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05 setembro 2008

Os petiscos de Felipe
(Mão Branca)

A moçada divertia-se no bar. Chamavam cervejas, contavam causos, o mais animado era Felipe, havia finalmente comido a vizinha e contava todos os detalhes com gestos. Riam. Era o centro das atenções. Somente Kátia, a vizinha, permanecia calada.

Ele viu, escondida ao fundo, uma conhecida a quem emprestara dinheiro. Sabia que a mulher era carne de pescoço, desvencilhava-se dos compromissos, mentia e difamava para livrar-se de dívidas. Não deveria ter emprestado, mas ela o ludibriara choramingando sobre dores e privações. Era mixaria, não fazia falta, porém o que incomodava era a desfaçatez da devedora. Se não podia pagar, não deveria estar gastando com bebida.

- Oneide! – Gritou ao fim do causo, olharam para ela. – Escondida de mim? – Sorriu. Era carismático. Tinha em si a atenção do bar. Endureceu o cenho e falou ríspido. – Tá pensando que vai me dar o calote? – O clima ficou pesado, muitos silenciaram. A mulher encolheu-se ruborizada na cadeira. Felipe emendou: - Sem trote. Tem minha grana?

Ela gaguejou, respondeu coisas desconexas, tentou se justificar culpando outro alguém, sem explicar como tal pessoa poderia ser responsável, e não ela própria, pela dívida.

- Não tente me enrolar, Oneide! – Cortou Felipe. Risadas ecoaram, conheciam a mulher, uma trambiqueira imoral que se dizia desafortunada, embora possuísse imóveis e investimentos. Tinha o hábito de pegar carona para economizar o carro, de surgir nas casas alheias durante as refeições para filar as bóias, nunca pagava 10% aos garçons, se pagava a conta, pois era comum desaparecer nestas hora. – Tem meu dinheiro?

- Sim. – Balbuciou a mulher. A boca rasgada lembrava a de um baiacu seco na areia. – Vamos até minha casa, lá te darei o dinheiro.

“Ohhh”, gozaram os amigos do rapaz, aplaudindo o pagamento. Seria a primeira vez que alguém resgataria uma dívida com aquela pilantra.

- Quando eu voltar, pagarei a rodada! – Gritou o jovem. “ÊÊÊ”, responderam.

Demoraram quase duas horas. Kátia reclamou durante todo o tempo: “Cadê o Felipe?”, “que atraso”, “onde foram?”, “será que aconteceu algo?”.

Oneide apareceu na porta do bar, um saco plástico na mão e uma expressão indefinível no rosto. Depois diriam ser sadismo, ou loucura.

- O Felipe recebeu o dinheiro e voltou para casa. – Anunciou. Muitos estranharam, ele vivia no bar. – Me pediu para trazer isto. – Levantou a sacola. – São vísceras: fígado, coração... para fazer o petisco da cerveja.


“Grande Felipe”, ouviu-se. “Sempre alimentando os amigos”, murmurou outro. Levaram o saco para a cozinha, limparam e temperaram a carne. Fritaram em pedaços que serviram a todos no recinto.

- Uma delícia. – Aprovou Kátia. – Gostosa como o próprio Felipe. – Os amigos deram risadas e lamberam os beiços satisfeitos.

Durante a semana os assuntos no bar foram as vísceras de Felipe, “saborosas como o próprio”, gracejavam da namorada. Esta, contudo, andava encucada com o sumiço do rapaz.

Surgiu nas redondezas o boato que Oneide havia sido presa. Kátia foi convocada à Delegacia para prestar depoimento sobre a mulher.

– É uma pilantra. – Segredou Kátia ao policial, satisfeita por avalizar a má-conduta da mulher.. – Foi presa por dívida?

- Coisa pior. – Disse o policial. – Assassinato.

- Assassinato? – Tremeu a moça. – De quem?

- Não sabemos ao certo. – O homem consultou uns documentos. – Achamos um cadáver meio enterrado em sua casa. Morto há uma semana.

A moça sentiu vertigens.

- Uma semana?

- Sim. – O homem foi até o computador. – Ainda não fizemos o reconhecimento. – Abriu umas fotos e as examinou. – Era um rapaz. – Fez uma careta. – Foi brutal. Ela o matou com uma pancada na cabeça, depois abriu sua barriga e arrancou as vísceras.

- Vísceras? – Tremulou Kátia.

- Sim, ainda não as encontramos.

A moça esforçou-se para falar. Uma golfada de vômito prendia-se em sua garganta. A voz saiu fina, embargada.

- “Saborosas como o próprio Felipe”.

28 agosto 2008

O Deus da Raça
(Alexandre Campinas)

Existiu um tempo em que eu era menino. Existiu um tempo de tardes abençoadas de domingo quando tomávamos a rampa de baixo para sair em cima. Quem conhece, sabe o que é. O calor. Atrás do gol. Ali. Bem ali. Duas horas antes da missa. Da nossa missa. Liturgia igual. Senta, levanta, em-nome-do-pai, hosanas, vestes sagradas. O gol. A consagração: Corpo e sangue. Irmãos, saudemo-nos uns aos outros. O apito final, vamos em paz.


