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25 abril 2008

OS DENTES NÃO VOLTAM
(Uma velha canção pop'n'roll)


(Alexandre Campinas)





Por que aquele maldito dente tinha que quebrar apenas com uma mordida de pão francês ? Não. Não era na frente, nada que exacerbadamente constrangesse. Mas quebrou. Ficaram apenas cacos relativamente presos na gengiva. Já não é o primeiro. Filosofo na frente do espelho: da mesma forma que vêm, vão-se. Aos poucos. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Ao virem, causam febre. Vi minha febre no espelho à partida. Tava lá. Estampada como manchete da primeira. Como link de propaganda: Browse it, Browse it !, gritava, vociferava. Ardia, acima de tudo. O espelho mostrou tudo. Alice. Pobres, todos, alices. E fui apenas olhar um dente moribundo... É meu Aleph particular, um tanto revisitado, outro tanto curtido. Entretanto jamais mediado como agora. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Houve de ser o espelho quem mo avisasse. E foi bruto ! Apontou o grisalho de tudo, os pequenos sinais e pintas que só percebia transmudarem-se em marcas senis na face de meu pai. Agora tudo parecia queimar-me as ilusões de uma adolescência que já não é. Febre. Há cigarro demais, há fundamento demais para pouca construção. O espelho. Tudo emerge de mim voluptuosamente. Sonhos, planos, o que fiz e o que não. O que pretendo e o que não entendo. Tudo, agora, faz sentido. As chispas fraternas que tanto abalaram, o olhar alheio, perscrutador, inquisitório. Cobranças infindáveis, inquietação irritante. Sou uma falha-que-anda. Um tropeço divino. Um extemporâneo que julga-se atemporal. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.

O espelho. Guarda-metas de qualquer tentativa de projeção mais funda do que é permitido. Mostra o quão inadaptável sou. Ok, ok... Sem reclamações desta vez. E é ele quem determina. Pauta. Jogo nele o Sá, o Guarabira, o Beto, o Barão, o Taiguara, o Legião, o Lula, o Montenegro, o Noel, O Capital . Ele não reflete. Ou, por outra, belchioriza a resposta: “viver é melhor que sonhar”. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Tudo está maus. "Então foi tudo sonho ?", tento argumentar. Ele responde: “Piegas”. Não. Não são meus, aqueles olhos. Nada ali sou eu. E tudo sou: junto da gengiva, sobretudo, cacos. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


O adágio apregoa, e eu tô ligado nele, só nele. Enquanto há vida, há esperança. Do pc, lá na sala, baixinho, porque madrugada, um arquivo mp3 implora, vindo lá do fundo da adolescência: é o Celso quem pede “aumenta que isso aí é rock'n'roll”. E já é um indício. Quase um grito libertário: um suicídio para tudo que é, em direção ao que – ainda – pode ser.


Na seqüência da playlist uma confirmação de que ainda não sou aquele do espelho (embora, desgraçadamente, ele se pareça comigo; e eu, tanto com ele). Uma confirmação de que em mim tudo deverá continuar como é (apesar dos dentes que não voltam) e de que não sou (o único) anjo torto. A escovação ? Vai bem. Nada luxuosa, mas nem um pouco omissa.


Conta aí, Lô, o que o Márcio escreveu:


“Sinais de bem desejo de cais
Pequenos fragmentos de luz
Falar da cor dos temporais
De céu azul das flores de abril
Pensar além do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu
O mundo lá sempre a rodar
E em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer”



Canta junto aí !


22 abril 2008


MISSA DA TERRA SEM-MALES
(D. Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra)


Abertura

Em nome do Pai de todos os Povos
Maíra de tudo,
excelso Tupã.
Em nome do Filho,
Que a todos os homens
nos faz ser irmãos,

no sangue mesclado
com todos os sangues,

em nome da Aliança da Libertação.

Em nome da Luz de toda Cultura,
Em nome do amor
que está em todo amor.


Em nome da Terra-sem-males,
perdida no lucro, ganhada na dor,

em nome da Morte vencida,
em nome da Vida,

cantamos Senhor!


Eu era a Terra livre,
eu era a Água limpa,

eu era o Vento puro,

fecundos de abundância,

repletos de cantigas.
E nós te dividimos
em regras
e em fronteiras.

A golpes de ganância retalhamos a Terra,
invadimos as roças
invadimos as tabas,
invadimos o homem.
Eu fazia um caminho
a cada vez que passava.


Era a Terra o caminho
,
o caminho era o homem.


