo.” (Excerto de O Aleph, Jorge Luiz Borges)


-8-


Então caímos prostrados frente àquilo e choramos. Choramos copiosamente, Adso e eu. Era a resposta, e a resposta, constatamos, nunca esteve longe de nós, senão dentro. Era tudo. O que sempre foi, é e será. O tempo todo. Comandado pelos nossos próprios processos mentais automáticos. Choramos como se fôssemos secar o mundo. Éramos, enfim, o Todo e parte Dele enquanto mirávamos aquele ponto onde Ele Se escondia, entre os degraus de nossa infinita escada. Amplificação dos conhecimentos do mundo.


A totalização deles. O absoluto. Nada havia, nada era real, ou o era de uma forma ainda não nos fora dado conhecer até então. Tudo era um eco. Uma onda hertziana perdida no espaço, um eterno dejá vu. Quando começou ? Onde terminará ? Quem poderá dizer ? Nem o pequeno e absoluto Aleph, instrumento do todo, ele também uma mensagem impressa numa onda a reproduzir-se eternamente a cada receptor que encontra. E Adso ? E eu ?


Quem sou eu ?


Pergunte você às rosas... mas, lembre-se: as rosas não falam.



-9-


E o sumiço das meninas ?


Eu falei desde o início que era um sonho no sofá da sala, num modorrento sábado, lembra ?


E que um doutor em comunicação que conte outra.


-*-


01 junho 2010

(Em tempo: Tetelo "Batman", Alexandre e Kinho Vaz)



PERVERSOS PRECOCES
Éramos uma legião de demônios precoces. Não valíamos a bala que roubávamos na quitanda. Nem os sacos que enchíamos com urina, para arremessar nos ônibus lotados. Uma turba vadia, de liberdade indecente, como a nossa condição. Tínhamos a fragilidade das rolinhas que abatíamos por lazer e fome. E a resistência das pequenas eras que crescem nas frestas das calçadas. Éramos seres sem compromissos. Pequenos e pobres como as possibilidades disso mudar.

O nosso tempo só contava após a escola, onde despertávamos remelentos, desgrenhados e sacudidos pelos berros do inspetor. Não éramos rebeldes, pois ainda não conhecíamos a rebeldia. Mas conseguíamos agregar criatividade à ousadia de um jeito agressivo. Tanto que os adultos nunca descartaram a possibilidade de nos mandar para um reformatório. Puro exagero. A nossa perversidade era ingênua. Não tinha nenhum efeito prático, senão o de nos divertir.

Como foi divertido roubar o Ford Bigode do seu Manduca. Uma paixão do velho. Mantido como uma amante. O carro ficava parado o tempo todo, na sua porta. Dali só saía uma vez por mês, dirigido pelo seu Manduca. Sempre num sábado. Ninguém, nunca, descobriu porquê. O velho entrava no carro e a gente provocava para ele reagir. Já vai passear de carroça, Manduca? Sai da frente suas pestes. Sai senão passo por cima, bando de bostinhas. A gente ria dos insultos, mas gostava mesmo de correr ao lado do carro atiçando o velho. Pisa aí Manduca caduca. Essa porra não corre mais que a gente não? Corre mais que o cu da tua mãe, estrupício. Ainda atropelo um! Filhos da puta! Crias de cadela vadia! Netos de mulher da zona... E xingava o que podia, enquanto conseguíamos ficar emparelhados com a janela do carro. Era sempre assim, uma vez por mês, todos os meses. Até o dia em que tivemos a idéia de esconder o Ford Bigode. Uma maldade que quase custou a vida ao homem. Era tarde da noite. O guarda noturno já apitava ao longe. Algumas pancadas de leve na lataria fizeram a maçaneta ceder. Abrimos. Um ficou na direção, o resto empurrou. Paramos o carro umas duas quadras adiante. Fechamos a porta e voltamos pra casa. No dia seguinte estávamos lá, sentados no meio fio, quando o seu Manduca apareceu arrumado para sair. Olhou o espaço vazio na rua e tonteou. Tirou o chapéu panamá e começou a se abanar. As palavras não saíram. Uma brancura de morte tomou conta do seu rosto. A camisa de linho engomada encharcou. Os joelhos dobraram e fizeram o velho escorregar pela parede até o chão. Acode que seu Manduca tá passando mal! Corre que o velho tá morrendo aqui! E toda gente acudiu rápido. Todo mundo saiu de casa pra ver. Porque gente pobre é assim: nem sempre pode ajudar, mas não deixa de conferir. Nós, farsantes, corríamos de cima a baixo atendendo aos pedidos. Pegando água com açúcar pra acalmar. Buscando vinagre, pra esfregar nos pulsos. Uma colher de sal, pra levantar a pressão. Café sem açúcar pra avivar o velho. Deu certo. Manduca falou. Roubaram meu carro! Puta que pariu! Cadê meu carro? Calma seu Manduca, vamos chamar a polícia. Polícia? Fodeu! Vamos ser castigados duas vezes. No cassetete dos meganhas e no fio de ferro da nossa mãe. Agora não teria jeito. Iríamos conhecer o reformatório. Que merda! Mas se o diabo atenta, o anjo da guarda protege. Veio a idéia de procurar o carro. Deve tá perto, seu Manduca. Aquela carroça não andava porra nenhuma. Carroça é a puta que o pariu seu bostinha! Cala boca, peste. Não tá vendo que o velho tá passando mal. A gente só quer ajudar. Vão ajudar a sua mãe a lavar a boceta, seus filhos da puta! Vocês devem ter alguma coisa com isso. Mas se eu descubro eu mato um puto desses! Calma, seu Manduca, calma. Sai pra fora daqui seus coisa ruim. Vão acabar de matar o velho. A gente só quer ajudar, tia. Podemos correr por aí procurando o carro. Então vai, vão ver se acha a porra desse carro por aí, merda! Saímos voando e estridentes, como um bando de biquinhos de lacre. Mas não podíamos voltar logo, para não parecer coisa feita. Fomos para o campo do América, assistir à pelada da manhã. Subimos ao Santo Antônio para ver a turma cruzando pipa. Mergulhamos no açude da fábrica abandonada. E só então voltamos correndo para a nossa rua. Achamos! Achamos! Achamos o carro do seu Manduca. Tá aonde? Lá embaixo, na rua do querosene. Vamos lá pra ver. E todo mundo foi. Seu manduca na frente. Todo mundo atrás. Era o fato do dia. Aquilo valia mais que lavar as roupas da madame. Que catar o feijão da semana. Que remendar as cuecas do marido. Era festa em dia comum. Todo mundo viu seu Manduca abraçar o carro. Erguer as mãos e agradecer a Deus. Beijar o capô. Conferir a lataria, os pneus. E depois entrar para levar seu precioso Ford Bigode pra casa. Dá carona, seu Manduca? Sai pra lá que aqui vocês não sentam esse cu sujo! Aqui não! E arrancou com o carro, deixando o povo pra trás. Menos a nós, que saímos correndo ao seu lado, atazanando a sua vida.


Houve outras ocasiões onde deixamos a maldade depor contra a nossa inocência. Como aquela, em que simulamos um assassinato para a minha mãe. Morávamos num porão. Chovia muito, o dia todo. Ficamos presos naquele subsolo úmido e apertado. Pequeno demais para a nossa imaginação criminosa. Minha mãe estava no quintal. Armada com um vergalhão de ferro lutava para que o ralo não entupisse e transbordasse imundices para o nosso lar subterrâneo. Possivelmente chorava, por aquilo e por nós. Pois ainda não era meio dia e já havíamos dado àquela mulher curvada pelos sacrifícios da vida, muitos motivos para chorar. Quebramos a sua cama, jogando bola com os travesseiros. Acabamos com uma caixa de fósforos, um vidro de esmalte e um tubo de laquê, num ritual de incineração de formigas. A mistura provocou uma pequena explosão que deixou careca de cílios e sobrancelhas o meu irmão caçula. Era pouco.