Sim, íamos em paz. Íamos cantando pela rua Barão de Mesquita, impregnados daquele espírito divino que agora habitava em nós. Uma certeza: no próximo domingo haveria novamente a missa. E levantaríamos e sentaríamos e ajoelharíamos. Nós tínhamos uma religião. Éramos crentes devotos daquela mensagem que enchia nossos corações com o júbilo sagrado de um amor inexplicável. O sentimento religioso não se explica. Tem-se fé. Pronto.


Acompanhávamos as entrevistas do catequista, saudoso Coutinho, durante a semana. Ele está machucado. Joga ? Não joga ? Deus está ferido, abatido, doído. Talvez saíssem lágrimas de seus olhos. Talvez. Talvez Deus tivesse dúvidas. Isso abalava nossa fé. Esperávamos ouvir Deus na Rádio Globo, entrevistado pelo Danilo Bahia. Deus estava calado.


Nem era jogo tão importante, decisivo, mas a simples idéia de que Deus não estaria conosco abalava a crença. Não, não poderia ser. A Flajaú estava em ponto de bala nas arquibancadas. Todas as suas duas bandeiras tremulavam. A rota faixa, presa no gradil do anel superior. Uma imensidão de quatro ou cinco associados roia as unhas.


Um alarido transforma-se em ruído. Daí para a explosão do time entrando em campo é um flash (doce flash back nos dias atuais). Todos eles lá. Carpegiani, Zico o maior e eterno herói, ídolo supremo. O neguinho brilhante e lustroso Adílio, a muralha Cantarelli, Júlio César um louco varrido, imperador da ponta-esquerda, o Tita, Toninho, Capacete, o guarda-roupas Manguito, o príncipe Adão. Ele entra por último. Sim, ele joga ! Deus joga. E muito.


O dono da camisa 3. Deus.


O Deus da raça. Rondinelli.


"Oh meu Mengão

Eu gosto de você

Quero cantar ao mundo inteiro

A alegria de ser rubro-negro."


Amém.




26 agosto 2008


Jardim Botânico
(Foto: Patrícia Bittencourt)



QUINTAL
(Rogério Santhana)


Lá onde o céu e as montanhas se encontram,
Onde o sol vem mostrar seu clarão.
Lá rouxinóis, girassóis e lençóis de linho,
Rocas, fios de algodão.
Entre sempre-vivas o meu coração,
E que sempre viva o teu coração.

Lá onde a lua clareia os caminhos
Que nos levam ao nosso quintal.
Lá bem-te-vis, colibrís, bem feliz meu olho
Bebe fatias de luz.
Entre sempre-vivas o meu coração,
E que sempre viva o teu coração.

16 julho 2008

GERAÇÃO 70
(Taiguara)


Nós estamos inventando a vida,
Como se antes nada existisse,
Porque nascemos hoje do nada,
Porque nascemos hoje pro amor.
Nós estamos descobrindo os corpos,
Como a manhã descobre as imagens.
Como o amor descobre a verdade,
Como a canção descobre uma flor.
Nós queremos desvendar há tempo,
Esse mistério azul de oxigênio,
Esse desejo imenso de sexo,
Essa fusão de angústias iguais.
E nós vamos resistir sem medo,
A solidão de um tempo de guerras,
E nossos sonhos loucos e livres,
Vão descobrir e celebrar a paz!


Ao ver os mesmos escândalos
- de sempre -
e perceber que a espoliação corrupta
continua igual e ilimitada
como sempre o foi,
prestar atenção ao que cantou
Taiguara é fundamental.


TENHAM VERGONHA
PARA SER BRASILEIROS !

24 junho 2008

Paul & Clapton em

Something
(George Harrison)


Something in the way she moves
Attracts me like no other lover
Something in the way she woos me

I don't want to leave her now
You know I believe and how

Somewhere in her smile she knows
That I don't need no other lover
Something in her style that shows me

I don't want to leave her now
You know I believe and how

You're asking me will my love grow
I don't know, I don't know
You stick around now it may show
I don't know, I don't know

Something in the way she knows
And all I have to do is think of her
Something in the things she shows me

I don't want to leave her now
You know I believe and how

14 junho 2008


Um poema-sinfonia
um tango-poesia:


Adiós Nonino
(Ástor Piazzolla)





Despedida
(Jorge Luiz Borges)

Entre mi amor y yo han de levantarse
trescientas noches como trescientas paredes]
y el mar será una magia entre nosotros.

No habrá sino recuerdos.
Oh tardes merecidas por la pena,

noches esperanzadas de mirarte,
campos de mi camino, firmamento
que estoy viendo y perdiendo…



Definitiva como un mármol
entristecerá tu ausencia otras tardes.