Assista a uma cena AQUI

Leia AQUI sobre a questão indígena:
sem máscaras


(Alexandre Campinas participou
da montagem da Missa da Terra Sem-Males,
no Rio de Janeiro, em 1984,
Grupo K Entre Nós,
direção de Mário Sérgio Medeiros)



Úteros de Carpete
(Kinho Vaz)



O dia nasce nos golpes sucessivos do badalo. Um som
que se entranha pelos poros estimulando uma leve
consciência. Os olhos permanecem fechados. O corpo
entorpecido pelo resto de sono. As juntas resistem
a qualquer movimento. Reclamam. Têm vozes
que berram na mente um grito de socorro.
Fazem muito barulho. Os ouvidos despertam.
Apuram o mundo. Sintonizam canais em
busca de um som. Reconhecem o sino do mosteiro.
Que bate firme. Que bate fundo. Que bate
estaca. Crava na percepção o limiar da realidade.
Anuncia o tempo em seu ritmo imperativo.
Os olhos se opõem. Reagem. Apertam
as pálpebras. Entrelaçam os cílios como
uma rede de proteção. Última linha de defesa.
Pronta para impedir que nada saia, que nada entre.
Barreira do limbo. O corpo
todo se esforça para reabrir o portal dos
sonhos. Submergir novamente na paz oceânica.
Se entregar à sensação do abandono pleno.
Vagar no vácuo. Ignorar a vida. Mas é tarde.
Não há caminho de volta.


As buzinas já avisam que o sinal abriu. Os motores
já começam a arrotar os soberbos desjejuns.
Os passos apressados surgem como ecos.
Pisam com estrondo num chão que parece
metálico. Propagam o aviso do seu
caminhar em ondas que se multiplicam.
Que se espalham como notícia ruim. É a
horda dos aceitos que chega,
caminhando a sua indiferença. Trazem também
as vozes. Não esta. As outras, que falam de tudo.
Que sorriem. Que xingam. Que cantam.
Que aumentam e diminuem. Que profanam a
vida latente no útero de carpete.
Chegam disparando o sinal de alerta.
Deixam o espírito em estado de vigília. Fazem a
razão se espalhar em picadas miúdas e doloridas.
Surreais como uma chuva de alfinetes.
Fustigam o corpo até que vem um tremor
mais forte. Esse, provocado pelas portas do
comércio subindo com seus disparos de
metralhadora. São as matracas que anunciam
o ritual da purificação.
O momento da maquiagem que disfarça
a cicatriz. Do curativo inútil na
ferida gangrenada.


É o instante que introduz os sons da
desfaçatez. Do barulho da água lançada ao
calçamento. Do chiado agudo das vassouras
esfregando o assoalho do purgatório.
Compondo com o sino do mosteiro o arranjo
de uma ópera-bufa. Uma peça de
paródia, onde baianas sem máculas lavam
as escadarias do templo usando cântaros
de creolina. O cheiro forte invade as
narinas. Queima os pulmões.
Faz os olhos chorarem sem querer,
vertendo privações. A língua pastosa descola do
céu da boca. Desperta insossa e ressecada.
Incapaz de decifrar o sal da lágrima.
O estômago pesa sua inatividade.
Pondera a possibilidade do alimento.
Lembra a urgência da fome. Está tão
contorcido e vazio quanto o saco plástico
que ontem continha a cola de sapateiro.
A química de onde se aspira instantes de paz.
Momentos de ternura com lares, leitos e
leite quente ao deitar. Tudo que
não é real. Nada que se faça tão presente
como o cutucão do cabo da vassoura.
Cócegas nas costelas. Nem tão alto
como o grito de “tá na hora!”.
Beijo de bom dia.


O primeiro pontapé é recebido como
um carinho. Confundido com o delírio do
sonho. Pensa ser a mãe que nunca existiu,
chamando para a escola que nunca
houve. O segundo chute vem mais forte.
Não deixa dúvidas de quem está chamando.
Nesse ponto a vassoura muda de função.
Assume o papel de fórceps. Busca
uma brecha na cápsula de trapo. Vasculha
o interior do casulo como um instrumento de
curetagem. E com precisão cirúrgica se transforma
num tridente. Símbolo do mal.
Começa a atiçar a carne com suas fibras
de piaçaba. Provoca mais dor. É mais um motivo
para acordar. Para desinfetar dali. Para abortar
a tentativa de fugir à realidade.
Para continuar sobrevivendo.

Então se dá a revelação. O mistério da vida
gerada nas ruas. O instante sagrado onde os mundos
se tocam. O útero de carpete se rompe. Dá à luz
o improvável. Expulsa do seu interior um
pequeno ser. Quase humano.
Que apanhou e chorou para nascer. Como
toda gente. Mas que não terá colo, nem seio,
nem berço.

Nem a promessa de voltar a nascer amanhã.



(A árvore da vida indígena - Siegfried Kreutzberg)

Saiba

(Arnaldo Antunes)


Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem

Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você


Genial:
para desconstruir o fascismo
de Tropa de Elite.

Veja AQUI.

21 abril 2008

GATA NEGRA DO VALE CENTRAL
(Alexandre Campinas)


Te sinto maçã verde
enquanto a ameixa passeia
nas estrelas do céu
da minha boca.



Um beijo de amora,
orvalhada nas gotas
do baobá imenso,
antecede
paladares profundos:

teu sexo violáceo,
rubro por mim.



06 abril 2008



Socialismo "Crístico"


Este é o espírito da coisa !

Dom Hélder Câmara,


na Missa dos Quilombos,


faz a

INVOCAÇÃO À MARIAMA



Mariama, Nossa Senhora Mãe de Cristo e Mãe dos Homens!

Mariama Mãe dos Homens de todas as raças,

de todas as cores, de Todos os cantos da Terra.
Pede ao teu Filho que esta festa não termine aqui,
a marcha final vai ser linda de viver.