Decapitamos o São Jorge do meu pai, alvo do nosso estilingue. Gastamos o último gás do bujão, fazendo goma de farinha para colar a cabeça do santo. Destruímos dois cabides, transformados em rústicos arcos para flechas. Uma dessas varou a porta de vidro da cristaleira. Soltamos o azulão da gaiola para brincar de caçá-lo. Ele fugiu. Passou rasante pela cabeça da minha mãe, que largou um grito de espanto. Ai, meu Deus! Que isso! Puta que pariu! O que eu fiz para merecer isso? Hoje eu pego um de jeito! Berrou mais ameaças para nós e continuou sua luta com o ralo. Não tinha a menor idéia do que aconteceu e do que iria acontecer lá embaixo. Ficamos quietos uns segundos, até que voltamos a escutar seus palavrões dirigidos às baratas que subiam em suas pernas. O céu seguiu trovejando pesado. Devia ser Deus, assumindo o seu desgosto com a gente. Ou então tentando alertar àquela pobre mulher. Chamar a sua atenção para os pequenos seres diabólicos, presos no seu submundo. Nós, que naquele instante chegamos à caixa dos remédios. Descobrimos o vidro de mercurocromo e sorrimos em perversa conivência. O irmão caçula foi deitado no chão. Segurava a lâmina do facão de peixe com o sovaco. O falso sangue foi espalhado a esmo, pelo corpo e pelo lugar. Estava pronta a farsa. Era só ver no que dava. Socorro mãe! Corre aqui. Acode mãe. Ajuda! Rápido! Corre! Depressa, mãe!Ela veio rápida, entre palavrões. Desceu se equilibrando para não cair nos degraus toscos e molhados. Parou estatelada diante da cena. Deu um grito aterrador e desabou, sem sentidos. Ai o meu cacete! Matamos a mamãe. E agora? Mãe é brincadeira. Ele não morreu não. Acorda, mãe! Joga água nela. Já ta molhada. Na cara, seu bosta. Vai afogar ela. Joga logo essa merda aí! Enquanto isso, o ralo transbordava e o esgoto descia em cachoeira até nós. O cheiro tomou conta de tudo. E nos ajudou a fazer minha mãe voltar a si. A primeira coisa que fez foi abraçar assustada o filho caçula. Chorou soluçando. Pegou seu rosto entre as mãos para conferir a cria. Notou a ausência dos cílios. As sobrancelhas chamuscadas. Que isso? Fomos saindo de fininho para um canto. Ela se levantou e começou a tomar pé da realidade. Olhou ao redor e viu tudo pelos ares. Viu a cama quebrada. Conferiu a parede enegrecida pelo fogo. Alisou a cristaleira partida. Levou as mãos à boca e fez o sinal da cruz, quando viu o São Jorge com a cabeça colada ao contrário. Voltou-se para o chão sujo de mercurocromo, como o corpo do meu irmão. Puxou os cabelos com todo aquele mal feito, completado pelo rio de fezes que descia as escadas. Arregalou os olhos de um jeito conhecido. Perigoso, para nós. Torceu o canto da boca. Puxou o ar com força e explodiu. Seus filhos de uma puta! Desgraçados. Pestes do inferno. Isso é coisa que se faça? Mas eu mato, hoje mato um. E vai ser agora! Vem cá! Vem cá! Não adianta correr! Eu caço vocês no inferno. Interna essas crianças, mulher! Vai cuidar da sua vida fofoqueira. Então vá se foder! Saímos correndo para a rua, com chuva e tudo. Atrás de nós voavam panelas, pratos e baldes. Minha mãe tentava nos acertar como podia. Mas não corria como nós. Sumimos na chuva. Subimos o morro, entramos no mato. Passamos o dia fugindo dela. Molhados, com fome e rindo da nossa maldade. Mais tarde ela se acalma. Aí a gente volta.


Também sofreu a Júlia maluca. Que não era maluca de verdade. Mas ficava assim por nossa conta. Uma idosa sozinha no desamparo coletivo. Vivia de passar roupas pra fora. Todo dia saía com a trouxa na cabeça. Parte do seu corpo. Uma mulher pequena que cumpria o seu destino malabarista. Era vingativa. Gostava de dar o troco. A gente aprontava com ela e tinha que ficar atento. Ela não esquecia. Quando menos se esperava, vinha com uma tesoura cortar a linha da nossa pipa. Ou surgia do nada, para rasgar a nossa bola com a faca. Quando tinha sucesso na vingança, escancarava a boca sem vida e gritava rouca. Comigo vocês se fodem! Comigo vocês se fodem! A Júlia ficou chamada de maluca por um trauma. Tinha medo de macumba. Se encontrasse um frango morto e um toco de vela numa esquina, fazia um escarcéu. Apertava os olhinhos miúdos. Botava mais rugas no rosto. E falava correndo, batendo as mãos, compulsiva. Valha-me Deus, Nosso Senhor! Tira o capeta do meu caminho! Me guarda nas asas dos seus anjos! Me tenha na sua bondade. Expulsa o demo daqui. Tira o coisa ruim da minha frente que os caminhos do mundo são seus. Trabalho na sua fé. Vivo da sua caridade. É sua a minha alma, na vida que é meu castigo e na morte que será meu prêmio... E repetia a ladainha depressa. Pulando no mesmo lugar. Sem parar de pular. Sem deixar a trouxa de roupas cair da cabeça. Como se a trouxa fosse um apêndice. Uma grande verruga da sua cabeça. Fica nesse transe até a torrente de frases minguar. Então se benzia repetidamente, enquanto atravessava a rua correndo. Com toda a molecada atrás imitando e gritando. Júlia Maluca! Cabeça de trapo! Júlia Maluca! Cabeça de trapo! Vão daqui! Vai embora cambada! Pode esperar. Vocês vão se danar. Comigo vocês se fodem! A Júlia morria de medo dos santos de macumba. Até de Cosme e Damião. Uma vez fomos vender ferro velho, catado pelas ruas. Lá no depósito encontramos uma máquina de escrever muito antiga. Trocamos tudo por ela, aceita? Fica faltando meio quilo. Depois a gente paga, pode? Vão pagar como pirralhos? Com mais ferro, a gente cata e trás pro senhor. Vá... Levem esta bosta e me sumam da vista. Aquela máquina de escrever deu origem a muita coisa. Principalmente as que não prestam. Mas a pior delas foram os cartões de Cosme e Damião. Fizemos um montão. Entregamos na escola, na feira, onde a gente passava. Convidamos para distribuição de doces, roupas e brinquedos no dia dos santos. Era comum se fazer isso. A gente dizia que uma moça tinha mandado. Todo mundo acreditou. O dia todo mundo já sabia, 27 de setembro. Marcamos hora e local. Colocamos o endereço da Júlia. Vai dar uma merda só! Agora ela vai ficar maluca de vez. Muito antes da hora marcada, a fila já ia longe. Tinha de tudo. Adulto, criança, velho. Dia de Cosme e Damião é assim, faz todo mundo virar criança. Bota todo mundo na rua atrás de doce. Não parou de chegar gente. E a Júlia lá dentro. Passando roupa. Sem tempo de botar a cara na rua. Chegou a hora marcada no cartão. Nada da porta abrir. O povo ficou impaciente. Bateu na porta. Bateu palma. Berrou chamando o dono da casa. Queremos doce! Olha a hora! Abre essa porta aí. Salve Cosme Damião, gente! E nós lá, rolando de rir. Achando aquilo o máximo. Orgulhosos do feito. Vão derrubar a porta da Júlia. Vão querer matar a velha de pancada. A Júlia abriu a porta e se encolheu de espanto. Tentou fechar, mas o povo não deixou. Cadê o nosso doce, dona? Que doce? O de Cosme e Damião. Eu não mexo com essas coisas! Mas tá aqui no cartão, o número é da sua casa. Mas aqui não vai ter porra nenhuma. A gente tá aqui desde cedo, dona, isso é ruindade! Faz isso não, moça. Mas eu não tenho doce nenhum. E sei lá que cartão é esse. Aí pessoal, tá dizendo que não tem nada. Como nada? Esse tempo todo aqui pra nada? Tá brincando com as crianças? Assim você vai ficar corcunda, bruxa velha. Vá rogar praga no caralho. Vamos lá, pessoal, tomo mundo junto: queremos doce! Queremos Doce! Mentirosa! Bruxa velha! Vaca murcha. Filha da puta...A turma ficou louca. Só não invadiu a casa da Júlia, porque alguém chamou a polícia, que limpou a área na bordoada. A velha ficou mal vista pela vizinhança. Já tinha medo dessas coisas. Depois daquilo, nunca mais saiu de casa em dia de Cosme e Damião. Mas teve uma vez que a coisa ficou séria mesmo. Quase matamos a Júlia de verdade. De susto no coração. Estávamos à-toa na rua. A noite já estava alta. Parou um carro na esquina. Carro de bacana. Desceu uma mulher enorme de gorda. Trazia um sacolão de lona. Armou um grande despacho para os santos da encruzilhada. Tinha de tudo. Cachaça, frango, farofa amarela, vela preta e vermelha, pipoca, champanhe... Um verdadeiro banquete. Bonito de ver. Tudo arrumado em cima de um pano vermelho e preto. Cores de Exu. Cores do Flamengo. O carro saiu, a gente chegou perto. Olha o pano! Dá pra gente fazer bandeira do Mengo! Tá louco? Amanhã vai pro lixo mesmo! Isso faz mal, menino, é pros santos. Os santos não vão comer o pano, vão? Mas é deles, vai cair a sua mão. Mas vamos deixar isso tudo aí? Quem ia gostar de ver era a Júlia Maluca... Nossos olhos se acenderam com a idéia. Como se todos pensassem a mesma coisa. Pronto! Já não se tinha mais medo dos santos. Pegar já não fazia a mão cair. E a bandeira do Flamengo podia esperar mais um pouco. Vamos sacanear a Júlia! Como? A gente bota isso tudo na porta dela. E o castigo? Castigo é o caralho, você acredita nessa porra? Sei lá! Então não pega, só vigia. Tá bom!Apagamos as velas. Juntamos as pontas do pano rubro-negro e transportamos o despacho. Montamos tudo na porta da Júlia. O despacho completo. Grande, imponente. Todo certinho. Bonito, se não fosse o lado macabro. Pronto. Estava armado o circo. Era só esperar a hora do show. Cedinho estávamos lá. Culpados na cena do crime. A Júlia abriu a porta e saiu do mundo. O sangue fugiu. A pele eriçou. O grito não conseguiu sair. Ficou preso no peito arfante. A trouxa de roupas passadas caiu. Pela primeira vez na vida, desgrudou da sua cabeça. Caiu sobre o despacho. Atrás veio ela, a Júlia. Se debatendo toda. Botando espuma pela boca. Revirava os olhos. Agonizando. Tornou-se parte do seu medo. Parecia o frango da macumba, acabando de morrer. Acode gente, a Júlia tá tendo um ataque. Socorro! Venham ajudar a velha! Todo mundo veio. Mas ninguém queria botar a mão nela. Estava sobre um despacho. Com isso não se brinca. Tava se debatendo. Aquilo era coisa de santo. Vivia esconjurando eles. Tava sendo castigada. É um ataque! Não, é santo mesmo. Vivia brincando com eles, pegaram ela! E se não for? Vai deixar ela morrer? Temos que ajudar! Vai lá você. Eu não boto a mão aí. Joga um balde d’agua, tia. Cala a boca peste, que isso tem dedo de vocês. Tem não tia. Então sai daqui e não atrapalha. A Júlia vai morrer, tia? Não fala besteira, menino. Quer que a gente chame a polícia? Só se for pra prender vocês. Mas a gente não fez nada. Quem não conhece que compre. Vão lá na venda e pede ligar pro hospital. Pede uma ambulância. Diz que é urgente. Corre, peste. Vai logo. E nós fomos voando. Um riso de deboche, pelo acontecido. Um frio na barriga, pelo medo da velha morrer. A ambulância veio e levou a Júlia. Ela não morreu, mas jurou que iria nos matar.