Um pouco de Borges por Borges



A Kinha ... é Fogo !

(Que pena... Há tantas outras opções...
com cores, pelo menos !)

Não sei a quem puxa a literatura
desta adolescente querida
...

Mas o VOANDO ESCONDIDA foi destaque
entre os blogs indicados
pela revista
ATREVIDA

Olhos Vazios
(Kinha)



Olhos vazios,
Olhos que não dizem a real verdade sobre você.
Olhos que chovem sobre mim.
Chuva ácida que me perfura.
Chuva que arranca a minha raiz.
Chuva que vem em uma maré de Pesadelos.
Maré que ilumina em olhos negros,
Olhos que me colocam no chão.
E no chão, eu não espero mais nada.
No chão,
Choro por mais uma questão inútil.
Choro mais uma vez por você.
Você que chove em dúvida,
Você que mente sem falar.
Não é uma mentira exata...
Não é uma mentira boa.
É a sua mentira.
Aquela que me impede de fazer algo produtivo,
Esta que me prende ao seu lado,
Esta que me faz ser seu objeto,
Dentro da minha mentira.
Até parece que eu não sabia.

-*-

E esta coisa do amor adolescente, lindo,
apaixonante mesmo, lembrou-me uma música,
aqui em duas versões:

Beto Guedes

Dalto


Ok, ok... Atendendo aos pedidos,
uma versão mais atual
(para que ninguém diga que sou radical...)

Patrícia Marx

(Taí... Gosto do sobrenome...)

Clique e escolha a sua !

18 maio 2008

Como é bom ser doutor
nesta terra!


SEBASTIÃO NUNES


Meu vizinho da frente, muito abusado, estava me enchendo a paciência. Todo dia cantava o hino do Galo (ou do Cruzeiro, não lembro direito), no maior entusiasmo. E ainda ficava fazendo piadinhas contra o Cruzeiro (ou o Galo, não sei mais).

Como torcedor do América eu não deveria me incomodar, nossa torcida é gente fina e cabemos todos numa Kombi, como dizem os linguarudos. Cabemos nada. Tem jogo em que passamos de 999 pagantes, só não gostamos de barulho. Somos torcedores, mas não somos fanáticos.

Além do mais, entre nós existe gente importante, tipo Plínio Arantes, grande advogado; Fernando Brant, compositor finíssimo; tem até ministro, taí o Luiz Dulci que não me deixa mentir. E muitos outros da maior importância, que não vou citar pra não pensarem que estou enchendo lingüiça ou puxando saco. Aprendi a gostar do América com meu pai Levi, que também era americano, só que torcia pelo América do Rio, alguém aí tá lembrado? De vez em quando ressuscita, joga um campeonato, perde de quatro, cinco, oito, e volta pro seu canto, até ressuscitar de novo.

Time que é time não morre, quero dizer, quase nunca morre. Mas que alguns vivem agonizando, ah, isso vivem. E mais não digo pra não ofender ninguém.

DESGRAÇA POUCA É BOBAGEM. Como ia dizendo, meu vizinho da frente cantava e fazia piada o dia inteiro. Não me atingia, claro. Sou educado, torço calado no meu canto, mas um dia endoidei. E quando fico doido ninguém me segura, mas não segura mesmo. Viro bicho. No dia que endoidei, peguei um pedaço de pau e dei uma porretada arretada no portão do vizinho, que estava na maior cantoria.

Ele botou a cabeça na janela, ficou me olhando meio zarolho, e perguntou: - Que foi, companheiro? Tá querendo arrebentar meu portão? Dei outra porretada arretada, bem debaixo do nariz dele, e desafiei: - Que portão, que nada, cara! Eu quero arrebentar é sua cabeça. Pula cá pra fora se você é macho!

Ai, meu Jesus Cristinho - e não é que o homem fechou ainda mais a cara, armou uma carranca, pegou uma faca na cozinha e desceu mesmo? E já desceu gritando: - Pois então vai arrebentar e é agora. E se não arrebentar eu te sangro que nem porco, igual fazia na roça.

COMEÇOU, TEM DE ACABAR. Fazer o quê, né? Franzino e fracote como sou, enfrentar aquele gigante, ainda mais de faca na mão? Não teve jeito. Levantei o porrete e - pum! Afundei a cabeça dele, que caiu sem um gemido, tremendo feito galinha degolada. De repente, apareceu aos berros a mulher, mais doida que eu, e já veio querendo arranhar minha cara, com as unhas pontudas e vermelhas. Se não fico esperto, estava agora todo riscado. Mas aí pensei que bater de pau em mulher é feio, não é coisa de gente educada.

Então peguei a faca do vizinho no chão e espetei na barriga dela. Aí ela parou de gritar, botou a mão na barriga, ficou me olhando calada e eu reparando na barrigona, que subia e descia como sapo resfolegando. Então apareceram uns fiozinhos de sangue entre os dedos, ela ficou amarela e as pernas amoleceram. Foi quando escorregou encostada no muro e caiu sentada, me olhando sem ver, passando a língua nos beiços brancos.