Mas é importante, Mariama, que a Igreja de Teu Filho
não fique em palavra, não fique em aplauso.
O importante é que a CNBB, a Conferencia dos Bispos, embarque de cheio na causa dos negros, como entrou de cheio
na Pastoral da Terra e na Pastoral dos Índios.


Não basta pedir perdão pelos erros de ontem.
É preciso acertar o passo hoje sem ligar ao que disserem.


Claro que dirão, Mariama, que é política,
subversão, que é comunismo.

É Evangelho de Cristo, Mariama.


Mariama, Mãe querida, problema de negro,

acaba se ligando com todos os grandes problemas humanos.
Com todos os absurdos contra a humanidade,

com todas as injustiças e opressões.

Mariama, que se acabe,

mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas.
O mundo precisa fabricar é Paz.


Basta de injustiças, de uns
sem saber o que fazer com tanta terra
e milhões sem um palmo de terra onde morar.

Basta de uns tendo de vomitar pra poder comer mais
e 50 milhões morrendo de fome num ano só.

Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo
e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.

Mariama, Nossa Senhora, Mãe querida.
Nem precisa ir tão longe como no teu hino.
Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias
e os pobres de mãos cheias.

Nem pobre nem rico.


Nada de escravos de hoje
ser senhor de escravos amanhã. Basta de escravos.

Um mundo sem senhor e sem escravos.

Um mundo de irmãos.

De irmãos não só de nome e de mentira.
De irmãos de verdade,

MARIAMA.

26 março 2008

Rhythm and Poetry





URSO FASCISTA

("Fat A")



DESCENDO AQUELA RUA COM UM IRMÃO

ENCONTREI COM VOCÊ NA CONTRAMÃO.

EU SOU DA COR, MAS ISSO NÃO DIZ NADA:

POR QUE VOCÊ ME OLHOU E MUDOU LOGO DE CALÇADA ?

QUALQUER COR TEM UM GUERREIRO

DE TODAS AS CORES É FEITO UM BRASILEIRO.



MAS VOCÊ NÃO ENTENDE, HIPOCRISIA

EM SUA VIDA ESCROTA DE BURGUESIA

VOCÊ NÃO SABE NADA; COM TANTA INFORMAÇÃO

É MAIS UM ALIENADO NO MEIO DA MULTIDÃO.


VOU TE DAR UMA IDÉIA, MAS NÃO QUERO QUE SE IRRITE:

QUALQUER CARNE QUE NÃO SEJA BRANCA COMO A LUA,

PODRE E CORROMPIDA, EXATAMENTE COMO A SUA,

VOCE PRENDE, JULGA E CONDENA: FILÉ MIGNON PRA TROPA DE ELITE.]

UM SHOW DE SANGUE DIÁRIO NA FAVELA

RECORTE DA REALIDADE FEITO SÓ PRA ALIMENTAR

UM BOLSO DELIRANTE, PRONTO PRA ENGORDAR.

NOSSA VIDA É MUITO MAIS, MUITO MAIS DO QUE AQUELA

ILUSÃO, SENSO COMUM, FILME REACIONÁRIO, PORCARIA

IMITAÇÃO BARATA DO QUE CANTA MINHA VOZ

UMA IMAGEM PERDIDA, DA MINHA PERIFERIA.

NÃO, VOCÊ NÃO DESTRUIU O SONHO DE TODOS NÓS.



MAS VOCÊ NÃO ENTENDE, HIPOCRISIA

EM SUA VIDA ESCROTA DE BURGUESIA

VOCÊ NÃO SABE NADA; COM TANTA INFORMAÇÃO

É MAIS UM ALIENADO NO MEIO DA MULTIDÃO.



NÃO VOU ACEITAR: É SUA VIDA, SEU PROBLEMA.

VEIO O FILME E O SUCESSO PRA ALIMENTAR ESSE SISTEMA.]

NA ESCOLA DA QUEBRADA, NA HORA DO RECREIO,

BRINQUEDO DE SACO PLÁSTICO JÁ NINGUÉM MAIS TEM RECEIO.]

VOU TE DAR A LETRA, AGORA É MINHA VEZ.

DOIS MOLEQUES BRINCANDO: VEJA O MAL QUE VOCÊ FEZ.

A DIVERSÃO É A TORTURA,

IMITAÇÃO DA CANA DURA.

HOJE EM DIA ATÉ OS MANOS ESQUECEM DA REALIDADE:

FAMÍLIA, AMIGOS, COMUNIDADE.

PASSAM A ENTENDER A VIDA DA PERIFERIA

COMO SE FOSSE ESSE FILME RECORTADO,

IMITAÇÃO BARATA DE PAU-MANDADO

REPRESENTANTE DA FORÇA INJUSTA QUE SÓ PREGA BAIXARIA]



MAS VOCÊ NÃO ENTENDE, HIPOCRISIA

EM SUA VIDA ESCROTA DE BURGUESIA

VOCÊ NÃO SABE NADA; COM TANTA INFORMAÇÃO

É MAIS UM ALIENADO NO MEIO DA MULTIDÃO.



EU PARO POR AQUI, MAS A REAL CONTINUA.

LARGA DO MEU POVO NESSA HISTÓRIA QUE É SÓ SUA.