Como todos os outros que passaram pela nossa infância. E sofreram com a nossa cruel criatividade.

05 março 2010

Maldito da Vila

Kinho Vaz lança
primeiro trabalho impresso



O escritor e publicitário Kinho Vaz
sai da virtualidade para trazer
aos leitores
um mundo pelo qual
todos passam e não se dão conta.

Uma realidade bruta que preferimos
não enxergar em nosso cotidiano,
fechados em nossas cavernas.



CONFIRA:

Dia 10 de março

19h - Editora Multifoco

Av. Mem de Sá, 126 - Lapa




IMPUREZA
(Kinho Vaz)


Era noite escura quando a perseguição se deu. Eu arfando na frente, fugindo das garras e dos dentes que me perseguiam. Enveredei pela floresta com todos os sentidos em alerta, quebrando galhos secos e fugindo sem apagar pistas. Correndo e querendo ser alcançado com a mesma força, em total contradição. O hálito doce que me buscava ignorava distância e tempo. Cedo ou tarde estaria misturado ao meu, me submetendo à voraz, felina e definitiva mordida de abate. Senti-me perdido, presa fácil. Animal longe do bando, em território alheio, espreitando desejos que não podiam me pertencer.


A mente roçava na superfície áspera das lembranças, enquanto se esgueirava pelo mato cerrado da realidade. Os lanhos fundos e doloridos na consciência foram inevitáveis. Quanto mais eu corria, mais perto chegava do fim. Parecia estar imitando os sentimentos, que se postavam em círculos entre o querer e o não querer, entre o lutar e o se entregar, entre o certo e o errado. Não havia saída na densa noite sem caminhos. Então eu parei de correr e esperei a hora da luta, fortalecendo minhas esperanças na crença de que a melhor sepultura para um guerreiro é o estômago do inimigo. Aos poucos comecei a sentir no vento o perfume do meu destino. Doce, delicado e inebriante como o aroma de uma fruta exótica.


Sua chegada me encontrou passivo, entregue. Mostrou-se sem pressa de concluir sua conquista. Rodeou-me lentamente, olhos fixos nos meus, diminuindo meu espaço em voltas cada vez menores, cada vez mais próximas, cada vez mais intransponíveis. Essa proximidade me enfeitiçou, me fez acreditar, ser eu, um banquete digno de tal cerimônia. Então percebi que já não poderia ir a lugar algum. Estava preso, cercado, dominado. Pronto para ser devorado em ritual premeditado pelos instintos viscerais que regem a relação entre caça e caçador. Fechei os olhos e abri os braços, preparado para o bote fatal, entregue nas mãos de um destino cruel, mas meigo, quase pueril. Meu corpo entorpeceu à proximidade do seu calor. O respirar ansioso invadiu o meu, fazendo meu coração pulsar em compassos impróprios. Passeou sua língua por todos os meus poros, apetecendo o paladar, apurando os sentidos na visão da refeição servida. Invadiu meus sonhos com um olhar carregado de promessas de menina, me fazendo sentir que aquela era a hora certa para deixar de existir. Só então começou a me devorar, calma e lentamente. Tirou-me os olhos, os ouvidos e a língua com tamanha destreza, que eu mal percebi que os perdia. Passou então a se ocupar do meu juízo, vasculhando, invadindo, dominando a intimidade dos meus pensamentos. Até que finalmente chegou ao meu sexo, fazendo um estrago delicioso. Daí pra frente, já não pude mais ver, ouvir, falar, pensar e nem sentir nada que não fosse voltado para aquela dominação.


Satisfeita, esticou o corpo na torpeza do prazer. Beijou meu rosto e esmagou minha consciência com a única frase que pronunciou:


- Boa noite, Titio. Você é muito gostoso, viu!


Pôs o dedo na boca, abraçou o seu urso de pelúcia e fechou os olhos para dormir.


19 fevereiro 2010

POLILÍNGÜE

(Alexandre Campinas)


Minha língua pátria é presa

cercada de sanções, nações

corruptas e corruptoras.


Minha língua presa anseia a solta,

livre de imposições,

ágil e motora.


Minha língua solta é erótica:

espasmos após tensões.

Flerta, provocadora.


Minha língua erótica é ferina.

Cospe imaginações

E alguém ora: antiquelíngua fecundadora.


Minha língua ferina é frouxa.