Também começou a tremer e a soluçar baixinho. Aí apareceu a mãe dela, uma velha balofa e ensebada, que saiu no portão sem saber de nada, assustada com a gritaria. Quando viu o genro de cabeça quebrada e a filha nas últimas, quis voltar pra dentro e chamar a polícia, só podia ser pra telefonar e chamar a polícia. Dei tempo? Dei nada. Corri atrás dela, passei uma rasteira na velha que caiu de boca no cimento da escada. Fiquei na dúvida se acabava com ela também - e é nisso que dá ficar na dúvida. Foi parar pra pensar e logo fui agarrado por uma montoeira de mãos. Eram os vizinhos xeretas que tinham visto tudo e vinham separar a briga.

QUEM PODE, PODE. Me esfregaram no cimento, arranharam minha cara toda, me deram soco em tudo quanto é lugar e, quando fiquei meio bobo, assim meio desmaiado, me amarraram com as mãos nas costas, como se eu fosse marginal da pior espécie. Logo eu, um sujeito sossegado, que gosto de assobiar e chupar cana, de ficar na minha, logo eu. Quando dei fé, estava na delegacia, sentado num banquinho tosco, os vizinhos me olhando de banda, cada um com a cara pior que o outro.

Mas ninguém dizia nada, só olhava. E era com ódio que olhavam, como se a culpa fosse minha. Com medo, eu? Nem aí pra essa corja de atleticanos e cruzeirenses. Tirei um cigarro do bolso, botei na boca, peguei o isqueiro - e um guarda deu um tapa na minha mão, jogando isqueiro e cigarro longe: - Mais respeito aí, cara! Tu não tá na tua casa, não! Ah, pra quê? Foi então que soltei os cachorros em cima dos infelizes: - Tão pensando o quê, seus babacas? Sou bacharel formado em direito, tenho diploma, entendo de leis, tão sabendo?

Estudei cinco anos, aprendi tudo, dou nó em pingo d’água, prendo saci em garrafa e pego rodamoinho com peneira! Mais que depressa o guarda tirou o boné, o chapéu, sei lá como se chama. A vizinhança se afastou, todo mundo encostou a bunda na parede, de boca aberta. Foi quando a porta se abriu e apareceu, todo sorridente, o delegado: - Então, colega? Estão te desconhecendo, não é mesmo?

Bons tempos aqueles de Santo Antônio das Abobrinhas e da faculdade de direito! Dá uma saudade... Vai um cigarrinho? Deixa essa turma pra lá, vamos tomar um café. Temos muito que conversar. Como deu flagrante, você vai ficar preso uns dias, mais pra despistar. Mas não se preocupe.

É cela especial, com TV, cama boa, o que precisar. E pode ligar pra um bom criminalista da minha sala. Mas fica frio. Isso não dá nada, é só fogo de palha. Me passou o braço no ombro e fomos rindo e conversando pra sala dele. Sentei, acendi o cigarro, provei o café - sim, senhor, nada como ser doutor nesta terra!

26 abril 2008


LINGUAGEM
(res + pers + ins = ex: istência)
(Alexandre Campinas)


Suas mãos postas, súplices:

"Desiste" !

Bobagem. Ajoelho e lavo (as suas).


25 abril 2008

OS DENTES NÃO VOLTAM
(Uma velha canção pop'n'roll)


(Alexandre Campinas)





Por que aquele maldito dente tinha que quebrar apenas com uma mordida de pão francês ? Não. Não era na frente, nada que exacerbadamente constrangesse. Mas quebrou. Ficaram apenas cacos relativamente presos na gengiva. Já não é o primeiro. Filosofo na frente do espelho: da mesma forma que vêm, vão-se. Aos poucos. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Ao virem, causam febre. Vi minha febre no espelho à partida. Tava lá. Estampada como manchete da primeira. Como link de propaganda: Browse it, Browse it !, gritava, vociferava. Ardia, acima de tudo. O espelho mostrou tudo. Alice. Pobres, todos, alices. E fui apenas olhar um dente moribundo... É meu Aleph particular, um tanto revisitado, outro tanto curtido. Entretanto jamais mediado como agora. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Houve de ser o espelho quem mo avisasse. E foi bruto ! Apontou o grisalho de tudo, os pequenos sinais e pintas que só percebia transmudarem-se em marcas senis na face de meu pai. Agora tudo parecia queimar-me as ilusões de uma adolescência que já não é. Febre. Há cigarro demais, há fundamento demais para pouca construção. O espelho. Tudo emerge de mim voluptuosamente. Sonhos, planos, o que fiz e o que não. O que pretendo e o que não entendo. Tudo, agora, faz sentido. As chispas fraternas que tanto abalaram, o olhar alheio, perscrutador, inquisitório. Cobranças infindáveis, inquietação irritante. Sou uma falha-que-anda. Um tropeço divino. Um extemporâneo que julga-se atemporal. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.