TRANSGRESSÃO DETURPADA, OITÃO DA COMUNICAÇÃO,

ARMA QUE NÃO QUERO, FICA SÓ NA SUA MÃO.

MEU CALIBRE É BEM MAIOR, NÃO PRECISO DA SUA TELA.

NA MORAL EU CANTO A PAZ, FRATERNIDADE NA FAVELA.

TEM COISA RUIM, TEM COISA BOA, MAS NADA É TÃO FRATICIDA]

QUANTO O PODER DO DINHEIRO, QUE SÓ CORRE NA AVENIDA.]

CAPITAL DE GIRO VIOLENTO, CAPITÃO NASCIMENTO NÃO REVELA]

QUE AQUI NÃO NASCE GRANA, O DINHEIRO VEM DE FORA DA FAVELA.]

ROUBO, FALCATRUA, GOLPE E CORRUPÇÃO.

O DINHEIRO BANCA TUDO: DO PÓ À ELEIÇÃO.

LADRÃO JÁ FOI CRIANÇA, COLEGA DE ESCOLA, MANO MEU SEMPRE SERÁ.]

NÃO É PELO ERRO QUE EU VOU LHE RENEGAR.

MAS NO ASFALTO É DIFERENTE, É MAR SEM CORAÇÃO.

SARDINHA SALTA LONGE, A BRIGA É DE TUBARÃO.

CHEQUE PODRE, CHEIO DE SANGUE QUE BANCA TUDO SEM PROBLEMA,]

CONTA COM ASSESSORIA, LÁ NA TELA DO CINEMA.

O MEU PAPO ACABOU, MAS VOU LUTAR ATÉ O FIM.

NÃO DEIXAR NUNCA QUE PLAYBOY POSSA FALAR POR MIM.]

A MINHA VOZ É POBRE, PEQUENA E ACANHADA.

NA QUEBRADA, PORÉM, É MUITO RESPEITADA.

A GENTE É VERDADE, REAL E SANGUE BOM.

NÃO PRECISA DESSES TRUQUES DA COMUNICAÇÃO.

VOCÊ TINHA PENSADO QUE PASSOU DESPERCEBIDO,

MAS AQUI TODO MUNDO JÁ SABE QUEM É QUE É O BANDIDO.]

MEU SOM, MEU RAP, VEM FUNDO, DO CORAÇÃO

E VOCÊ SEGUE PELA VIDA, COM SEU RECORTE DE SITUAÇÃO.]

DEIXA EM PAZ A MINHA GENTE, BABA-OVO DO PODER.

GERAL JÁ TÁ LIGADA: RESISTÊNCIA A VOCÊ.

PLAYBOY: SE LIGA, TOMA O RUMO, VAI ANDAR.

VÊ SE ARRANJA OUTRO PRA PODER ESCULACHAR.




É QUE VOCÊ NÃO ENTENDE, HIPOCRISIA

EM SUA VIDA ESCROTA DE BURGUESIA

VOCÊ NÃO SABE NADA; COM TANTA INFORMAÇÃO

É MAIS UM ALIENADO NO MEIO DA MULTIDÃO.




Fat A
Mano sangue, Taquaril, BH


17 março 2008

(a quem souber entender)




CANCIÓN PARA MI MUERTE
(Charly García)

Ouça Charly García e Fito Paez
cantando a música

Hubo un tiempo que fue hermoso
y fui libre de verdad
guardaba todos mis sueños
en castillos de cristal
poco a poco fui creciendo
y mis fábulas de amor
se fueron desvaneciendo
como pompas de jabón

Te encontrare una mañana
dentro de mi habitación
y prepararas la cama
para dos...

Es larga la carretera
cuando uno mira atrás
vas cruzando las fronteras
sin darte cuanta quizás
tomate del pasamanos
porque antes de llegar
se aferraron mil ancianos
pero se fueron igual

Te encontrare una mañana
dentro de mi habitación
y prepararas la cama
para dos...

Quisiera saber tu nombre
tu lugar tu dirección
y si te han puesto teléfono
también tu numeración
te suplico que me avises
si me vienes a buscar
no es porque te tenga miedo
solo me quiero arreglar

Te encontrare una mañana
dentro de mi habitación
y prepararas la cama
para dos...


O JEITO DE VIVER
(Sá e Guarabira)


Eu ainda sou
Aquele sonhador
Desculpe se o que eu sinto
É muito antigo
Desculpe o que eu fizer
É por amor
Eu ainda vivo
No mundo da lua
Fazendo planos simples pro futuro

Eu na verdade
Sou um menestrel medieval
Assombrado com imagens de televisão
Assustado pelas coisas que acontecem
Dentro do meu coração

Por isso eu penso
Que essas coisas
Não deviam ser
Como elas são
(pura paixão)

Eu ainda estou
Querendo descobrir
Um jeito de mostrar meu sentimento
Um jeito claro e simples de viver
Sem precisar fingir

Eu na verdade
Sou um menestrel medieval
Assombrado com imagens de televisão
Assustado pelas coisas que acontecem
Dentro do meu coração
Por isso eu penso
Que essas coisas
Não deviam ser
Como elas são
(pura paixão)

(Dom Quixote - Cândido Portinari)

POETAS DO MUNDO

Alfonsina Storni

Veja e ouça aqui a homenagem eterna de
Ariél Ramírez e Félix Luna
interpretada por Mercedes Sosa.