Fala de arrebatações,

da vida viva e aterradora.


Minha língua frouxa se come

com batata, à portuguesa e com tesão;

com boca degustadora.


Minha língua multisabor é sempre suja

de violência e de paixão

entrega-se à outra, devoradora.


Minha língua suja disfarça-se em pê:

pêquer pêô pêcéu, pêchão.

É língua lúdica, voadora.


Minha língua do pê é feita de trapo,

que se esconde com exatidão

p’ra tocar, redentora.


Minha língua de trapo é língua de sogra:

faz festa, conselho e diversão.

Toca onde não se quer, desafiadora.


Minha língua é a língua do cão:

baba e lambe e late sem compaixão,

língua cachorra.


17 dezembro 2009

META A LÍNGUA

(Alexandre Campinas)


''Lasciate ogni speranza voi ch'entrate''

(Dante Alighieri)


- Tenho que lhe prender até o fim. Os seus olhos estão grudados e continuarão. Em cada palavra, em cada linha. É daqui que você espera. O crime, a redenção, o ensinamento, a revolução. Espera até mesmo o inusitado. Há algo que vou contar. Algo que quer saber. Você deseja isso e eu vou lhe conduzir.

Era uma sentença definitiva.

Pessoa é o protagonista. Uma pessoa que saiu da situação confortável na qual se encontrava para um mergulho no insólito. Tudo ia bem até que aquilo acontecesse. Um texto. Página ofertada como puta na janela, como promoção relâmpago de supermercado. Irresistível. Curiosidade excessiva. Pessoa tinha essa compulsão de leitura. O texto estava ali. Ao alcance de qualquer pessoa e Pessoa sequer poderia imaginar o engodo no qual se meteria.

Uma armadilha. Tecida com calma pelo verdugo. Como se trançasse fio por fio com o cuidado extremado que impedisse uma evasão. A fuga, exatamente, de Pessoa. Atrativo. Provocante. O verdugo sabia que Pessoa (não qualquer pessoa, mas Pessoa) viria. E não conseguiria resisti-lo. Era como se o verdugo – de nome provisório Verdugo, até que a identidade verdadeira seja revelada – tivesse armado a arapuca para Pessoa. Isso ! Verdugo queria Pessoa. Na trama daquele tecido, Verdugo desejava mais do que tudo que Pessoa se embrenhasse. Cada vez mais. Sem saber o que o esperava, mas tendo a noção exata de que algo inacreditável, porém paradoxalmente desejado acontecesse. Era um dédalo. Pessoa sabia ter final, sabia existir uma saída, entretanto o caminho era um aguilhão verrumando a cabeça.

Verdugo tinha uma intenção primária, bem definida: desestabilizar Pessoa. Desesperar Pessoa. Para isso a pessoa deveria sentir-se parte da trama, co-responsável por ela. Poderia tê-lo feito de qualquer forma. Preferiu O Texto. Era assim que Verdugo referia-se a obra: O Texto. Daí a sentença inicial, ora repetida:

- Tenho que lhe prender até o fim. Os seus olhos estão grudados e continuarão. Em cada palavra, em cada linha. É daqui que você espera. O crime, a redenção, o ensinamento, a revolução. Espera até mesmo o inusitado. Há algo que vou contar. Algo que quer saber. Você deseja isso e eu vou lhe conduzir.

Um crime, aquele texto. Povoado de mistérios que iniciavam-se nos nomes dos próprios personagens, como que propositalmente. O prenúncio de uma incursão sofrida. E era disso que se tratava em O Texto: um crime. Várias palavras formavam frases precisamente conexas. A conectividade interativa propondo e exigindo resposta imediata do raciocínio de Pessoa. Um parágrafo fazia ligação com o outro e estimulava que qualquer pessoa, sobretudo Pessoa, os ligasse e se ligasse a eles; inexoravelmente.

Pessoa não resistira. E qual pessoa poderia ? Deixou-se tomar como virgem desejosa de atenções. Um pato. Embarcou no enigma com a soberba esperança de decifra-lo. Era o retrato da própria viagem humana na proposição da Esfinge edipiana: nascendo com O Texto, caminhando com O Texto, envelhecendo com O Texto. Era a plenitude da realização do intuito desconcertante de Verdugo.

O nome já estava indelevelmente bordado naquela teia. Bordado em ponto-cruz: P E S S O A. O Texto fizera sofrer, retivera a propriedade da pessoa, jogara com Pessoa. Agora, por fim, exaurido de todas as possibilidades, resolvido, desvencilhava-se dos hermetismos e ofertava-se, impudico, jactando-se da vitória:

Você entrou e saiu. Por Minha vontade fui seu verdugo. Você, pessoa minha, entretanto, não me meta a língua: eu persegui você, que me desejou.

O Texto foi o meio.

25 outubro 2009

Um comentário legal

(do Tuba-Boy*)


Tuba-Boy, aliás Filipe Jardim, é escritor,
mestrando em Engenharia de Women Observer,
técnico em Remote Controlling.

Graduado em Alcohol Practitioner,
ele faz surfe de tubarão na pororoca
do estuário do Massangana,
no Suape.


Ontem, sexta-feira, cheguei em casa bêbado. E neste estado, abro a caixa de correio e vejo lá dentro um envelopinho cor de terra. Investigo, lá meu nome gmailco “Fillipe Vilar Jardim”. No remetente está o nome do camarada, Alexandre Campinas. Senti o volume do envelope. Um livro, com certeza. Bêbado quando ganha presente: subi as escadas sorrindo. E o sorriso não me deixou.

Sinal para o que me esperava? De fato, li o prefácio do Kinho Vaz, li os versos da contracapa. Ah, e a dedicatória, muito honrado este desgraçado aqui ficou. Amanhã eu teria uma boa leitura, pelo menos parecia. O título era interessante: Toalhas Vermelhas.

Acordei renovado, muita água, daria aula à tarde. Antes do almoço, os primeiros contos: “Estes Maravilhosos Porcos Imperialistas Ou De como Jean-Marie Recuperou a Honra” e “Estrela Cadente”. Nas primeiras linhas, volta-me o sorriso. O primeiro é recheado de ironia, a pergunta do “e se realmente fosse assim?” respondida com um humor que, para mim, já supunha inevitável pelo que cyber-conheço do camarada Campinas. O final é engraçadíssimo. O segundo é o retrato de um cara que realmente se ferra na vida por causa de uns negócios filhos da puta. Já conhecia este da internet. O trecho de My Way no fim cai como uma luva.

Almoço, saio. No ônibus, mais alguns contos: “Impressões De Sexta-Feira”, fantasmagoricamente engraçado e surpreendente; e o meu preferido, “Lógica. Fantasia Sobre Velha Piada. Feliz Ano Novo Pra Você Também, Rubem Fonseca”, ironia com os vermelhinhos febris dos anos 70 e o seu futuro, com as ilusões perdidas dos ângulos de duas gerações; Depois, “A Esfinge de Cydônia”, uma estorinha muito singela sobre uma puta chamada Copa e “Fantasia das Podridões Humanas”, um homem e a situação de ser observado em suas intimidades por um tarado peixe japonês. Minha parada, desço do ônibus.

Chego na casa do garoto. Doente, não assistiria aula hoje. Viagens perdidas me deixam puto.

Dirijo-me à parada. Um mendigo e uma coroa muito simpática – falo de dotes físicos também. Ela puxa conversa (medo do pobre mendigo), “ainda bem que você chegou”, “eu?”, respondo e sorrio. Papeamos um tempo. Íamos para lados diferentes da cidade, uma pena.

Dou aulas no bairro do Rosarinho, nobilíssimo. Não conheço quase nada daquelas bandas. Resolvo ir à Universidade, onde amigos estão dando uma festinha para a qual eu tinha sido convidado, mas não podia comparecer por causa da aula. Agora eu podia. O ônibus que pego faz um arrodeio desgraçado. Tempo para ler mais contos.