O espelho. Guarda-metas de qualquer tentativa de projeção mais funda do que é permitido. Mostra o quão inadaptável sou. Ok, ok... Sem reclamações desta vez. E é ele quem determina. Pauta. Jogo nele o Sá, o Guarabira, o Beto, o Barão, o Taiguara, o Legião, o Lula, o Montenegro, o Noel, O Capital . Ele não reflete. Ou, por outra, belchioriza a resposta: “viver é melhor que sonhar”. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Tudo está maus. "Então foi tudo sonho ?", tento argumentar. Ele responde: “Piegas”. Não. Não são meus, aqueles olhos. Nada ali sou eu. E tudo sou: junto da gengiva, sobretudo, cacos. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


O adágio apregoa, e eu tô ligado nele, só nele. Enquanto há vida, há esperança. Do pc, lá na sala, baixinho, porque madrugada, um arquivo mp3 implora, vindo lá do fundo da adolescência: é o Celso quem pede “aumenta que isso aí é rock'n'roll”. E já é um indício. Quase um grito libertário: um suicídio para tudo que é, em direção ao que – ainda – pode ser.


Na seqüência da playlist uma confirmação de que ainda não sou aquele do espelho (embora, desgraçadamente, ele se pareça comigo; e eu, tanto com ele). Uma confirmação de que em mim tudo deverá continuar como é (apesar dos dentes que não voltam) e de que não sou (o único) anjo torto. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Conta aí, Lô, o que o Márcio escreveu:


“Sinais de bem desejo de cais
Pequenos fragmentos de luz
Falar da cor dos temporais
De céu azul das flores de abril
Pensar além do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu
O mundo lá sempre a rodar
E em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer”



Canta junto aí !


22 abril 2008


MISSA DA TERRA SEM-MALES
(D. Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra)


Abertura

Em nome do Pai de todos os Povos
Maíra de tudo,
excelso Tupã.
Em nome do Filho,
Que a todos os homens
nos faz ser irmãos,

no sangue mesclado
com todos os sangues,

em nome da Aliança da Libertação.

Em nome da Luz de toda Cultura,
Em nome do amor
que está em todo amor.


Em nome da Terra-sem-males,
perdida no lucro, ganhada na dor,

em nome da Morte vencida,
em nome da Vida,

cantamos Senhor!


Eu era a Terra livre,
eu era a Água limpa,

eu era o Vento puro,

fecundos de abundância,

repletos de cantigas.
E nós te dividimos
em regras
e em fronteiras.

A golpes de ganância retalhamos a Terra,
invadimos as roças
invadimos as tabas,
invadimos o homem.
Eu fazia um caminho
a cada vez que passava.


Era a Terra o caminho
,
o caminho era o homem.


Assista a uma cena AQUI

Leia AQUI sobre a questão indígena:
sem máscaras


(Alexandre Campinas participou
da montagem da Missa da Terra Sem-Males,
no Rio de Janeiro, em 1984,
Grupo K Entre Nós,
direção de Mário Sérgio Medeiros)



Úteros de Carpete
(Kinho Vaz)



O dia nasce nos golpes sucessivos do badalo. Um som
que se entranha pelos poros estimulando uma leve
consciência. Os olhos permanecem fechados. O corpo
entorpecido pelo resto de sono. As juntas resistem
a qualquer movimento. Reclamam. Têm vozes
que berram na mente um grito de socorro.
Fazem muito barulho. Os ouvidos despertam.
Apuram o mundo. Sintonizam canais em
busca de um som. Reconhecem o sino do mosteiro.
Que bate firme. Que bate fundo. Que bate
estaca. Crava na percepção o limiar da realidade.
Anuncia o tempo em seu ritmo imperativo.
Os olhos se opõem. Reagem. Apertam
as pálpebras. Entrelaçam os cílios como
uma rede de proteção. Última linha de defesa.
Pronta para impedir que nada saia, que nada entre.
Barreira do limbo. O corpo
todo se esforça para reabrir o portal dos
sonhos. Submergir novamente na paz oceânica.
Se entregar à sensação do abandono pleno.
Vagar no vácuo. Ignorar a vida. Mas é tarde.
Não há caminho de volta.