Leia a letra de Alfonsina y el Mar




O ENGANO

Sou tua, Deus o sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.

Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.

Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator do papel dono.

Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.

09 janeiro 2008

O jornalista e escritor Evaldo Magal
em uma homenagem autoral a...

Nélson Rodrigues



O AVIADOR
(Evaldo Magal)


Bruno tinha os cabelos vastos e grisalhos, um rosto de ângulos retos que não deixava dúvidas quanto à sua masculinidade, conjuntos quase simétricos de rugas nos cantos opostos da boca que sugeriam alguns milhares de sorrisos acumulados ao longo das mais de quatro décadas de vida – embora, até por falta de estímulo, ele não fosse muito dado a esse hábito – e o porte típico de um coroa-jogador-de-peteca-cinco-vezes-por-semana: barriga musculosa e pele cor de jambo.

Aos domingos, no clube, quando não estava na quadra exalando o uisquinho moderado do sábado, jamais dispensava, ao desfilar entre as mesas à beira da piscina, nas quais distribuía saudações aos muitos amigos, o acompanhamento dos óculos de grife de lentes fumê.

Talvez os usasse para passar a impressão, sobretudo às mulheres de meia idade que freqüentavam o local, muitas delas casadas, de que poderia muito bem ser um experiente, viajado e instigante piloto de Boeing em férias em Belo Horizonte, em vez de um não tão bem-sucedido corretor de imóveis nativo, um estulto provinciano que jamais havia ido muito além de São Paulo, ao sul, ou da Bahia, ao nordeste. E sempre de carro, já que morria de medo de aviões.

Talvez os usasse apenas para olhar, sem precisar dar satisfações a quem quer que seja, o que realmente queria ver.

Ele era o tipo que jamais revelava o que sentia ou pensava, particularmente quando isso pudesse colocá-lo em apuros. E o que sentia e pensava, quando mirava as bundas duras por horas e horas de aeróbica ou hidroginástica ou mesmo as mais flácidas, mas apetitosas, das esposas e amigas dos amigos ou das desconhecidas, estendidas nas imediações da piscina, não merecia mesmo ser revelado; ele só queria fodê-las.

“Eu chupava essa. Olha só... puta que o pariu...”, “Ah, essa aí eu rasgava em duas...”, “Putz, eu me lambuzava naquela...” eram frases que comumente lhe ocorriam, nesses momentos, apesar de nunca pronunciá-las

E Bruno atingia, vez ou outra, seus objetivos inconfessáveis.

Naquele domingo no clube, conseguiu levar para debaixo de uma das três grandes amendoeiras dos fundos do terreno, perto da pista de atletismo, a amada e aparentemente fidelíssima mulher do Caldeira, colega da imobiliária. Francilene, uma morena alta e vistosa de seios fartos e idéias curtas, que, a despeito dos 48 anos, ostentava um traseiro de dar inveja ao de muitas meninotas, cedera com facilidade aos encantos do aviador de mentira.

Tudo começou em uma roda de carteado, no bar da piscina das plataformas de mergulho, o mais disputado pelos sócios antigos. Entre uma batida e outra, as do jogo de canastra e as de pêssego e maracujá, das quais Francilene se dava ao luxo de abusar – nos fins de semana ela bebia excessivamente como boa bipolar alcoólatra que era –, Bruno aproveitou para roçar o pé descalço na perna macia, a despeito de algumas manchas de micro-varizes, da então apelidada “mulherona do Caldeira”, sua parceira no jogo.

– Você bate pra mim ou eu tenho que bater? – ele cochichou, acreditando que a frase seria sutil o suficiente para plantar nela uma sementinha de tesão.

– Bato com prazer. E engulo tudo. – Francilene respondeu, direta, incisiva, sensual, mordendo os lábios, sem esconder o pilequinho, mas ciente de que Juvenal e Estela, a dupla de idosos oponente, não haviam escutado.

– Então bate agora, bate!

– Tá. Você é o mestre. Eu faço tudo, é só mandar. – ela disse, colocando, literalmente, as cartas na mesa.

Os dois nem esperaram a contagem dos pontos, tarefa que Juvenal, depois de esfregar as mãos, confiante na vitória folgada, se preparava para por em prática. Deixaram a mesa correndo, um para cada lado, simulando aperto para ir ao banheiro ou alguma outra urgência.

O local do encontro fora definido por Bruno pouco antes. Ele apontara para o símbolo de paus da carta três e depois dissera, casualmente, que gostaria de se dedicar mais às corridas na pista emborrachada do clube, para manter a forma. Francilene, que não era muito esperta, entendeu imediatamente o recado, o que deixou em Bruno a sensação de que, ao contrário do que se diz por aí, o álcool pode aguçar a mente, em vez de embotá-la.

Enquanto Caldeira nadava seus dois mil metros habituais, em um estilo classificado como “cachorrinho-doente-livre” pelos falsos amigos, que riam dele e de seu patético exercício, todos os domingos, na piscina maior do clube, Bruno fodia Francilene gloriosamente atrás de uma das amendoeiras, estrategicamente localizada em um dos raros pontos cegos da plana vastidão do clube.