Dessa vez o que dá nome ao livro: “Toalhas Vermelhas”, uma estória muito interessante sobre adolescência, com um final hilariante. Depois “Tarde Demais Para Mim”, outro conto de humor cortante, literalmente. Olho um pouco a paisagem. Penso “ainda em Casa Forte, puta que pariu”, volto à leitura. “Um Sapo-Banana Para Mário”, uma estória de pescador e “O Pardo e o Parvo”, sobre as lembranças de um executivo voraz que veio de muito baixo. Chego ao meu destino. Ainda o sorriso nos lábios.

Uma tarde agradável com amigos que eu não via há muito tempo. Ri bastante.

Voltei pra casa com alguns colegas, conversando no ônibus.

Tomei um banho, contei como tinha sido o meu dia para os meus pais, manter a rotina. O último conto: “Sr. Obnóxio, o Livro”, este realmente excelente, um conto de fantasia com aquele bom humor que esteve presente durante toda a leitura. Na última página, alguns versos de Ferreira Gullar.

Fechei o livro. O meu dia não foi lá essas coisas, mas eu senti isso? Foi como se tivesse sentado num bar e tomado umas cervejas com o camarada Campinas contando todas essas estórias. Satisfeito, guardo o livro junto de meus outros volumes, na cabeceira da cama. Qualquer emergência ele estará lá, para uma nova leitura.

05 outubro 2009

La Negra se fue

Estamos tristes, entretanto agradecemos
por tudo o que A Voz cantou,
falou, lutou.

Voz livre de quem a tinha proibida.
Voz de liberdade, justiça
e insurgência.

Valeu, Mercedes.

Valeu e valerá sempre.

Até a vitória.


Años - Mercedes y Pablo

06 setembro 2009

3º Lugar no Concurso Literário do Bar do Escritor




ESPELHO

(Alexandre Campinas)



"You're here because you know something. What you know you can't explain – bu t you feel it. You've felt it your entire life; That there's something wrong with the world; you don't know what it is, but it's there, like a splinter in your mind, driving you mad. It is this feeling that has brought you to me. Do you know what I'm talking about?"

(Morfeu para Neo, em Matrix)


- I -

Um excelente espelho, que se diga. Depois do falecimento da mãe, alterara toda a decoração do apartamento, porém a peça permanecera no seu lugar costumeiro, o living da sala. Bom e antiqüíssimo, o espelho. Bem mais de metro por setenta. Puro cristal, cujo bisotado enobrecia o contorno. Por moldura, uma tradicional madeira dourada que nas laterais bifurcava-se: uma parte seguia jungida ao cristal e a outra abria-se em asa para retornar ao corpo principal mais abaixo. Sustinha-se numa espécie de pedestal, ou suporte, todo trabalhado em serralheria belga.

Levantada, dentes escovados e já metida em biquíni, alpercatas, bolsinha de utensílios, barraca e esteira de palhinha, pronta para a praia de domingo, deu uma passadinha pelo espelho, assim como quem não quisesse nada, como quem realmente não se importasse, entretanto ansiosa pela inevitável opinião.

Muito estranha. Era de fato muito estranha aquela figura que o espelho refletia. Onde a jovem de clara pele (com sardas de sol nos ombros) e cabelos ruivos ? Olhou para trás. Nada. Claro que estava só. Tornou ao espelho, porém não se reconheceu naquele senhor de quarenta anos presumíveis, barriga média inerentemente etária, cãs brancas nas têmporas e âncora tatuada no braço. E tinha barba grisalha, cerrada. Definitivamente não era ela.

Com as costas das mãos esfregou os olhos. Fechou-os, apertando com força, aquela força que faz com que apareçam elos em pálida policromia que se esvaecem aos poucos. Atinou que já era hora de retomar o curso de datilografia, telefonar para o Cidinho (ele enviou rosas vermelhas, outro dia, acompanhadas de um convite para passear no Karmann-Guia zerinho), procurar um emprego: talvez com o próprio, afinal ele ia muito bem com sua corretora de seguros. Mamãe sempre fez muito gosto por aquele rapaz cortês e de futuro promissor. Falar em mamãe, já era hora, afinal, de parar de gastar a herança.

Abriu os olhos na esperança de que o senhor não mais estivesse lá. Estava. E piscava para ela. No canto da boca mastigava um palito de fósforos. Presa ao calção, uma carteira de Continental. Ela odiava cigarros. Outra piscada. Vamos ? Onde ? (meus deuses, estou conversando comigo no espelho e eu não sou eu). À praia, brotinho, à praia; não está pronta ? Cobriu o espelho. Vai passar... Vai passar ! Virou as costas, abriu a porta. Antes de fecha-la atrás de si, ouviu: Tetéia !

- II -

Tépida, mesmo após o banho frio demorado. Um copo de groselha iria aplacar aqueles abafamentos. Sentada no sofá, passava um pouco de pasta d’água nas pernas e também nas maçãs do rosto. Pôxa, calor pacas ! A gente derrete, mesmo imóvel. Ligou para o Cidinho: Karmann-Guia. Antes lá fora, com o vento na cara (Cidinho contou: conversível) do que trancada nesta sauna. Sol da tarde bate na fachada até a noite chegar. Amolece miolos. É isso. Miolos. Mamãe sabia fazer miolos deliciosos... Empanava.

Descobriu o espelho, vagarosamente. Com temor mesmo. Nada. Olhou-se e tirou o resto da pasta d’água das bochechas. Como que tentando convencer a si mesma, perguntou Não falei ? Miolos. Roupa leve e sandálias. Meus pés são mimosos. Passou um lenço de seda branca em pois negros sobre os cabelos, pegou a Grande Hotel com a fotonovela que trazia o Cláudio Marzo como galã, suspirando um misto de devaneio romântico e inevitabilidade. Girou a chave. Ouviu. Lindos pés. Virou, ele. Dá uma volta, peixão. Obedeceu. Não demore. Garganta seca. Suor frio. Tremores. Ele.

- III -

Entrou em casa como um siri: de lado e de costas.

Adoro esta bunda. Chega aqui. Foi.

Vira. Virou. Boas ancas, me servem bem. Tira este vestido maria-mijona, não demore tanto ! Deixou escorrer pelo corpo e o contato do tecido, ou Ele, arrepiou sua pele. O busto: tira o soutien. Firmes e grandes. Eu gosto, têm bom tamanho e auréolas inchadas de menina-moça, como me convêm. A calcinha. Hipnotizada. Não gosto ralinho assim. Deixe crescer mais. Passe os dedos. Assim não, porra ! De leve, circular, deixe enrijecer e umedecer.

Vou te contar coisas que nunca soube. Vou te falar na orelha soprada e molhada o que nunca ouviu. Vai ser mordida onde nunca supôs, vai apanhar e arranhar de volta. Vai gozar como personagem do Zéfiro. Venha, minha rameira safada. Foi.

Sustinha-se em uma perna e a outra envolvia a peça. Esfregava-se nas determinações d’Ele. Esfregava-se n’Ele. Fodeu como nunca havia fodido na vida. A delicada pele da virilha em relevo de mordidas atestava o que fora promessa. A marca rósea de dedos espalmados nas nádegas confirmava.

Miolos. Empanados. Empapados d’Ele.

Seu lugar, agora, seria no quarto. Exigência d’Ele. Quero ter você na hora em que eu quiser, falou. Eu aceito, acatou submissa.

- IV -

Cidinho, após o casamento, cuidou de tudo. Gostou do marido não a querer trabalhando. Para que, chuchu ? Você precisa largar as recordações de sua mãe, não te quero triste, benzinho. Quero que compre o que quiser, que decore nosso lar como convier. Foi trabalhar após o beijo na testa.

Entregou-se. Gosto quando o corno sai. Gosto de lhe ver sofrendo pelos chifres dele. É assim que quero. Vai fazer amor com ele vez em quando, recatada. Quanto a nós, vamos trepar todo dia. O dia todo. Quero permanecer no quarto. Agora é suíte, não ? Minha vadia tem uma suíte. Eu tenho uma suíte. Assim foi.

Ela penava a alegria do corno bem-sucedido arrumando a gravata em frente a Ele: virava pra cá e pra lá, recendia Lancaster. Sorria Kollynos. Corretor de seguros.