As buzinas já avisam que o sinal abriu. Os motores
já começam a arrotar os soberbos desjejuns.
Os passos apressados surgem como ecos.
Pisam com estrondo num chão que parece
metálico. Propagam o aviso do seu
caminhar em ondas que se multiplicam.
Que se espalham como notícia ruim. É a
horda dos aceitos que chega,
caminhando a sua indiferença. Trazem também
as vozes. Não esta. As outras, que falam de tudo.
Que sorriem. Que xingam. Que cantam.
Que aumentam e diminuem. Que profanam a
vida latente no útero de carpete.
Chegam disparando o sinal de alerta.
Deixam o espírito em estado de vigília. Fazem a
razão se espalhar em picadas miúdas e doloridas.
Surreais como uma chuva de alfinetes.
Fustigam o corpo até que vem um tremor
mais forte. Esse, provocado pelas portas do
comércio subindo com seus disparos de
metralhadora. São as matracas que anunciam
o ritual da purificação.
O momento da maquiagem que disfarça
a cicatriz. Do curativo inútil na
ferida gangrenada.


É o instante que introduz os sons da
desfaçatez. Do barulho da água lançada ao
calçamento. Do chiado agudo das vassouras
esfregando o assoalho do purgatório.
Compondo com o sino do mosteiro o arranjo
de uma ópera-bufa. Uma peça de
paródia, onde baianas sem máculas lavam
as escadarias do templo usando cântaros
de creolina. O cheiro forte invade as
narinas. Queima os pulmões.
Faz os olhos chorarem sem querer,
vertendo privações. A língua pastosa descola do
céu da boca. Desperta insossa e ressecada.
Incapaz de decifrar o sal da lágrima.
O estômago pesa sua inatividade.
Pondera a possibilidade do alimento.
Lembra a urgência da fome. Está tão
contorcido e vazio quanto o saco plástico
que ontem continha a cola de sapateiro.
A química de onde se aspira instantes de paz.
Momentos de ternura com lares, leitos e
leite quente ao deitar. Tudo que
não é real. Nada que se faça tão presente
como o cutucão do cabo da vassoura.
Cócegas nas costelas. Nem tão alto
como o grito de “tá na hora!”.
Beijo de bom dia.


O primeiro pontapé é recebido como
um carinho. Confundido com o delírio do
sonho. Pensa ser a mãe que nunca existiu,
chamando para a escola que nunca
houve. O segundo chute vem mais forte.
Não deixa dúvidas de quem está chamando.
Nesse ponto a vassoura muda de função.
Assume o papel de fórceps. Busca
uma brecha na cápsula de trapo. Vasculha
o interior do casulo como um instrumento de
curetagem. E com precisão cirúrgica se transforma
num tridente. Símbolo do mal.
Começa a atiçar a carne com suas fibras
de piaçaba. Provoca mais dor. É mais um motivo
para acordar. Para desinfetar dali. Para abortar
a tentativa de fugir à realidade.
Para continuar sobrevivendo.

Então se dá a revelação. O mistério da vida
gerada nas ruas. O instante sagrado onde os mundos
se tocam. O útero de carpete se rompe. Dá à luz
o improvável. Expulsa do seu interior um
pequeno ser. Quase humano.
Que apanhou e chorou para nascer. Como
toda gente. Mas que não terá colo, nem seio,
nem berço.

Nem a promessa de voltar a nascer amanhã.



(A árvore da vida indígena - Siegfried Kreutzberg)

Saiba

(Arnaldo Antunes)


Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem

Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você


Genial:
para desconstruir o fascismo
de Tropa de Elite.

Veja AQUI.

21 abril 2008

GATA NEGRA DO VALE CENTRAL
(Alexandre Campinas)


Te sinto maçã verde
enquanto a ameixa passeia
nas estrelas do céu
da minha boca.



Um beijo de amora,
orvalhada nas gotas
do baobá imenso,
antecede
paladares profundos:

teu sexo violáceo,
rubro por mim.



06 abril 2008



Socialismo "Crístico"


Este é o espírito da coisa !

Dom Hélder Câmara,


na Missa dos Quilombos,


faz a

INVOCAÇÃO À MARIAMA



Mariama, Nossa Senhora Mãe de Cristo e Mãe dos Homens!

Mariama Mãe dos Homens de todas as raças,

de todas as cores, de Todos os cantos da Terra.
Pede ao teu Filho que esta festa não termine aqui,
a marcha final vai ser linda de viver.

Mas é importante, Mariama, que a Igreja de Teu Filho
não fique em palavra, não fique em aplauso.
O importante é que a CNBB, a Conferencia dos Bispos, embarque de cheio na causa dos negros, como entrou de cheio
na Pastoral da Terra e na Pastoral dos Índios.


Não basta pedir perdão pelos erros de ontem.
É preciso acertar o passo hoje sem ligar ao que disserem.


Claro que dirão, Mariama, que é política,
subversão, que é comunismo.

É Evangelho de Cristo, Mariama.


Mariama, Mãe querida, problema de negro,

acaba se ligando com todos os grandes problemas humanos.
Com todos os absurdos contra a humanidade,

com todas as injustiças e opressões.

Mariama, que se acabe,

mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas.
O mundo precisa fabricar é Paz.


Basta de injustiças, de uns
sem saber o que fazer com tanta terra
e milhões sem um palmo de terra onde morar.