A menos de 100 metros de onde o marido se esforçava para manter a forma, pensando justamente na esposa e na possibilidade de ela querer trocá-lo por alguém mais esbelto, Francilene dava urros de prazer a cada estocada na bunda. Bruno se confundia: não sabia se tampava a boca da mulher ou se concentrava sua atenção integralmente no entra-e-sai. Mas isso não diminuía seu ímpeto. O gozo foi caudaloso.

Francilene, com as pernas bambas, reuniu forças e deu um passo à frente para desenganchar-se. Lépida para uma mulher de 50 anos, virou-se e se agachou para sorver, com voracidade, as últimas golfadas de Bruno, antes que ele dissesse algo como “você é louca, você é doida” e a erguesse para o imperioso abraço pós-coito.

– Temos que fazer isso mais vezes, meu anjo. – Ele não queria fazer aquilo de novo. Ela era só mais um troféu na sua não tão extensa galeria. Mas a compulsão de dizer coisas assim em momentos como aquele era irrefreável.

– Eu quero muito, meu lindo! Eu te desejo desde a primeira vez que te vi – ela respondeu, docemente, com os olhos brilhando para o “piloto” de cabelos grisalhos e porte atlético que imaginava ter acabado de satisfazer.

– Agora, vai, anda, que o Caldeira deve estar te procurando. Vai, minha gostosa.

Com ar vencedor, Bruno deu um tapinha na bunda maculada de Francilene, que acabara de abotoar o maiô estampado com rosas, e seguiu em sentido oposto, amarrando a sunga, de volta à piscina dos mergulhos.

Caminhou em direção ao bar com a certeza de que o mundo era um lugar bacana, mesmo que ele não fosse um aviador, como se imaginava ao circular com os óculos escuros de marca. E que as mulheres, afinal, ainda caíam a seus pés, aos 46 anos, graças à estampa de atleta corado e de homem capaz e preocupado com o destino de centenas de passageiros, a cada vôo. E que, embora ainda subsistisse o sonho distante de ser rico e, quem sabe, ter filhos, uma boa esposa, uma fazenda gigante de gado em Goiás ou Mato Grosso e, finalmente, um avião que pudesse conduzir com maestria até lá, nos fins de semana, havia boas coisas a desfrutar em sua vidinha por vezes insípida.

- E então? Rola uma petequinha, amigo? – Era Caldeira, que, botando os bofes para fora, ladeava a mesa onde Juvenal e Estela discutiam sobre a pontuação da canastra encerrada minutos antes. Caldeira, provavelmente, acabara de perguntar aos idosos onde estaria sua deusa Francilene e ouvira de um deles que ela, aparentemente, havia ido ao banheiro. O amigo traído se enxugava com uma toalha felpuda e alva como a certeza da fidelidade e, embora cansado, sorria como se tivesse acabado de nadar dois mil metros em um mar de rosas.

- Não. Você não dá conta, Caldeira. Nadou muito hoje. Na sua idade, não é bom facilitar as coisas. Você tá muito caído, meu velho – disse Bruno, que costumava associar os prazeres a pequenas humilhações dirigidas a quem, direta ou indiretamente, os havia proporcionado.

- Pois eu dou no couro, amigão. Garanto que venço você agora. Três a zero, valendo um uísque 30 anos. Topa? – Caldeira reagiu.

– A grana é sua. Vamos.

Bruno não fez corpo mole. Pelo contrário. “Enrabei sua mulher literalmente e, agora, vou foder você, figuradamente”, ele pensava. A cada saque, exigia de Caldeira mais do que um garotão de 18 anos pudesse dar. Dava tapas na peteca com efeitos inacreditáveis, jogava-a em espaços impossíveis, pulava a alturas inimagináveis para cravá-la no rosto do colega de trabalho, que, ofegante e atordoado pelo empenho absurdo do adversário, não conseguia desviar as cortadas.

Perto de completar o último ponto, Bruno observou que Caldeira arfava mais que o normal, mesmo para um sujeito de 54 anos, barrigudo e bebedor inveterado de uísque. A vermelhidão do rosto dele saltava aos olhos, a 15 metros de distância, e certamente nada tinha a ver com o bronzeado ou com as petecadas que levara.

– Caldeira, você tá legal? – Bruno gritou.

- Eu...

Caldeira caiu com a velocidade de um saco de batatas solto propositalmente, longe do caminhão, por um estivador irritado com a excruciante jornada de trabalho. Produziu um barulho choco, mas audível e de provocar arrepios a quem o escutasse, no cimento pintado de verde, provavelmente advindo da fratura do nariz ou do maxilar. Duas meninas que acompanhavam o jogo soltaram urros histéricos, antevendo o que se seguiria. Bruno correu em direção ao corpo estatelado de Caldeira e constatou, enquanto se aproximava, que ele não mais arquejava.

- Puta que o pariu! – ele disse, olhando em seguida para os lados e, para aumentar seu desespero, identificando Francilene, em pé, em frente ao bar, transparecendo no rosto um inegável quê de congratulações, de admiração e até de tesão pelo que ele, supostamente de forma dolosa, havia acabado de fazer.