O corno feliz já foi, ouvi a porta fechar. Venha ! Ia. Abra-se, cadela ! Abria-se. Agora de quatro, vagabunda, quero aproveitar outras opções. Olhava para trás, sentia sobre si o peso das sobrancelhas deliciosamente malévolas e dominadoras d’Ele. Urrava e gozava com o brilho de cristal prateado dos Seus olhos.

Engravidara. Nunca mais, Ele. Tédio que se quebrava apenas quando se masturbava – com dificuldade pelo tamanho da barriga – em frente a Ele. Provocava. Auto-flagelava-se. Inseria objetos. Fazia-se puta, como aprendeu a ser. Nunca mais, Ele.

Primeiras contrações. Água da bolsa. Ligou para o marido avisando. Correu em frente ao espelho. Filho da puta ! Filho da puta ! Filho da puta !

De costas, anda !

Arrepiou-se, levantou a saia apoiando-se no puff. Sentiu a penetração rija dilatando o esfíncter. O líquido seminal quente em suas entranhas. Rebolava ensandecida naquela piroca que esfolava suas carnes. Bafejo quente e cheiro de loção ordinária misturada ao acre do suor. Foi o gozo melhor que teve na vida.

- V -

Voltou da maternidade e correu para o quarto. Nada. Cadê o espelho ? Qual espelho ? O grande, do quarto, que era da mamãe. Nunca vi, sua mãe tinha um espelho ? Olhou esgazeada ao redor. Benzinho, nunca tivemos espelho, apenas o do banheiro. Seu choro só foi abafado pelo do bebê. Benzinho, o neném.

Entrou no quarto do menino. Mijado. Foi trocá-lo. Enquanto via o balançar das perninhas, ela sentiu o peso do pequeno olhar de sobrancelhas deliciosamente malévolas e dominadoras. O brilho de cristal prateado dos Seus olhos.

Sorriu, aliviada.

Hoje teremos miolos empanados para o almoço, como a mamãe fazia.

Você prepara uma groselha para mim ?

Adoro.

-*-

04 setembro 2009

Dor e comoção no velório de Elton Brum
(Foto: César Soares/Especial para o portal Terra)



TERRA PÚRPURA
(Daniel Oliveira)



Dominado o homem
Liberada a fome

Executado o gesto
Disparado o tiro
no alvo caído
Feito bandeira se eleva
e tem nome o sem-terra

El ton de la lucha
Elton da terra.

10 agosto 2009

MAMÃE
(Alexandre Campinas)


Minha esposa parou em frente à casa, antes de passarmos na loja de decoração, como havíamos combinado de fazer naquele sábado. Eu pedi. Um ano depois, entrava lá pouco antes da demolição. Nostalgia ? Talvez. Em tudo há um lado humano, mas isso eu guardo para mim. Que importa dizerem que sou frio, insensível ? Não tenho que provar nada para ninguém. Basta que eu saiba o quanto tudo me é caro. O mundo tem uma lógica e eu adapto-me a ela. Só. Sei que, no momento em que entrei, estava apertado. A premência urinária acabou por levar-me a uma viagem nada melancólica. Besteira isso de dizer que nostalgia e melancolia são a mesma coisa. Nostalgia é deleite; melancolia, saudade do que não houve.



Após girar a chave, atravessei o corredor vazio. Sem passadeira, sem quadros nas paredes, nem fotografias de família, tampouco os meus retratos. Aquele com vários rostinhos no mesmo papel fotográfico, outro com roupinha de marinheiro, ainda o de índio em baile de carnaval. Senti falta do aparador na parede junto ao quarto. Onde ficava a estátua de Sant'Ana ensinando Nossa Senhora e um vaso pequeno com lírios sempre frescos do jardim. Ou rosas brancas, quando não havia lírios. Sou católico. Vou à missa dominicalmente. E comungo após a confissão. Besteirinhas, pecadilhos. Um padre-nosso, por vezes somado à uma Ave-maria. Jamais insensível: como esquecer ? Olho para cima e, agora, o antigo forro azul-claro revela-me a madeira comida pelos cupins. Tinha o hábito de deitar-me no chão, criança ainda, e, naquele ambiente quase sagrado que o aparador garantia, tomar o teto por céu. Imaginava anjinhos.


A porta, um tanto resistente pela falta de uso (quase um ano após o negócio), não resistiu às minhas urgências. Rangeu um pouco, mas cedeu fácil. Que chão sujo ! Ela teria vergonha. As mesmas paredes com azulejos verde-escuro até a metade. A tinta-óleo que completava a altura já não havia mais. Cada passo em direção ao vaso sanitário deixava a marca dos meus pés sobre a poeira que tinha tomado o piso hidráulico, antigo e belo. Fechei os olhos e o arrepio do xixi represado empipocou-me a pele dos braços. Girei o registro da torneira. Em vão, que besteira... Pois a casa não estava vazia há tanto tempo ? Hábito que ela me ensinou. Higiene. Mãos limpas sempre. Doce recordação: “vai lavar as mãos, denguinho”. Tão bom lembrar... Lavar as mãos já evocava o cheiro da comida. Feijãozinho temperado no alho e na cebola, bolinhos de arroz do dia anterior, salada, batatinhas com molho de massa de tomate, carne moída. Ela foi tudo. Esteio. Base. Vida.


Voltando pelo corredor, primeiro o quarto dela. No piso de tábuas, as marcas dos pés da cama de ferro da vida inteira. Não resisti e entrei. Não era boa a impressão do quarto vazio, no entanto amparei-me na lembrança. Lugar-comum ? Não sei. Não sou um estilista, mas aquele quarto dela era meu porto seguro. Em seu colo chorei a ausência de pai, que não conheci. Em seu colo contei de namoros e festas, fui repreendido pelo cheiro de cigarro (e a gente sempre pensa que as engana). No seu colo não precisava dizer nada: ela sabia de tudo e, quase sempre, seus cabelos longos e sempre muito bem penteados roçavam de leve minhas lágrimas, minhas pequenas dores, lembrando que ela estaria sempre ali. Elas são assim. Pelo menos a minha foi. Amiga e confidente. Muito, muito mais do que função biológica. Saí do cômodo com o coração repleto de memória. E de amor.


Três passos mais e o meu quarto. Abri a janela corroída pelo tempo e o sol entrou numa luz oblíqua da qual já havia esquecido-me. Quase cheguei a ver a caixa dos brinquedos da infância, sempre bagunçada (“arruma isso, menino !”), o violão cheio de decalques da adolescência (“rock não é coisa de Deus !”). O terno do casamento, pendurado, passado, engomado. O mesmo ar, embora um tanto empoeirado, encheu-me os pulmões. As narinas perceberam um pequeno toque do antigo cheiro. Memória olfativa, diriam. Já eu chamo de memória cordial. O cheiro dela ainda estava vivo na casa. E então percebi que a vida vale a pena. Uma vez mais respirei fundo. Sabia que nunca mais sentiria aquele cheiro. Queria guardar só para mim.


Aproveitei e empurrei também a janela da sala. Dava para o jardim que ela adorava com ares de altar. Dali saía a beleza da casa. Não apenas para as santas, mas em todos os cômodos o jardim se fazia presente. Era orgulho dela. Muito bem cuidado, hoje apenas terra esturricada. Tudo bem. Vida que segue. Entretanto impossível não identifica-la naquele passado. Já ia saindo. Lembrei: a cozinha. E estava lá com o fogão à lenha com seus tijolos descascados. A trempe, rota de ferrugem, resistia, ainda. Saudades dos biscoitos de polvilho fritos na hora. O mesmo piso do banheiro, questão de economia na loja de materiais de construção. Lembro que ela pagou o financiamento da Caixa Econômica até pouco tempo antes da sua aposentadoria. Lembro também que fizemos uma humilde festa dupla, de café e broa de fubá: aposentadoria e carnê quitado. Nossa casa.


Na saída, fechei o portão e passei a chave grande, antiga. Devolveria na segunda-feira à construtora que me deu a cobertura, no vigésimo sétimo andar, e um apartamento no terceiro, em troca do lote. Bom negócio. Olhei bem pela última vez. No alpendre, uma imagem mais evoquei. A cadeira de balanço na qual ela passava as tardes, conversando com comadres e observando o vai-e-vem dos vizinhos, ano após ano mais apressados em seus afazeres. Atropelo de vida. Minha mulher buzinou impaciente, ainda iríamos ao supermercado do shopping mais tarde. Pizza após as compras.