Basta de uns tendo de vomitar pra poder comer mais
e 50 milhões morrendo de fome num ano só.

Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo
e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.

Mariama, Nossa Senhora, Mãe querida.
Nem precisa ir tão longe como no teu hino.
Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias
e os pobres de mãos cheias.

Nem pobre nem rico.


Nada de escravos de hoje
ser senhor de escravos amanhã. Basta de escravos.

Um mundo sem senhor e sem escravos.

Um mundo de irmãos.

De irmãos não só de nome e de mentira.
De irmãos de verdade,

MARIAMA.

26 março 2008

Rhythm and Poetry





URSO FASCISTA

("Fat A")



DESCENDO AQUELA RUA COM UM IRMÃO

ENCONTREI COM VOCÊ NA CONTRAMÃO.

EU SOU DA COR, MAS ISSO NÃO DIZ NADA:

POR QUE VOCÊ ME OLHOU E MUDOU LOGO DE CALÇADA ?

QUALQUER COR TEM UM GUERREIRO

DE TODAS AS CORES É FEITO UM BRASILEIRO.



MAS VOCÊ NÃO ENTENDE, HIPOCRISIA

EM SUA VIDA ESCROTA DE BURGUESIA

VOCÊ NÃO SABE NADA; COM TANTA INFORMAÇÃO

É MAIS UM ALIENADO NO MEIO DA MULTIDÃO.


VOU TE DAR UMA IDÉIA, MAS NÃO QUERO QUE SE IRRITE:

QUALQUER CARNE QUE NÃO SEJA BRANCA COMO A LUA,

PODRE E CORROMPIDA, EXATAMENTE COMO A SUA,

VOCE PRENDE, JULGA E CONDENA: FILÉ MIGNON PRA TROPA DE ELITE.]

UM SHOW DE SANGUE DIÁRIO NA FAVELA

RECORTE DA REALIDADE FEITO SÓ PRA ALIMENTAR

UM BOLSO DELIRANTE, PRONTO PRA ENGORDAR.

NOSSA VIDA É MUITO MAIS, MUITO MAIS DO QUE AQUELA

ILUSÃO, SENSO COMUM, FILME REACIONÁRIO, PORCARIA

IMITAÇÃO BARATA DO QUE CANTA MINHA VOZ

UMA IMAGEM PERDIDA, DA MINHA PERIFERIA.

NÃO, VOCÊ NÃO DESTRUIU O SONHO DE TODOS NÓS.



MAS VOCÊ NÃO ENTENDE, HIPOCRISIA

EM SUA VIDA ESCROTA DE BURGUESIA

VOCÊ NÃO SABE NADA; COM TANTA INFORMAÇÃO

É MAIS UM ALIENADO NO MEIO DA MULTIDÃO.



NÃO VOU ACEITAR: É SUA VIDA, SEU PROBLEMA.

VEIO O FILME E O SUCESSO PRA ALIMENTAR ESSE SISTEMA.]

NA ESCOLA DA QUEBRADA, NA HORA DO RECREIO,

BRINQUEDO DE SACO PLÁSTICO JÁ NINGUÉM MAIS TEM RECEIO.]

VOU TE DAR A LETRA, AGORA É MINHA VEZ.

DOIS MOLEQUES BRINCANDO: VEJA O MAL QUE VOCÊ FEZ.

A DIVERSÃO É A TORTURA,

IMITAÇÃO DA CANA DURA.

HOJE EM DIA ATÉ OS MANOS ESQUECEM DA REALIDADE:

FAMÍLIA, AMIGOS, COMUNIDADE.

PASSAM A ENTENDER A VIDA DA PERIFERIA

COMO SE FOSSE ESSE FILME RECORTADO,

IMITAÇÃO BARATA DE PAU-MANDADO

REPRESENTANTE DA FORÇA INJUSTA QUE SÓ PREGA BAIXARIA]



MAS VOCÊ NÃO ENTENDE, HIPOCRISIA

EM SUA VIDA ESCROTA DE BURGUESIA

VOCÊ NÃO SABE NADA; COM TANTA INFORMAÇÃO

É MAIS UM ALIENADO NO MEIO DA MULTIDÃO.



EU PARO POR AQUI, MAS A REAL CONTINUA.

LARGA DO MEU POVO NESSA HISTÓRIA QUE É SÓ SUA.

TRANSGRESSÃO DETURPADA, OITÃO DA COMUNICAÇÃO,

ARMA QUE NÃO QUERO, FICA SÓ NA SUA MÃO.

MEU CALIBRE É BEM MAIOR, NÃO PRECISO DA SUA TELA.

NA MORAL EU CANTO A PAZ, FRATERNIDADE NA FAVELA.

TEM COISA RUIM, TEM COISA BOA, MAS NADA É TÃO FRATICIDA]

QUANTO O PODER DO DINHEIRO, QUE SÓ CORRE NA AVENIDA.]