- Francilene !

Ela correu para os dois corpos, o do amante, vigoroso, e o do marido, esparramado no chão.

- Deixa que eu cuido de tudo, meu lindo. – ela sussurrou no ouvido de Bruno. Deu-lhe um beijo molhado e uma inesperada lambida na bochecha, antes de começar a chorar exageradamente e quedar-se sobre o defunto, dirigindo imprecações aos céus.

08 janeiro 2008


DISTOPIA

(Alexandre Campinas)

Anti-poema.
Infelicidade.
Alma de cão.
Por que cão ?


Matar.
Sede de sangue de puta velha.
Corromper.
Queimar animais e deleitar-se com a agonia.
Pichar palavrões em muros de igrejas,
crucificar, crucificar, crucificar.


Um ditador para cada estado
dessa América.
(eu não resisto)Latrina.
Um grande empreendimento imobiliário

(mais de 20 andares e
advanced kitchen balcony)
em cada mata.
Uma Itaipú pra cada rio.
Um terrorista turco
pra cada papa.
Uma forca

pra cada Tiradentes.
Um rombo polvoroso nos córneos
de cada pacifista.

A bomba.
Bela atômica.

Um presidente
cheio de subserviência e

um traficante no Ministério da Justiça.

Sou a dúvida nova
da sua desprezível certeza.
Globalização
na sua unidade original.
Sou o todo,
deus manipulador

nos ditames gerais
que trago.

Sai do meu lado.
Você não é adequado à mídia,
é economicamente inviável
(embora seus empréstimos
lhe garantam o contrário).
Seus olhos são poças d'água.

Poluída.
Você é abandono
na Geena ordinária do tempo eterno
que destrói o tanque
de seu abdomem.

Ave Pinochet, Médice, Golbery e Videla!
Ave Adão !
Viva o Mário Soto do Cobreloa !

Caia nas mãos dos anjos de Ternura !
Seja atendido em pronto-socorro público
na madrugada dos seus dias !

Ore em templos obtusos.

Que sempre haverá
Um bial panóptico

comandando a média,
a mérdia, a mixórdia irrefreável.
Excrescência supurada,
apenas na qual

encontrará
o leite.
O mel.



-*-*-*-*-*-

Odiou ? Faça diferente, mas faça MESMO !

É disso aqui que sempre falei. Grande sacada !!!

"Y hablo de países y de esperanzas
Y hablo por la vida, hablo por la nada
Y hablo de cambiar esta nuestra casa
De cambiarla por cambiar nomás

Quién dijo que todo está perdido
Yo vengo a ofrecer mi corazón"

(Fito Paez)

03 janeiro 2008

PARA PENSAR EM 2008:
JUSTIÇA SOCIAL,

PORQUE NADA MUDOU

O operário em construção
Vinícius de Moraes



"(...)Sentindo que a violência
Não dobraria o operário

Um dia tentou o patrão

Dobra-lo de modo contrário

De sorte que o foi levando

Ao alto da construção

E num momento de tempo

Mostrou-lhe toda a região

E apontando-a ao operário

Fez-lhe esta declaração:

- Dar-te-ei todo esse poder

E a sua satisfação

Porque a mim me foi entregue

E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer

Dou-te tempo de mulher.

Portanto, tudo o que vês

Será teu se me adorares

E, ainda mais, se abandonares

O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário

Que olhava e refletia

Mas o que via o operário

O patrão nunca veria

O operário via casas

E dentro das estruturas
Via coisas, objetos

Produtos, manufaturas.

Via tudo o que fazia

O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via

Misteriosamente havia

A marca de sua mão.
E o operario disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?

- Mentira! - disse o operário
Nao podes dar-me o que já meu(...)"



Veja e ouça aqui a versão cantada, por Taiguara.
E aqui, a obra na íntegra.
Ou, aqui, uma música correlata de Zé Geraldo: Cidadão.

27 dezembro 2007



O instante é memória
Só se pensa quando passa
E envelhece na vidraça
Olhando o seu amor amar

Entradas que se abrem
Cores que se perdem no branco
Veias que penetram a pele
Em uma geografia perfeita do tempo

Não se procura a fruta mais bonita
A que está ao alcance já satisfaz
E a vida, com seu complexo labirinto
Deixa bilhetes em paredes que cismo em passar

As grafias aceleram os ventos da tempestade
Os retratos encharcam emoções em nossas janelas
A saudade entra como um mal-súbito
Socando o peito com batidas secas

E assim, criam rios na cara do presente
Que em um simples encontro com o passado
Perde a noção daquilo que já não se tem
Do que já não volta

De tudo aquilo que a vida já viveu.


(Ouça aqui, Oração ao Tempo, com Caetano Veloso)


19 dezembro 2007

supernova bossa
(Denner Campolina)



no horizonte de eventos singularidades

procuro o meu amor no hiperespaço...não linear

e na matéria exótica me vejo tenso

desconhecendo o feitiço do tempo...meu amor

sou corda vibro no ar

frequencia com efeito dopler...dependo do referencial!

a supernova consciencia unificada

se expande em ondas de choque...não linear

vou encontrar o meu amor no espaço tempo

me preocupar com o paradoxo do meu próprio encontro...dimensional

quem é que vai completar?

e raio gama irradiar

....a minha antimatéria...