A cadeira de balanço também vendi para a loja de decoração. Pagaram muito bem. Aliás, foram honestíssimos e valorizaram corretamente todos os móveis e objetos que negociei com eles. Peças raras. Decoração antiga estava na moda. No dia em que levei a cristaleira imemorial, vi ser vendida praticamente no mesmo instante em que entrou na loja. Já havia um jovem casal aguardando. Não sei quanto pagaram por aquela raridade, mas eu estava satisfeito com o negócio. Bastava-me.


No estacionamento, paramos bem próximo da porta principal e o dono, belchior moderno, veio receber a derradeira obra de arte que eu entregava. O mesmo casal estava lá, ao pé dele. Encomenda especial. Pareciam saltitantes crianças ansiosas e alegres batendo palminhas. Quase eufóricos quando viram que eu a tirava, cuidadosamente, do banco traseiro. Apesar da minha conhecida objetividade, também sei fazer suspense.


Desembrulhei mamãe vagarosamente. Só para que eles vivessem o gozo da descoberta. Linda, mamãe. Corada, penteada, serena. Um belo trabalho do taxidermista. Cairia muito bem no living do jovem casal. Às compras, depois tem pizza.

08 agosto 2009

Aos companheiros e
às companheiras da luta:




Para refletir:

"Escutem estas duas aulas de
sabedoria, amor, justiça e vida".

LINK






02 agosto 2009

Como en Guernica
(Taiguara)


Ay, Hermano
Qué hasta que el día ese llegue
Yo no descanse y no duerma
Sin haber hecho muchas canciones

Ay, Hermana
Qué hasta que el día ese llegue
Tu no te canses, no mueras
Sin callar todas las represiones

Madre y abuela Vasconia
Vieja Vasconia en tus siglos
Arden los cuerpos de aquellos
Que abren mis ojos para mi pueblo

Madre y abuela Vasconia
Mi pueblo mezcla mil mares
Mi nombre indígena es rojo
Mi lengua es blanca, mi canto es negro

Madre y abuela Vasconia
Somos de América el sueño
Niños, caminos sin crimes
Pero sin dueños, y sin arreglos...

Madre y abuela Vasconia
Como en Guernica, tu árbol
Que acá no muera el motivo
Se abren los labios, aún que con miedo
Um folhetim, um pouquinho diariamente, Aqui e no orkut, "Bar do Escritor" e "Alterados.com". "Um triângulo no abismo" surgiu à partir de um conto do escritor Kinho Vaz. Alexandre Campinas gostou e pediu para transformar aquele triângulo... num triângulo.

Se o primeiro conto do Kinho Vaz foi um vértice, faria os outros dois. Já publiquei aqui Um triângulo no abismo - Outro vértice. Agora chegou a vez de Um triângulo no abismo - O terceiro vértice (Numa boa). Aí está.

Explicações dadas, ao Triângulo.


Um triângulo no abismo - O terceiro vértice
(Numa boa)


-1-


Aquela manhã era diferente. Que linda alvorada. Tranquila. Confrontava com as rolinhas que passavam apressadas em seu louco despertar em busca de alimento. Eu estava alimentado. Ela dormia profundamente em nossa cama. Tomamos o nosso chá e nos amamos novamente. Beijos e carinhos com a intensidade e emoção como há muito não fazíamos. Acho que valeu a pena. Sim, valeu.


Olhava, agora só, a paisagem das matas do sovaco do Cristo. Que lindo. Tive vontade até de tornar às poesias de um tempo em que era adolescente na Ilha de Paquetá. Quem sabe ? Quem sabe uma nova adolescência germinava em mim ? Uma adolescência como a que eu tive. Que boa recordação. Germinando. Eu. Novamente.


Tanta coisa diferente tomava corpo naquele momento. Toda a novidade que eu sempre desejei, e eu sabia disso, aconteceu num rompante que agora eu tentava administrar em minha cabeça. Afinal, não era esse o meu desejo ? E se porventura (ventura mesmo, eu digo) transformou-se em algo real, palpável, não era isso o que eu queria ? E esse sonho todo ? Não era meu e dela ? E dele ? Aconteceu ?


Pensar que há poucas horas estávamos nós três aqui. No meu... nosso quarto. Selvageria. Doce selvageria. Maravilhosa selvageria. Talvez há duas semanas eu nem falasse aqui dessa forma. Mas hoje... Eu nela, ele nela, ela em mim, nós nela, ela em nós. Assim. Dessa forma e nessa ordem. Parecia um daqueles loucos vídeos pornôs que eu coleciono.


Caramba ! O sono começou a bater. Que noite... Que dia... Que noite ? Que dia ? Minhas pernas adormecem gostosamente. Meus cabelos desalinhados caem sobre os olhos, mas eu preciso falar. Falar de mim, de tudo. De como isso aconteceu. Do bem que tudo isso me fez. Quero falar para ver se consigo compreender... Entende ? Antes de me largar ao sono do qual eu necessito, tenho que falar.


Foi hoje a noite que começou ? Quer dizer ... ontem a noite ? Quando ela apresentou-o como um amigo. E aí bebemos, ouvimos música, jantamos, conversamos, bebemos... Eu fui dormir e, de repente, me vi acordado e enlouquecido. Hipnotizado sobre minha esposa. Ele ali, olhando. Eu gostei dessa impressão. Eu a possuía e ela a mim de forma animalesca. Eu atrás dela, para onde ele me convidou. Ele ali. Como se estivesse esperando a vez... Estava.


Quanta surpresa. Que irracionalidade !



-2-


Eu a tinha visto algum tempo atrás esfregando-se com uma escova de cabelos. Fingi que não vi, mas ela ficou constrangida. Será que foi mesmo ontem quando tudo começou ? Eu fiquei algum tempo fora, em Brasília, advogando. Quer dizer, lobiando um pouco em favor da minha própria banca (como eles necessitam de advogados...), e... também de onda com uma terceira-secretária de gabinete de um deputado do Pará. Uma gracinha. Com aquela carinha deliciosamente redonda como só as do povo do norte. Curvas. Pele morena. Trinta e sete anos. Fruta pão assada na manteiga. Eu sabia o que queria e ela também. Ok: 1 X 1.


Pode ser que tudo tenha começado no dia em que liguei. Telefonei para avisar que teria que ficar mais um tempo em Brasília, que o caso estava complicado, etc. Parece que ela ficou um pouco triste. Acho que percebeu minha mentira. Ou, mais ou menos mentira. Mais mentira porque era para ficar mais tempo com a minha manga-rosa paraense; menos porque ela também tinha um caso com o deputado e, mesmo sendo terceira-secretária, estava quase conseguindo uma entrevista. Daquelas especiais, com charuto, uísque e jantar no Piantella.


Mas ela poderia ter ficado mais do que triste. Ela pode ter ficado puta da vida e resolvido ir à forra. Com qualquer um na rua. Sei lá ! Liguei três dias depois e onde ela estava ? Em Itaipava. Na nossa casa. Sabe-se lá com quem ... Apenas vingando-se de mim. Mas, se tudo isso que aconteceu foi uma vingança dela... Bendita vingança.


Ainda fiquei mais uns dias. Bela, podre, colossal e estonteante Brasília. Trabalhadora sim, Brasília. Estaria mentindo se dissesse que aquele burgo de poder e sedução não mexesse com minha cabeça. Mistérios e segredos. Amor e raiva, que ódio verdadeiro nunca há entre eles. Brasília me excita. Claro, tem a minha paraense. Mas isso não é tudo. Por todos. Pelos carros que passam velozes. Pelas mãos que se apertam e respectivas bocas que cospem de lado. Brasília é mulher. É uma fênix renascendo. Deitada em leito brasileiro, de braços abertos esperando seus amantes.


A paraense ? Esqueça. Em Brasília não há nomes. Nem eu o tenho ... Quer dizer, tenho. Ou não ?