CAPITAL DE GIRO VIOLENTO, CAPITÃO NASCIMENTO NÃO REVELA]

QUE AQUI NÃO NASCE GRANA, O DINHEIRO VEM DE FORA DA FAVELA.]

ROUBO, FALCATRUA, GOLPE E CORRUPÇÃO.

O DINHEIRO BANCA TUDO: DO PÓ À ELEIÇÃO.

LADRÃO JÁ FOI CRIANÇA, COLEGA DE ESCOLA, MANO MEU SEMPRE SERÁ.]

NÃO É PELO ERRO QUE EU VOU LHE RENEGAR.

MAS NO ASFALTO É DIFERENTE, É MAR SEM CORAÇÃO.

SARDINHA SALTA LONGE, A BRIGA É DE TUBARÃO.

CHEQUE PODRE, CHEIO DE SANGUE QUE BANCA TUDO SEM PROBLEMA,]

CONTA COM ASSESSORIA, LÁ NA TELA DO CINEMA.

O MEU PAPO ACABOU, MAS VOU LUTAR ATÉ O FIM.

NÃO DEIXAR NUNCA QUE PLAYBOY POSSA FALAR POR MIM.]

A MINHA VOZ É POBRE, PEQUENA E ACANHADA.

NA QUEBRADA, PORÉM, É MUITO RESPEITADA.

A GENTE É VERDADE, REAL E SANGUE BOM.

NÃO PRECISA DESSES TRUQUES DA COMUNICAÇÃO.

VOCÊ TINHA PENSADO QUE PASSOU DESPERCEBIDO,

MAS AQUI TODO MUNDO JÁ SABE QUEM É QUE É O BANDIDO.]

MEU SOM, MEU RAP, VEM FUNDO, DO CORAÇÃO

E VOCÊ SEGUE PELA VIDA, COM SEU RECORTE DE SITUAÇÃO.]

DEIXA EM PAZ A MINHA GENTE, BABA-OVO DO PODER.

GERAL JÁ TÁ LIGADA: RESISTÊNCIA A VOCÊ.

PLAYBOY: SE LIGA, TOMA O RUMO, VAI ANDAR.

VÊ SE ARRANJA OUTRO PRA PODER ESCULACHAR.




É QUE VOCÊ NÃO ENTENDE, HIPOCRISIA

EM SUA VIDA ESCROTA DE BURGUESIA

VOCÊ NÃO SABE NADA; COM TANTA INFORMAÇÃO

É MAIS UM ALIENADO NO MEIO DA MULTIDÃO.




Fat A
Mano sangue, Taquaril, BH


17 março 2008

(a quem souber entender)




CANCIÓN PARA MI MUERTE
(Charly García)

Ouça Charly García e Fito Paez
cantando a música

Hubo un tiempo que fue hermoso
y fui libre de verdad
guardaba todos mis sueños
en castillos de cristal
poco a poco fui creciendo
y mis fábulas de amor
se fueron desvaneciendo
como pompas de jabón

Te encontrare una mañana
dentro de mi habitación
y prepararas la cama
para dos...

Es larga la carretera
cuando uno mira atrás
vas cruzando las fronteras
sin darte cuanta quizás
tomate del pasamanos
porque antes de llegar
se aferraron mil ancianos
pero se fueron igual

Te encontrare una mañana
dentro de mi habitación
y prepararas la cama
para dos...

Quisiera saber tu nombre
tu lugar tu dirección
y si te han puesto teléfono
también tu numeración
te suplico que me avises
si me vienes a buscar
no es porque te tenga miedo
solo me quiero arreglar

Te encontrare una mañana
dentro de mi habitación
y prepararas la cama
para dos...


O JEITO DE VIVER
(Sá e Guarabira)


Eu ainda sou
Aquele sonhador
Desculpe se o que eu sinto
É muito antigo
Desculpe o que eu fizer
É por amor
Eu ainda vivo
No mundo da lua
Fazendo planos simples pro futuro

Eu na verdade
Sou um menestrel medieval
Assombrado com imagens de televisão
Assustado pelas coisas que acontecem
Dentro do meu coração

Por isso eu penso
Que essas coisas
Não deviam ser
Como elas são
(pura paixão)

Eu ainda estou
Querendo descobrir
Um jeito de mostrar meu sentimento
Um jeito claro e simples de viver
Sem precisar fingir

Eu na verdade
Sou um menestrel medieval
Assombrado com imagens de televisão
Assustado pelas coisas que acontecem
Dentro do meu coração
Por isso eu penso
Que essas coisas
Não deviam ser
Como elas são
(pura paixão)

(Dom Quixote - Cândido Portinari)

POETAS DO MUNDO

Alfonsina Storni

Veja e ouça aqui a homenagem eterna de
Ariél Ramírez e Félix Luna
interpretada por Mercedes Sosa.

Leia a letra de Alfonsina y el Mar




O ENGANO

Sou tua, Deus o sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.

Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.

Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator do papel dono.

Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.