09 dezembro 2007

"O violino de Ingres"
Man Ray - Fotógrafo surrealista



FUGA E ADÁGIO
(Kinho Vaz)

Era noite escura quando a perseguição se deu. Eu arfando na frente, fugindo das garras e dos dentes que me perseguiam. Enveredei pela floresta com todos os sentidos em alerta, quebrando galhos secos e fugindo sem apagar pistas. Correndo e querendo ser alcançado com a mesma força, em total contradição. O hálito doce que me buscava ignorava distância e tempo. Mais cedo ou mais tarde estaria misturado ao meu, me submetendo à voraz, felina e definitiva mordida de abate. Senti-me perdido, presa fácil. Animal longe do bando, em território alheio, espreitando desejos que não podiam me pertencer. A mente roçava na superfície áspera das lembranças, enquanto se esgueirava pelo mato cerrado da realidade. Os lanhos fundos e doloridos na consciência foram inevitáveis. Quanto mais eu corria, mais perto chegava do fim. Parecia estar imitando os sentimentos, que se postavam em círculos entre o querer e o não querer, entre o lutar e o se entregar, entre o certo e o errado. Não havia saída na densa noite sem caminhos. Então eu parei de correr e esperei a hora da luta, fortalecendo minhas esperanças na crença de que a melhor sepultura para um guerreiro é o ventre do inimigo. Aos poucos comecei a sentir no vento o perfume do meu destino. Doce, delicado e inebriante como o aroma de uma fruta exótica.

Sua chegada me encontrou passivo, entregue. Mostrou-se sem pressa de concluir sua conquista. Rodeou-me lentamente, olhos fixos nos meus, diminuindo meu espaço em voltas cada vez menores, cada vez mais próximas, cada vez mais intransponíveis. Essa proximidade me enfeitiçou, me fez acreditar, ser eu, um banquete digno de tal cerimônia. Então percebi que já não poderia ir a lugar algum. Estava preso, cercado, dominado. Pronto para ser devorado em ritual premeditado pelos instintos viscerais que regem a relação entre caça e caçador. Fechei os olhos e abri os braços, preparado para o bote fatal, entregue nas mãos de um destino cruel, mas meigo como um sonho bom. Meu corpo entorpeceu à proximidade do seu calor. O respirar ansioso invadiu o meu, fazendo meu coração pulsar em compassos impróprios. Passeou sua língua por todos os meus poros, apetecendo o paladar, apurando os sentidos na visão da refeição servida. Invadiu meus sonhos com um olhar carregado de promessas de menina, me fazendo sentir que aquela era a hora certa para deixar de existir. Só então começou a me devorar, calma e lentamente. Tirou-me os olhos, os ouvidos e a língua com tamanha destreza, que eu mal percebi que os perdia. Passou então a se ocupar do meu juízo, vasculhando, invadindo, dominando a intimidade dos meus pensamentos. Até que finalmente chegou ao meu coração, fazendo um estrago delicioso. Daí pra frente, já não pude mais ver, ouvir, falar, pensar e nem sentir nada que não fosse voltado para aquela dominação.

A selva me fez prisioneiro, a curiosidade me fez presa e a fraqueza me fez escravo dessa força irresistível, que desconhece a carne, o tempo e a própria razão.

13 setembro 2007


Buraco Paradoxal
(Bye, bye, Platão)

(Alexandre Campinas)


Velhas paredes, cheias de hera

num mundo de sombras

cheio de mar e tanta terra,

de gente enfiada no presente sem sal

cavado de dentro pra fora,

um buraco paradoxal.




Rasgo todo o véu,

abro com granada

o caminho pro meu céu.

Longe desse nada, longe do mal

onde tudo é muito mais

qe um buraco paradoxal.




Não quero ser mais um

colado na grande tv,

olhando projeções, coisa e tal:

ver sem perceber

que a coisa é mais embaixo,

é um buraco paradoxal.




Quero liberdade.

Por isso vou dormir,

voar para a verdade,

alma em sonho universal

pronta pra me parir

do buraco paradoxal.

11 setembro 2007


Barão de Cotegipe
(Kinho Vaz)

Um caminho pra seguir
Uma rua pra lembrar
Poeira nos olhos
Estrada de sonhos
Mundo inteiro conquistar

Jogo de bicho, jogo de bola
Vai pra escola ser alguém
Nesse mundo só dá certo
Quem estuda muito bem...

Chão, ladeiras,
Vilas vivas,
Vão ficando para trás
Azulão, Bico de lacre,
Feira livre e rolimãs

Cospe fogo, terra santa
Roda viva, comichão
Pé descalço, ratazana
Mãe chorando no porão

Velho Jorge,
Mãe Neninha
Brasa de defumador
Chama acesa no olhar
Marca viva de amor

Gente boa que se foi
Mas deixou no seu lugar
Prole rica de promessas
Um desejo de sonhar

Chão, ladeiras,
Vilas vivas,
Vão ficando para trás
Azulão, Bico de lacre,
Feira livre e rolimãs

Cospe fogo, terra santa
Roda viva, comichão
Pé descalço, ratazana
Mãe chorando no porão