Acordei. Perdi-me em Brasília, mas acordei. Não. Não pode ter sido quando prorroguei minha estadia lá. Antes disso, poucas vezes a encontrei em casa. Telefonava e nada. Também não mandava a empregada dar o recado. Não valia.


Tudo havia sido muito entrosado. Não podia ser acaso ou coisa de pouco. Foi antes de Brasília. Por quê ? Tudo bem... ainda estou meio zonzo. Imagina... Eu, minha esposa e... outro... Ainda por cima, mais novo e com o pau maior. Puta que pariu ! E a forma como se entregava a ele ? Isso era antigo. Eu sabia. Não era culpa minha...



-3-


Seria culpa minha ? O que eu fiz ? Deixei de fazer ? Não, nunca. E sempre fizemos bem. Fazemos tão bem que um dia cheguei a confessar para ela que tinha um sonho erótico de traição. Ela me traindo. Na minha frente ou não ... Que loucur... Isso ! Aí ! Porra ! Caralho ! Aí está onde isso tudo começou. Aí, bem aí. E quem disparou tudo foi o trouxa aqui ... Trouxa ? Que trouxa... Eu estou feliz.


Se eu estou feliz, ela é leve em seu sono e ele se foi, onde está a culpa ? Que culpa é essa ? Para que questionar onde tudo começou ? Para que mitificar o que virá, o que ainda não é ?


É... Eu bem que estou tentando. Mas na minha racionalidade é difícil de encaixar. Não é possível. Então ela não me quer mais ? Precisa de mais um para satisfazer-se ? Mas também... Não fui eu quem deu a idéia, quem sugeriu ? Não, não sugeri, mas também não deixei de sugerir. Que noite extraordinária ! Parece que as sensações formam uma névoa que entorpece a racionalidade. Eu estou com sono. Mas falo.


Falo até o final porque quero entender. Estar pronto para uma conversa séria quando ela acordar. Aí eu, já mais senhor de mim, vou querer saber como ficará. Como ficaremos.


Também quero saber o que ela pensa. Como tudo aconteceu. Tanto sexo. Tanto carinho. Tanto querer. O que levou a isso ? Entender, entender. Que delicia sentir seu sexo molhado em minha boca depois que tudo se acalmou. Suas coxas suadas e marcadas de amor.


Também não. Tudo o que aconteceu não pode ter iniciado quando eu falei naquela fantasia. Era muito carnal para isso. Instintivo. Era como se tudo sempre tivesse sido assim e que nada estava fora do normal. Eu é que estava com loucuras na cabeça.



Comecei a suspeitar e escanear todo o tempo que passamos juntos. Mais de vinte e cinco anos. Mais do que bodas de prata. Mais do que a história de nossa vida. Mais do que nosso casal de filhos, já casados e bem na vida. Era mais. Muito mais.


A coisa estava na origem. Só poderia ser. Aquelas coisas esotéricas de reencarnação das quais ela sempre falou. Devemos ter programado nossos destinos para isso.


-4-


Talvez todos nós, seres humanos, sejamos programados para isso. Como uma fábrica. Em série. Assim como os manufaturados, a grande maioria funciona corretamente. Escondendo pequenos desvios de funcionamento. Ofuscando-os com brilhantes virtudes. Outros são mais expostos. Não funcionam tão regularmente e causam descontentamento. Alguns mais, poucos como nós, somos os que carregamos todos as nuances do manufaturamento. Somos brilhantes e sabemos nos utilizar da loucura do arrebatamento e da compulsividade para agradar a todos. Para nos agradar e sermos felizes. Quer dizer, funcionar.


Então Deus planejou isso tudo ? E isso lá não se chama sacanagem e putaria ? Parece. Óbvio. Se crermos realmente com fé na origem divina e, sendo parte dessa origem ... Deixa pra lá. Metafísico pra caralho...


Mas essa, realmente, derrubou-me. Não sei se deveria falar assim, mas deixou-me de quatro. Tudo bem. Suponhamos que eu compreenda como tudo aconteceu e mais: que tenha achado onde tudo começou. E foi bom e ponto. Maravilhoso. Pra muito lá de bom. Se eu entendo, compreendo e gosto da idéia, por que ficar procurando o porquê ? Aí é que está. Eu concordo com tudo o que houve, mas não posso deixar de querer saber e preocuparme sobre como vai ser assim que ela acordar. Digamos que por mim, tudo bem. E se ela não me quiser mais ? E se ela desejar um mundo novo ?


Será que essa insegurança também é coisa da origem de tudo ?


Cochilei e acordo agora, com ela chamando o meu nome. Pão de forma, manteiga, geléia, queijo, presunto, capuccino, suco... Quanto carinho para me receber na cozinha... Beijinhos e pequenos apertões aqui e ali. Tudo como sempre. Numa boa. Como se nada tivesse acontecido. Ela perguntou:


Amor, já que você ficou tanto tempo fora, por que não tirar uns quinze dias na serra ?


Sem pestanejar, mandei na hora:


Você não gostaria de passar esses quinze dias em Brasília ? Eu lhe mostrarei a magia daquela cidade.


Ela concordou.


No mesmo momento comecei a pensar na minha paraense. Nela e na minha paraense. E eu. Três. Novamente.


Talvez ela simpatizasse com o deputado... Mas aí mudaria a geometria toda.

-*-

A alegria dos
prazeres inofensivos
(Roberta Simoni)


Respirar cheiro de gasolina. Pisar em folhas secas nas ruas de outono. Ver a primavera florindo. Dormir sem roupa no verão. Nadar pelado. Comer chocolate, tomar sorvete no inverno. Ter muitos orgasmos. Ver o pôr-do-sol. Ouvir o silêncio da madrugada. Sentir o cheiro da terra molhada. Caminhar na beira da praia. Compor uma música. Tocar uma viola. Escrever uma poesia. Dar um beijo apaixonado. Acordar ao meio dia. Viajar sem comprar passagem de volta. Dar presentes. Receber presentes. Escrever uma carta. Receber uma carta. Ler um livro. Escrever um livro.

Ter um sonho bom, dormindo ou acordado. Brincar de pique-se-esconde. Tomar banho de água quente. Cantar debaixo do chuveiro. Ser acordado com beijos na nuca. Entrar numa calça que antes não cabia. Andar descalço. Tomar chocolate quente no frio. Ter uma mangueira no quintal de casa. Ter um quintal. Ter uma casa.


Jogar baralho. Ganhar uma aposta. Abraçar um amigo. Se embriagar com um amigo. Ter um amigo. Rir sem motivo. Sentir frio no umbigo. Fazer uma surpresa. Ser surpreendido. Ganhar dinheiro. Trabalhar com o que se gosta. Viajar o mundo. Se perder no mundo. Se encontrar sem estar perdido. Banho de chuva. Paixão de verão. Cinema com pipoca. Amizade canina. Espera no portão. Cheiro que trás lembrança. Colo de mãe. Gargalhada de filho.

Um brinde à alegria dos prazeres inofensivos, esses que costumam ser tão pequenos que, às vezes, não passam de detalhes. Detalhes que dão cheiro, cor , sabor, e, principalmente, sentido à vida.

18 julho 2009

Soneto Torto e Quase Antropofágico
Sobre Mim e as Estrelas

(que em sua construção - pelo nome de Bilac ! -
não se perca)


Se estrelas não tivesse ouvido,
certamente cá não estaria,
senão abaixo dos umbrais, eximido.
Da vida. Interno em enxovia.

De poesia, lua e sol abandonado.
De canto e de amor carente,
ao canto, trapo humilhado.
Cruz aos ombros, ad eternum doente.

Então escuto e não as ouso entender.
Vivo seu som e voz. Também luzes mais que escuto
dum quarto, num espaço de crer.

Por estas luzes, que escuto, e todos os sons, que vejo,
arranco a minha repulsa da vida em luto.
Somo tudo e tiro a média, na rima quebrada do beijo.


03 julho 2009

Estrambote Melancólico


Carlos Drummond de Andrade

(bronze de CDA em Itabira)


Tenho saudade de mim mesmo,
saudade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d'alva
penetra longamente seu espinho
(e cinco espinhos são) na minha mão.